Uma empresária de 51 anos é acusada pelo Ministério Público do Espírito Santo (MP-ES) de ter fraudado um seguro de vida em nome do marido. Ela era a única beneficiária e receberia sozinha R$ 4 milhões.
O marido morreu assassinado em Guarapari com 10 tiros. Contudo, a empresária não conseguiu receber o montante, já que a irmã da vítima questionou na Justiça os motivos que levaram o irmão a fazer um seguro de vida com benefício exclusivo para a mulher, sendo que ele tem três filhas, de 11, 17 e 22 anos.
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Após os questionamentos à seguradora e ao corretor de seguros que vendeu a apólice, foi descoberto que quem pagava os boletos mensais do seguro seria a empresária, segundo o MP, que apontou fraude na contratação do serviço.
Na delegacia, o corretor confessou que o contrato foi feito a pedido da empresária, e que ele se passou pelo marido dela para ter a apólice.
O promotor informou na denúncia do MP oferecida à Justiça que o corretor confessou que a contratação do seguro não foi feita pelo marido da empresária, mas sim por ele e pela denunciada, “tendo ele se passado por (nome da vítima) quando a seguradora entrou em contato para confirmar a avença, tendo, inclusive, inserido seu próprio celular na apólice”.
A Justiça recebeu a denúncia no início do mês. Segundo consta na denúncia, a empresária fez o seguro de vida e era também quem pagava os boletos mensais de R$ 2.500.
Dois dias antes do crime em que o marido foi assassinado, a empresária ainda tentou fazer um segundo seguro de vida, de R$ 100 mil, mas com data retroativa, e não conseguiu.
“Ele morreu no dia 15 de abril e, no dia 13, ela procurou o mesmo corretor para fazer mais um seguro em nome da vítima, mas com data retroativa. Pelas imagens a que consegui ter acesso, a morte foi claramente uma execução, já que não teve briga, discussão ou assalto antes. Acredito que, se meu irmão soubesse que estava correndo risco de morte, jamais teria deixado as meninas de fora do seguro de vida”, disse a irmã da vítima.
Uma audiência de instrução e julgamento foi agendada pela Justiça para agosto, e todas as testemunhas, peritos e acusados serão ouvidos.
Os nomes dos envolvidos não foram revelados porque o caso ainda está sendo investigado.
Inquérito sobre morte foi arquivado
A reportagem procurou a Polícia Civil e a Justiça para saber se há investigação que envolva a empresária. Segundo a Polícia Civil, o inquérito sobre a morte do marido dela foi concluído pela Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa de Guarapari, remetido à Justiça e arquivado.
Em relação à fraude no seguro, a Justiça informou que o processo criminal está tramitando, e que outras decisões serão divulgadas no decorrer dos despachos feitos pela 2ª Vara Criminal da cidade Serra, onde a apólice foi contratada.
“Pagava o boleto a pedido do marido”, empresária acusada de fraude
Empresária de 51 anos acusada de fraude no seguro de vida conversou com a reportagem de A Tribuna e declarou que pagava os boletos a pedido do marido, mesmo estando separada não oficialmente dele.
A Tribuna – Por que continuou pagando o seguro?
Empresária: Ele mandou um e-mail para mim em outubro de 2019, dizendo que não tinha mais condições de pagar o seguro, e, se eu quisesse continuar pagando, que eu poderia pagar.
Quem sustentava a casa era eu. Em novembro, eu disse que estava ficando muito caro esse seguro de R$ 2.500 e avisei isso a ele, procurei o corretor, mas ele disse que não tinha como reduzir e teria que fazer outro seguro se quisesse.
Na época, ele (o marido) assinou outro seguro, mas não foi permitido, pois outro estava vigente.
A Tribuna – Você que pediu ao corretor para fazer o seguro de vida em nome do seu marido?
Empresária: Em 2018, fizemos um seguro de vida por um banco, e tínhamos o corretor de confiança, e decidimos passar para o corretor resolver, já que ele (o marido) viajava muito. Em janeiro de 2019, fizemos o outro seguro, de R$ 2.500 por mês.
A Tribuna – Em que momento você decide se separar do marido?
Empresária: Eu descobri que ele era um estelionatário. Disse que queria me separar, mas ele começou a me ameaçar de morte. Em junho de 2019, pedi medida protetiva porque descobri que ele era um psicopata e tinha várias amantes. Ele foi morar em Guarapari, mas mantivemos contato via telefone.
Ele me pediu para voltar, mas eu não queria mais. E ele arrumou uma namorada em Guarapari também. Por que a preocupação em continuar pagando o seguro?
Ele era estelionatário, era ameaçado o tempo todo. Ele tinha amantes e negócios desconhecidos. Acabei me casando com ele em 2011 porque fiquei grávida três meses depois de conhecê-lo.
Ele tem duas filhas com outras mulheres e disse que não queria pôr o seguro em nome delas para que as mães não tivessem acesso, e pediu que eu tivesse acesso para que eu ajudasse as meninas. E só quem tinha conhecimento do seguro era eu, ele e o corretor, além da corretora.
A Tribuna – E você sabia da fraude?
Empresária: Eu não sabia dessa ligação que precisava ser feita. Eu achei que fosse só a assinatura. Foi confirmado que o corretor se passou pelo meu ex-marido para que os dados fossem confirmados com a seguradora. O seguro foi aceito e pago.
A Tribuna – Então seu marido tinha conhecimento do seguro?
Empresária: Claro. O seguro foi encontrado no apartamento dele em Guarapari. A apólice do seguro de vida.
A irmã dele que entrou no apartamento, pegou a apólice e levou ao delegado dizendo que eu teria mandado matá-lo para receber.
E com isso as investigações voltaram para mim, mas, em maio, ele fechou o inquérito dizendo que ele (o marido) era uma pessoa com muitos desafetos, muitas amantes, negócios de credores e devedores, não descobrindo quem matou ou mandou matar.
Corretor confirma pedido feito pela acusada
O corretor de seguros, de 58 anos, confirmou que o pedido do seguro de vida em nome do marido da empresária foi feito por ela, e para a confirmação dos dados à corretora de seguros, foi ele que atendeu ao telefonema e se passou pelo segurado.
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O corretor afirmou que, para dar andamento rápido ao seguro, acabou cometendo o erro de se passar pelo contratante.
“Eu fiz a confirmação dos dados dele pelo telefone, e ela estava ciente do que eu fiz. Na época ela me disse que ele estava viajando e que eu poderia dar andamento. Fui fazer algo para agilizar e agora temos todo esse problema”, disse.
Sobre a tentativa de um novo seguro dois dias antes do assassinato do marido da empresária, o corretor de seguros disse que foi verídico, mas a empresária disse que foi um mal entendido, e que não seria verdade tal informação.
Procurada, a seguradora contratada informou por meio de nota que “tendo em vista que os fatos relativos a este sinistro estão sendo apurados na esfera judicial e policial, esta seguradora se abstém de comentá-los”. Oficialmente, a empresária não chegou a se separar do marido, já que a audiência não aconteceu.
“Eu entrei com o pedido de separação e, por conta da pandemia, a audiência não aconteceu e ele veio a falecer. Então meu status é de viúva porque não consegui me separar dele no papel”, informou ela.