“Boooooooooom diiiiiiiiia, amigos cinéfilos”. Nenhum bom dia foi, no cinema, tão cheio de vida, tão animador e contagiante quanto Robin Williams em “Bom dia Vietnã” (Good Morning Vietnã), de Barry Levinson, de 1985. Quando eu o assisti, já o conhecia, pois havia assistido “Popeye”, lançado em 1980, quando eu tinha 11 anos. As saudades são enormes, seus filmes são constantemente reprisados e, agora, um documentário.
Lançado há quatro meses nos Estados Unidos, “Robin’s Wish”, produzido por Susan Schneider, viúva do ator, foi disponibilizado pelo “Google Play” e pelo “ iTunes”. Em seus 76 minutos, um vislumbre de um dos maiores atores de sua geração.
Robin McLaurin Williams, que nos deixou há cerca de seis anos, já teve um documentário sobre sua vida intitulado “Robin Williams: Entre na Minha Mente” de 2018. A recente produção de sua viúva traz à luz novos fatos sobre a morte do ator. A intimidade de seu sofrimento com uma doença que nem o próprio sabia que tinha, a rara condição chamada de “Demência com Corpos de Lewy” vem à tona na tela à medida que depoimentos reconstroem os últimos meses de vida de Williams.
Susan é corajosa ao abrir as portas de sua casa na Baía de São Francisco, onde o ator passou seus últimos momentos recluso depois que não conseguia mais lembrar as falas de seus papéis, passando a sofrer insônia e surtos de delírio. Vizinhos, amigos e colegas de trabalho surgem em emocionantes depoimentos que permitem criar um retrato desse talentoso ator, e do que passou em seus últimos meses.
Sua prolífica carreira foi feita de risos e lágrimas. Foi Robin Williams quem me fez chorar pela primeira vez em uma sala de cinema, em 1990 quando assistia “ Sociedade dos Poetas Mortos “ (Dead Poets Society) , de Peter Weir. Quando Spielberg filmou “A Lista de Schindler “ (Schindler’s list), este notou a atmosfera depressiva que se formava em diversas tomadas de cena. Robin, por telefone, contou tantas piadas que logo equipe e elenco não conseguia parar mais de rir. Era seu dom, entreter, levar a alegria a todos, inclusive em shows para as tropas americanas ou em visitas a hospitais.
Sua intensidade ao atuar era visível, transbordava em seus papéis como o mulherengo Joey O’Brien de “Um Conquistador em Apuros” (Cadillac Man) de 1990, o dedicado Dr. Malcolm Sayer de “Tempo de Despertar” (Awakenings) de 1990, a divertida Sra Doubtfire de “Uma Babá Quase Perfeita” (Mrs. Doubtfire) de 1993 entre outros. Robin foi tudo: Alienígena (Mork & Mindy), Gênio da lâmpada (Aladdin), criança (Jack), fantasma (Amor além da vida), pinguim (Happy Feet), robô (Homem bicentenário), boneco de cera (Uma Noite no Museu) e muito mais, certamente muito mais do que a doença que o vitimou.
Spielberg disse que escolheu Williams como Peter Pan em “Hook – A Volta do Capitão Gancho” (1991) porque somente o ator tinha um olhar de eterna criança. De fato sua habilidade transitava por todos os gêneros, incluindo o suspense como em “Insônia” e “Retratos de uma obsessão” (One Hour Photo) nos quais interpretou respectivamente um assassino e um psicopata. Mas foi vivendo o outro lado da mente humana que levou o cobiçado Oscar como melhor ator coadjuvante em “Gênio Indomável” (Good Will Hunting) de 1997.
Toda essa brilhante carreira surge em vários momentos entrecortados com imagens em família e de suas inúmeras amizades como com o eterno Superman Christopher Reeve, com quem Robin estudou na Julliard School, renomada instituição. Em família, momentos de um homem mais contido, calado mas um pai e marido carinhoso.
É impossível não sentir a súbita mudança de risos para lágrimas de lamento quando o dr. Bruce Miller, diretor do Centro de Memória e Envelhecimento da Universidade da Califórnia em San Francisco, explica a misteriosa doença que vitimou o ídolo. Ao mesmo tempo é inegável não perceber que apesar de uma gradativa perda, facilmente confundida com depressão, sua genialidade resistiu ao máximo a esse processo degenerativo, um mal que o consumia. Em determinado momento, Susan diz : “Se simplesmente tivéssemos sabido o nome da doença que Robin tinha, só isso já teria lhe dado um pouco de paz”.
Assim como o médico Patch Addams, que ele interpretou, levou alegria a milhões, Robin foi um ator missionário para fazer o mesmo, enxugar lágrimas e provocar um sorriso onde havia a dor, e assim, em várias imagens, vemos o ator subir ao palco de shows beneficentes.
Oh, Capítão, meu capitão !! Seu desejo foi cumprido e hoje nos resta a saudade de um ator e homem excepcional que fez da alegria de viver seu maior triunfo. Terra chamando céu, terra chamando céu, Robin ouça …. Obrigado por tudo. Nanu Nanu !!”
Adilson de Carvalho Santos é colaborador voluntário do Tribuna Online
