Existe um projeto de lei na Câmara dos Deputados cujo objetivo é aumentar para 45% a margem do empréstimo consignado. Contudo, mesmo o projeto ainda estando em tramitação e não tendo sido aprovado, golpistas já estão ligando para aposentados dizendo que ele foi aprovado.
“Estão ligando para os aposentados e pedindo para eles passarem seus dados. E com esses dados, fazem o empréstimo pessoal, que foge da margem do consignado”, explicou o presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados no Estado, Jânio Araújo.
“A família tem que orientar para não fazer empréstimo por telefone. É um risco muito grande. Se tiver que fazer um empréstimo, ele deve fazer em uma agência física”, explicou.
O delegado Brenno Andrade, da delegacia de crimes cibernéticos, destacou que é comum os criminosos utilizarem de assuntos que estão em alta no momento para fazer mais vítimas..
“Como o idoso viu informações sobre o assunto no jornal, na TV, ele acredita mais facilmente nas informações passadas pelo estelionatário durante a ligação”, disse.
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O delegado frisou ainda que muitos idosos têm caído no golpe amoroso. Os criminosos começam a se relacionar com eles pela internet e depois passam a pedir para que façam transferências.
Ele lembrou de um caso em que uma idosa queria fazer uma transferência de R$ 200 mil para a conta de uma pessoa na Inglaterra. “Não aconteceu porque o gerente do banco desconfiou”, contou.
Ele alertou que é preciso orientar o idoso a sempre desconfiar quando alguém pedir dinheiro. “Nesses casos, procure orientação de um advogado, de um familiar ou mesmo da polícia”.
O delegado titular da Delegacia de Defraudações, Douglas Vieira, explicou que a pena para o crime de estelionato varia de 1 a 16 anos para cada golpe, quando o crime envolve idosos e os criminosos utilizam informações fornecidas pela vítima.
Entenda
Na última sexta-feira, foi publicada no Diário Oficial a medida provisória que eleva de 35% para 40% a margem de empréstimo do consignado. Mas, ainda há na Câmara dos Deputados um projeto que visa ampliar essa margem para 45%.
Ação envolve valores menores e muitas vítimas
Os crimes de estelionato contra idosos, na maioria das vezes, envolvem valores menores. Ao falar sobre valores mais baixos, em torno de R$ 1.500, os golpistas têm mais facilidade de envolver o idoso.
“Valores mais altos despertam a desconfiança”, conforme o presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados no Estado, Jânio Araújo.
O delegado titular da Delegacia de Defraudações, Douglas Vieira, explicou que apesar de serem valores mais baixos, como são muitas vítimas, os criminosos conseguem reunir um bom montante e esse dinheiro pode estar fomentando homicídio, tráfico de drogas e tráfico de armas.
O delegado ressaltou a importância de representar para que o crime possa ser investigado.
“Para apurar os crimes de estelionato, dependo da vítima vir à delegacia e falar que quer representar. Tem muitos que não querem denunciar e os criminosos se aproveitam disso para continuar aplicando golpes”, ressaltou.
Ele salientou que os golpistas geralmente não moram no Estado. Em sua maioria são do Distrito Federal, Rio Grande do Sul e São Paulo. “Há vários grupos de WhatsApp só de golpistas. Eles vêm de outro estado para recolher o cartão, fazem 10 ou 15 vítimas e então fogem ou acabam presos”, diferenciou.
Ele sublinhou que eles não gostam de aplicar o golpe em seu estado de origem, por ser mais fácil identicá-los.
Internet é utilizada por 97%, diz pesquisa
Na rede
Uma pesquisa feita pela Confederação Nacional dos Dirigentes Logistas e pelo SPC apontou que o número de idosos acessando a internet no País cresceu de 68%, em 2018, para 97%, em 2021.
Os dados apontaram os recursos que eles mais usam. Em primeiro lugar estão as redes sociais (72%), transporte (47%) e bancos (45%). Já em relação as compras, os produtos mais adquiridos são eletroeletrônicos, medicamentos e eletrodomésticos.
Pelo fato de a internet ser um ambiente novo para eles, muitas vezes, acabam não tendo familiaridade com as formas de ameaça e os recursos de proteção. Por isso o diálogo e a orientação são tão importantes.
Vulnerabilidade
Os aposentados são alvos de criminosos principalmente por terem uma renda garantida e, muitas vezes, por estarem emocionalmente mais vulneráveis. Em busca de atenção, eles acabam passando informações, como dados pessoais, para aqueles que se aproximam. E o estelionatário geralmente tem boa lábia.
Mudança de Estado
Os estelionatários não costumam praticar esse tipo de golpe no Estado em que vivem pela facilidade de identificação. Eles mudam constantemente de cidade para a prática criminosa, com o intuito de dificultar a ação da polícia.
Denúncia
A Polícia Civil ressalta a importância de representar. Pois é somente por meio da representação da vítima que o crime de estelionato pode ser investigado.
Isso é extremamente importante, pois o dinheiro desse crime pode estar sendo utilizado para fomentar outros crimes, como homicídio, tráfico de drogas e armas, entre tantos outros.
Família
Nem sempre a família é quem protege o idoso. Há casos em que o golpista está na própria família.
Segundo o artigo 102 do Estatuto do Idoso, a pena por apropriar-se ou desviar bens, proventos, pensão ou qualquer outro rendimento do idoso, dando-lhes aplicação diversa da de sua finalidade, é de reclusão de 1 a 4 anos e multa.
A advogada especialista em Direito Digital Elseana de Paula explicou que nesse caso a situação fica mais no campo da integridade de quem lida com a pessoa idosa, que precisa ser de bom caráter e que tenha amor ao próximo, porque os idosos são muito vulneráveis.
Fonte: Especialistas citados na reportagem e pesquisa AT
Análise
“Conhecimento digital é uma forma de fugir das ciladas”
“Vulnerabilidade, carência afetiva, condição financeira vantajosa e estar em luto. Esses são alguns dos traços que enchem os olhos de estelionatários. No campo amoroso, com as redes sociais, se torna muito mais fácil ter acesso às vítimas. É possível estudar cada uma delas minuciosamente.
Quando se está carente, se vê amor onde não tem, o pouco oferecido se torna muito aos olhos da vítima. Nessas horas, é importante voltar para si mesmo, buscar o autocuidado, deixar que as feridas emocionais se cicatrizem. Quanto mais madura a pessoa está emocionalmente, menos chances terá de cair em golpe.
Outro ponto é que os idosos, muitas vezes, caem em golpes digitais por conhecer pouco o mundo tecnológico. É a falta de conhecimento somada a uma visão inocente da vida.
Uma estratégia para diminuir a probabilidade disso acontecer é buscar o conhecimento digital. Os golpes sempre existiram, só mudam de contexto, mas as vítimas sempre têm o mesmo perfil.”
Monique Nogueira, psicóloga