Ter estabelecimentos comerciais perto de casa, como mercadinho, farmácia e padaria é sinônimo de comodidade. Principalmente por não ser preciso grande deslocamento para comprar aquilo do que precisa.
Para manter esses e outros negócios de portas abertas, os empregos que eles criam e a circulação de dinheiro nos bairros, moradores se mobilizam. É comprando do pequeno, indicando lojas e produtos para os amigos e fazendo campanhas nas redes que eles tentam salvar o comércio local.
A estudante e pequena empreendedora Cintya Mathias, 31, tem uma confeitaria animal e também trabalha com sublimação de canecas e camisetas (técnica de estamparia). Como empreendedora e consumidora, ela disse que consegue entender os dois lados.
“Eu moro em Bicanga, na Serra, consumo no bairro e procuro sempre o pequeno fornecedor ou prestador de serviço”, contou Cintya. Ela também se engaja em campanhas nas redes sociais para que os outros façam o mesmo. “Sei como é difícil manter um pequeno negócio. Os grandes têm como se manter, os pequenos não”.
Além disso, ela participa de grupos no WhatsApp onde empreendedores falam sobre seus negócios e produtos. “Quando alguém precisa de alguma coisa, procuro no grupo para ver se tem”.
A autônoma Lúcia Novaes, 63 anos, moradora de Santa Rosa, em Guarapari, contou que sua prioridade é comprar no município, principalmente nos bairros mais próximos de onde mora, já que no seu não há diversidade de lojas. “Comprando aqui, ajudamos a manter os empregos”.
Muitas campanhas partem de entidades como associações comerciais, Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e Agência de Desenvolvimento das Micro e Pequenas Empresas e do Empreendedorismo (Aderes).
O diretor-presidente da Aderes, Alberto Farias Gavini Filho, destacou iniciativas sociais e econômicas para que o comércio se mantenha durante a pandemia.
Entre elas estão linhas de crédito, apoio social através de cestas básicas, comprando alimentos do pequeno produtor para ajudar a escoar a produção. “Alguns passam por um momento crítico, mas também estão se reinventando”.
Moda feminina
Ana Aguiar tem uma loja de roupas femininas em Jardim da Penha, Vitória, onde a vendedora Lorena Gonçalves, 24, trabalha, além de outros cinco profissionais. Entre suas clientes está a professora aposentada Antônia Dalva Milleri Renon, 63, que prioriza o comércio local e indica para as amigas.
Também cliente, a bancária Luciana Soares, 40, com a Shih-Tzu Vick no colo, comenta que algumas pessoas acham que comprar roupa durante a pandemia é desnecessário. “Mas é necessário manter o emprego dos envolvidos no negócio”, ressalta.
Parceria
A comerciante Eliete Maria Oliveira, 57, é dona de um restaurante em Terra Vermelha, Vila Velha. Ela disse que com as restrições impostas na pandemia o movimento teve queda. “Mas os clientes voltam rápido”, enfatizou.
A operadora Flávia Folador Pires, 37 anos, sempre compra no restaurante. “Eu já tive comércio próprio e sei o quanto é importante o apoio das pessoas para o nosso crescimento”. Ela destaca que “não só compro, como divulgo”.
Saiba mais
Campanhas
- Existem diversas campanhas para a valorização do comércio local. O objetivo é que as pessoas comprem nos estabelecimentos comerciais do próprio bairro.
- Muitas dessas campanhas são realizadas nas redes sociais. Por meio delas, consumidores se engajam e compartilham postagens como “Quem mora aqui, compra aqui”, por exemplo.
- Eles também compartilham experiências sobre produtos e serviços que consumiram, além de fazer a famosa propaganda boca a boca.
- Outra estratégia é a criação de grupos de WhatsApp. Neles, comerciantes falam sobre o que vendem e os consumidores sobre o que precisam comprar.
Por que valorizar?
Manutenção dos negócios e empregos
- Dessa forma, ajudam o pequeno empreendedor a manter seu negócio. A iniciativa também colabora para a manutenção dos empregos. Faz o dinheiro circular no local e ainda se reverter novamente em forma de consumo.
Conhecimento sobre empresa e produto
- Comprando de empresas próximas, o consumidor tem mais possibilidade de conhecer melhor o produto, do que ele é feito e também conhecer melhor a empresa.
Entrega mais rápida
- No atual momento é essencial ter entrega por delivery, já que com a pandemia o empreendedor vai ter clientes que estão isolados e os que podem sair de casa. Precisa atender a necessidade dos dois.
- Comprando perto, o prazo de entrega tende a ser menor.
Troca facilitada
- Ao comprar um produto no bairro, fica mais fácil para o consumidor fazer a troca, caso precise.
Valorização dos imóveis
- A manutenção do comércio em um bairro valoriza os imóveis do entorno, afinal, quem não gosta de morar em uma região que tem tudo?
Traços regionais
- Quando compra fora o cliente pode ter problemas por não conhecer particularidades regionais do produto, como modelagem, material ou tamanho, por exemplo.
Consumidores exigem preço justo na vizinhança
Se por um lado os consumidores estão mais conscientes em relação a valorizar o comércio local, por outro também exigem um preço justo. Nas redes sociais é possível ver postagens de consumidores ironizando algumas situações práticas do cotidiano.
Por exemplo, quando vão comprar algum produto e comparam os preços praticados nos estabelecimentos perto de sua casa com os de outras cidades, estados ou até país e descobrem que comprar de fora é mais barato, até com frete.
E aí, se perguntam: vou deixar de comprar mais barato para comprar no bairro? A estudante e empreendedora Cintya Mathias, 31, disse que não coloca preço no trabalho alheio. “Se não dá pra mim, procuro em outro lugar”.
José Carlos Bergamin, diretor da Federação do Comércio do Estado, ressaltou que a qualidade do produto e o preço são sempre dois atributos que decidem a compra. “As pessoas estão se sensibilizando em dar a preferência em condições iguais”, observou.
A gerente de relacionamento do Sebrae, Adriana Rocha, lembrou que o empreendedor não pode aproveitar esse momento para pesar no preço dos produtos. “Tem outra pessoa, em outro local, que vende o mesmo com um preço diferenciado”.
Aguinaldo Ferreira Júnior, superintendente da CDL de Guarapari, explicou que é preciso levar em consideração que as empresas estão migrando de um negócio físico para o virtual.
Ele argumentou que quem tem uma empresa voltada para a venda online vai ter um preço mais competitivo, já que as despesas são menores do que as de quem tem uma loja física.
“Se você deixa de comprar na sua região, em algum momento você vai ser afetado, por exemplo, com o fechamento de lojas perto da sua casa.”
Incentivo fiscal
No Espírito Santo, as empresas da cadeia do vestuário que vendem mercadoria para fora do Estado têm um incentivo fiscal maior do que as que vendem para dentro do Estado. Por isso, a cadeia do vestuário está buscando junto ao governo do Estado nivelar a tributação da indústria para venda interna e externa (para outros estados) de produtos.
Lojas tradicionais fechando
Em Jardim da Penha, Vitória, há estabelecimentos tradicionais que estão fechando as portas, segundo Sandra Carneiro, coordenadora de comunicação da Associação Comercial do bairro.
Ela acrescentou que é importante que os moradores cumpram os protocolos contra a Covid-19 e não deixem de consumir no bairro.
“Que as pessoas utilizem as máscaras adequadamente e que sigam as normas para conseguirmos, juntos, baixar os números de casos e mortes. Se cada um fizer a sua parte, o comércio continuará voltando gradativamente ao funcionamento normal.”
Ela lembrou que o Dia das Mães é no próximo mês. “Dê preferência ao comerciante do bairro, quando for comprar o presente”, lembrou.
Campanha
A campanha “Quem mora em Jardim da Penha compra em Jardim da Penha 2021” está sendo lançada pelo Projeto Jardim da Penha em Ação. André Luís Alves, fundador do projeto, disse que o objetivo é unir moradores e comerciantes e fortalecer o empreendedor.
Saiba mais
Atendimento ao cliente
- O estímulo à compra não parte somente da escolha inicial do cliente. É preciso que após optar por comprar em um estabelecimento, ele queira retornar.
- Uma das maneiras de fidelizar o consumidor é tendo um atendimento de qualidade, que envolve uma escuta ativa, a busca por entender o que ele precisa e atender às suas necessidades.
Preços e qualidade
- Outra forma de fidelizar os clientes é, além de um bom atendimento, ter preços competitivos e produtos de qualidade.
Outras formas de apoio
- Além das campanhas, também existem outras formas de incentivo.
- A Agência de Desenvolvimento das Micro e Pequenas Empresas e do Empreendedorismo (Aderes) vem apostando em iniciativas como linhas de crédito, apoio social através de cesta básicas e cestas verde, comprando os alimentos do pequeno produtor para ajudar a escoar a produção.
Fonte: Fecomércio, Sebrae, Aderes, Herica Gomes, educadora financeira
“Contribuição para o município”

Um dos impostos arrecadados na venda de mercadorias é o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias) e, apesar de ser um imposto estadual, ele é redistribuído aos municípios. Então, quanto mais o comércio do município é ativo, mais a cidade receberá esse imposto de volta.
Essa dinâmica tem efeito positivo para a população, que vê esse valor revertido em benfeitorias como mais escolas, hospitais, áreas de lazer, melhorias de infraestrutura, segurança e condições de vida de uma forma geral.
Os impactos positivos refletem até no setor turístico, já que uma cidade bonita, bem cuidada e com atrativos costuma atrair visitantes que consomem serviços e produtos locais.”

