Quando surgiu a ideia de produzir um documentário sobre o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, as diretoras Patricia Rubano e Joana Mendes da Rocha, filha do protagonista, tiveram que superar algumas dificuldades, uma delas: convencê-lo da importância de registrar sua vida. “No começo ele nem queria. Dizia que era bobagem, que não tinha nada para falar. Que ia ficar uma coisa chata, apenas um velho arquiteto falando. Insistimos e fomos fazendo”, conta Joana.
Deu mais que certo. A obra, intitulada “Tudo é Projeto”, faturou prêmios como Melhor Filme Documentário do Público na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2017 e Prêmio de Público-Melhor Filme no Arquiteturas Film Festival Lisboa 2017, em Portugal.

Em entrevista exclusiva para o Claquete, a diretora Joana Mendes da Rocha – que estará junto com Patrícia Rubano na exibição do longa-metragem — conta um pouco sobre o processo de criação, sobre a relação do pai com a arquitetura e também opina sobre a obra capixaba. “Não faz sentido parar no meio”.

Joana: Queria fazer um documentário sobre o meu pai e a única maneira que achei viável era eu conversando com ele. Não queria que fosse um documentário muito burocrático. Não queria deixá-lo longe de mim, uma vez que ele é meu pai. Optamos por uma conversa.
Claquete: Os documentários há algum tempo passaram a ficar mais acessíveis, até devido aos serviços de streaming. Você acha que é um gênero que vem atraindo mais espectadores?
Joana: Eu acho que sim. Está se popularizando. Antes, as pessoas tinham até certo preconceito em ir assistir a um documentário. Hoje em dia são mais abertas e os canais específicos e a internet fizeram com que o gênero ficasse mais acessível. Tudo é uma questão de costume. É um formato muito interessante. A ficção é incrível, mas a vida real também é cheia de possibilidades.
Claquete: O gancho do documentário é a vida profissional, mas há também dados mais pessoais?
Joana: O filme é bem uma conversa, na qual o motivo principal é a arquitetura. Mas o discurso envereda por vários outros caminhos. É muito filosófico. É o jeito de Paulo Mendes da Rocha de falar. Ele associa a ideia com alguma coisa que ele viveu ou leu. Isso vai permeando o documentário inteiro. Mesmo quando falamos sobre uma obra, as reflexões de como ele a pensou ou o que quer dizer torna a conversa mais rica. Isso mostra o universo em que ele vive, que habita os pensamentos e a maneira de projetar dele.
Claquete: Seu pai sempre foi considerado modernista. Isso define a obra?
Joana: Não estudo arquitetura. Só nasci no meio dela. Mas acho que ele tem algumas características modernistas, no sentido de suas obras serem mais pensadas e pragmáticas. Acho que ele é principalmente brutalista, no sentido de deixar bem explícito o uso dos materiais. Modernista, talvez, nos traços mais limpos. Um desenho mais racional. Tem uma simplicidade. É isso que ele busca.
Claquete: Mas como surgiu o interesse de registrar essa história?
Joana: Quando ele ganhou o Pritzker, em 2006, eu trabalhava com a Patrícia e ficou claro que um filme sobre ele precisava ser feito. Como já estava nesse ramo, pensei: “não vou deixar outra pessoa fazer. Eu quero fazer”. A Patrícia quis fazer e a gente começou a escrever o roteiro, formatar projeto e ir atrás de financiamento para realizar. Comecei a conversar com meu pai e convencê-lo. No começo ele nem queria. Dizia que era bobagem e que não tinha nada para falar. Que ia ficar uma coisa chata, apenas um velho arquiteto falando. Insistimos e fomos fazendo. Ficou um documentário fácil de assistir, inclusive para um público grande e diversificado, não só para quem é arquiteto.
Claquete: É um filme tão bem-feito que recebeu prêmios como melhor documentário no Festival de Cinema de São Paulo na opinião do público. Como é para você essa conquista?
Joana: Foi uma surpresa enorme e uma felicidade. Não achava que fosse ganhar o prêmio. Gostei do resultado final, mas não esperei que fosse reconhecido com o prêmio de público, o que mostra que agradou e as pessoas gostaram. Eu a Pati ficamos muito felizes.
Claquete: O que foi mais difícil neste processo?
Joana: Tivemos bem pouco recursos financeiros. O difícil foi acreditar que um dia o filme fosse ficar pronto. Nós demoramos 10 anos para fazer. Em muitos momentos, achamos que não íamos conseguir. Não tinha apoio e não começamos com dinheiro. Foi na guerrilha. Chamando pessoas que a gente conhecia e conseguindo equipamentos emprestados para gravar algumas coisas necessárias para contar a história.
Claquete: E depois?
Joana: Já fazendo o filme, fomos na inauguração do Museu dos Conches, em Portugal, e conhecemos Nuno Sampaio da Casa da Arquitetura, que é um centro cultural do Porto. A Casa se propôs a financiar. Com isso, conseguimos finalizar. Depois veio o apoio do Canal Curta, para o qual vendemos o filme, e tivemos a colaboração da Olé, a produtora que acreditou no filme. Foi um filme de baixo custo, que foi orçado no valor bem maior do que foi feito.
Claquete: O seu pai é capixaba. Como são as referências ou lembradas da cidade no documentário?
Joana: Ele fala pouco de lembranças. O que a gente faz é mostrar a obra do Cais das Artes e inserir as imagens para mostrar de onde ele vem. Vitória entra muito como um lugar de referência do imaginário dele e desse amor que tem pela navegação, porto e mar. Tem todo esse universo que é de onde ele nasceu, da beira do mar. Usamos imagens de Vitória para entrar nesse universo dele.

Joana: É uma obra que precisa ser finalizada. A partir do momento que começou, não terminar é um prejuízo tanto em relação a um patrimônio cultural quanto financeiro. Não falta muito para finalizar. A maior parte está construída. Precisa ser terminada e vai ser um espaço importante para a cidade, ponto turístico e cultural, que vai chamar eventos. Não faz sentido parar no meio da obra. O Museu dos Conches, fazendo uma comparação, chama muito gente em Lisboa.

Joana: São semelhantes. Lá é perto do rio e aí, em Vitória, é perto do mar. Ha certas semelhanças, sim. É a forma de Paulo Mendes da Rocha de projetar.
Claquete: O seu pai foi professor universitário durante o regime militar e foi proibido de lecionar. Abordam esta questão no filme?
Joana: É bem rápido. Quase não falamos. Ele fala no meio de um discurso que foi atrapalhado pelo regime militar. O filme é mais filosófico do que as pessoas imaginam.
Claquete: Por que o filme atinge a todos e não só à categoria dos arquitetos?
Joana: Meu pai fala de questões universais. Fala de pensamento e de sentimentos que passam pela cabeça de todo mundo e não só dos arquitetos. É um jeito de olhar o mundo e de pensar a vida e o homem habitando o planeta. Tenho vários amigos de outras áreas que adoraram.
EXIBIÇÃO com bate-papo com as diretoras
Data: 26 de março (segunda-feira)
Horário: 19h
Local: Cine Jardins. Rua Carlos Eduardo Monteiro de Lemos, 262, Jardim da Penha, Vitória
FICHA TÉCNICA
Filme “Tudo é Projeto”
Gênero: Documentário
Direção: Joana Mendes da Rocha e Patricia Rubano
Duração: 74 min
Ano: 2017
País: Brasil
Classificação: Livre
Roteiro: Joana Mendes da Rocha, Patricia Rubano e Selma Perez
Produção Executiva: Gal Buitoni e Luiz Ferraz
Montagem: Selma Perez
Direção de Fotografia: Pablo Hoffmann
Fotografia Adicional: Lito Mendes da Rocha, Marília Scharlach, Rodrigo Menck e Tomaz Viola
Coordenação de Produção: Lucas Gattaz
Trilha Sonora: Gustavo Garbato e Guilherme Garbato
Som Direto: André Bellentani, Cassio Fabiano e Julio Abreu
Edição de Som e Mixagem: Garbato Bros
Design Gráfico: Nadezhda Mendes da Rocha
Finalização e Pós-produção: Quanta Post
Produção: Olé Produções
Coprodução: Opa!, Canal Curta! e Casa da Arquitectura
