Falar sobre Indústria 4.0 para a maioria é o mesmo que lidar com um verdadeiro bicho de sete cabeças. Porém, a Manufatura Avançada, Indústria do Futuro ou Fábrica Inteligente, como também pode ser chamada, está bem perto de todos e se expandindo cada vez mais rápido.
Na verdade, o termo pode parecer estranho e complexo, mas não é. A Indústria 4.0 engloba as principais inovações tecnológicas nos campos da automação, do controle e da tecnologia da informação, aplicadas aos processos de manufatura.
Na prática, é a fusão do mundo físico com o digital nos processos de produção. Tudo isso vai torná-los cada vez mais eficientes, o que impactará diversos setores do mercado e promoverá várias oportunidades.
Para falar sobre o assunto, a Rede Tribuna convidou o vice-presidente de Inovação e Tecnologia da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), Luciano Raizer Moura, para apresentar a palestra “Indústria 4.0”, no segundo evento do projeto Em Pratos Limpos. À reportagem, ele deu uma prévia do que será abordado.
PERFIL: Luciano Raizer Moura
Formação: Doutor em Engenharia de Produção com pós-doutorado em Indústria 4.0 no Instituto Fraunhofer, na Alemanha. Especializou-se em gestão de organizações inovadoras nos Estados Unidos.
Profissão: é professor do Departamento de Tecnologia Industrial da Ufes e vice-presidente da Findes para inovação e tecnologia.
A Tribuna: O que o conceito de Indústria 4.0 engloba?
Luciano Raizer: De modo simples e direto, a Indústria 4.0 representa a transformação digital das fábricas. Também chamada de Manufatura Avançada, faz uso de tecnologias modernas, da nova era digital, para produção de bens e serviços, aliadas a novos modelos de negócio, fazendo surgir as “fábricas inteligentes”.
São empresas com muita tecnologia, conectadas com seu ambiente, clientes e fornecedores, e também internamente, com as máquinas e produtos. É uma consequência da chamada Quarta Revolução Industrial, essa grande transformação pela qual o mundo vem passando desde a virada do século.
A Tribuna: Então é algo inevitável?
Luciano Raizer: Como tudo está sendo impactado, questionado e modificado pelo uso de tecnologias digitais, não seria diferente na indústria. Esse fenômeno, chamado de transformação digital é decorrente de duas situações: o surgimento da Internet e a grande geração de conhecimento pelo ser humano.
Passamos a viver em um mundo cada vez mais conectado e instantâneo. Usando um smartphone, criado uma década atrás, é possível ter acesso a quase tudo: da sua conta bancária a pedir sua próxima refeição; se orientar no trânsito de uma cidade desconhecida e até mesmo se relacionar.
Nesse sentido, porque não pedir a produção de um produto, digamos, do seu jeito? A Adidas, por exemplo, lançou uma fábrica na Alemanha que “imprime” os “seus” tênis, do tamanho e no formato do seu pé, nas cores que desejar.
Chamamos isso de “mass customization”, que seria a customização em massa de produtos. Os produtos são personalizados, mas ao custo de produção em massa. Essa é a essência da Fábrica Inteligente.
A Tribuna: A Indústria 4.0 é mesmo o novo motor de desenvolvimento econômico para o Brasil?
Luciano Raizer: Toda grande mudança de patamar tecnológico leva a um grande ganho de produtividade na Indústria. E isso proporciona grande desenvolvimento econômico de nações. Com a Indústria 4.0, temos uma grande oportunidade para elevar a produtividade da indústria brasileira aos patamares de países desenvolvidos.
Não podemos perder a oportunidade que nos apresenta a Indústria 4.0. Mundo afora, os países estão se esforçando para investir em tecnologias modernas no setor produtivo. É a grande chance para modernizar o parque fabril do País, aumentando a produtividade, gerando empregos e renda.
A Tribuna: Como o Espírito Santo está se preparando para essa mudança?
Luciano Raizer: O tema Indústria 4.0 é pauta importante e prioritária para a Findes, que vem liderando essa discussão no Estado. Tem realizado vários eventos para apresentação desse assunto aos empresários capixabas, fez parceria com o Instituto Fraunhofer da Alemanha, trazendo pesquisadores para apresentar tecnologias avançadas.
O Senai vem realizando um trabalho para aumento de produtividade na Indústria, que é o programa Brasil Mais Produtivo e também o ES Mais Produtivo, este em parceria com o Sebrae ES, do qual já participaram mais de 200 empresas que conseguiram dobrar a produtividade no processo crítico.
No Brasil, mais de três mil indústrias participaram dessa ação com ganho médio de 52% de produtividade no processo crítico. Isso mostra que temos muito a fazer para melhorar a competitividade da indústria brasileira.
A Tribuna: E quanto à criação de empregos? Quais as expectativas com a Indústria 4.0?
Luciano Raizer: Um estudo do Fórum Econômico Mundial diz que serão eliminados 75 milhões de postos de trabalho, mas que serão criados outros 133 milhões. Apesar da incerteza do número, um fato é que muitas ocupações deixarão de existir e as pessoas precisam ser capacitadas para as novas ocupações que surgirão. Será uma transição de modelo que precisa ser planejada nas próximas duas décadas.
A Tribuna: Como os profissionais devem se preparar para esse novo momento?
Luciano Raizer: O mais importante não é saber quais serão as novas profissões, mas o perfil dos profissionais do futuro.
Um estudo do Fórum Econômico Mundial apontou as 10 habilidades desse novo profissional, que são: resolução de problemas complexos, pensamento crítico, criatividade, liderança e gestão de pessoas; trabalho em equipe, inteligência emocional, julgamento e tomada de decisões, orientação a serviços, negociação e flexibilidade cognitiva. É para essas competências que devemos preparar nossos jovens.

