Um filme que não foi feito para todo mundo. Talvez o indicado ao Oscar pelo Brasil, “O Grande Circo Místico”, de Cacá Diegues, requeira um aviso aos desavisados. Afinal, esta não é uma obra ao estilo hollywoodiano e nem um entretenimento puro e simples. É um exemplo de arte brasileira com tons dramáticos e poéticos.
Utilizando a frase de introdução dita pelo personagem Celavi — o mestre de cerimônia, interpretado pelo sempre intenso Jesuíta Barbosa, que passa por todas as gerações da família Knieps — aquele é um espetáculo de “picardia, putaria e poesia”.
Há no filme toda uma atmosfera de encantamento que outrora envolvia as apresentações circenses e que infelizmente vem se perdendo. Ao espectador mais velho traz uma sensação que beira à nostalgia.

A evolução da família é contada em capítulos que simbolizam o passar do tempo. Há referências pontuais há grandes longas-metragens, como o premiado Moulin Rouge (2008), mas o ritmo é outro e o enredo também. Toda a história é baseada no poema “O Grande Circo Místico”, do escritor modernista Jorge de Lima, escrito em 1938 e publicado no livro “A Túnica Inconsútil”. O texto virou peça de teatro na década de 1980 e agora filme. Até por isso, a trilha sonora é tão arrebatadora.
As músicas foram compostas por Chico Buarque e Edu Lobo, em uma das suas mais primorosas parcerias. Há canções dignas de estarem no panteão da música brasileira, como “Beatriz”, cantada por Milton Nascimento, ou a doce “Ciranda da Bailarina” e a marcante “A História de Lily Braun”.

Se a trilha sonora encanta ao ponto de emocionar e o enredo é rico, há alguns pontos neste filme que poderiam ser melhor explorados. Alguns cortes de cenas fazem perder a tensão de momentos decisivos do roteiro. O mesmo ocorre com o ritmo da edição, que parece acelerado demais e que não deixa o telespectador criar empatia com os personagens de alguns capítulos. Todos têm capacidade de cativar, mas não há tempo o bastante para isto.

Há quem diga que “O Grande Circo Místico” não deva ser selecionado entre as obras principais para competir ao Oscar. Realmente, muitas coisas poderiam ser melhores. Mas é um longa-metragem que me levou a refletir, me encantou e até mesmo me fez querer saber mais sobre cada um dos personagens. Pensando bem, talvez seja este o objetivo real de um filme.
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