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ECONOMIA

O fenômeno das elétricas que conquistou o Recife em dois meses

Com promessa de rodar 40 km por apenas R$ 1,00, a MotoChefe abre as portas no Recife e já planeja um Centro de Distribuição no Nordeste

O fenômeno das elétricas que conquistou o Recife em dois meses
- Detalhes de uma das moto elétricas
Foto de perfil de Aline Moura

Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

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O recifense acorda com um nó na garganta e outro no trânsito. A cena é repetitiva, quase um fado urbano: a velocidade média dos carros na capital é de 20 km/h, em média. É um passo de cágado em um asfalto que ferve. Foi nesse cenário que a MotoChefe desembarcou em Pernambuco em dezembro e, em apenas 60 dias, viu o estoque de mais de 100 unidades evaporar. O motivo? O bolso e o relógio falaram mais alto.


Romero Leão, o homem à frente da operação local, enxergou o óbvio que ninguém queria ver. “Recife tem um trânsito complicado. Se você pega um veículo autopropelido, que anda em ciclofaixa, chega mais rápido do que um carro”, afirma. Para ele, a conta é simples e visual: “Uma moto elétrica na rua é um carro a menos na rua. Você está desafogando um trânsito caótico”. É a lógica do desabafo. Para ele, onde há um trambolho de metal ocupando dez metros quadrados para carregar uma pessoa, agora existe uma scooter cortando o vento.


O número 100 pode parecer pequeno, à primeira vista, mas não é. As motos elétricas ainda enfrentam barreiras como o preconceito com a autonomia e as dúvidas sobre a legislação (o que vamos esclarecer). Vender uma média de 50 motos por mês significa que a loja está conseguindo converter um cliente a cada 1,6 dia. Para um ticket médio que costuma variar entre R$ 7 mil e R$ 14 mil, o faturamento inicial é robusto.


O “Quem é Quem” no asfalto: a regra do jogo



A explosão das elétricas no começo de 2026 não foi por acaso. O estopim foi a Resolução 996/2023 do Contran, que organizou o “bangue-bangue” das calçadas. Romero explica que o consumidor ainda tropeça na confusão de nomes, mas a chave para não ser parado em blitz é entender a potência. “Tudo gira em torno da velocidade e da força do motor”, diz ele.


Na base da pirâmide estão as bicicletas elétricas. Elas são o purismo da mobilidade: até mil watts de potência, sem acelerador na mão, apenas o pedal assistido. Não exigem CNH, não tem taxas, é permitido para menores de idade e não precisam de placa. São as rainhas das ciclovias.


Um degrau acima, surgem os autopropelidos. Eles se assemelham às bikes, também limitados a 32 km/h, mas com um detalhe que seduz: o acelerador. “Seu pé fica parado e o acelerador na mão faz o serviço”, detalha Romero. Para esses dois grupos, a liberdade é total, sem taxas do Detran ou exames de habilitação.


É justamente nos dois tipos de veículos acima que a MotoChefe mais aposta. Até 1 kW (1.000W) e velocidade máxima de 32 km/h o equipamento é considerado como de mobilidade individual (como patinetes e algumas bicicletas elétricas). São os modelos queridinhos dos clientes, segundo Romero.


A brincadeira fica mais séria quando o motor ruge mais forte. Quando passa de 32km/h, até 50 km/h, entramos no terreno dos ciclomotores. Acima dos 50 km/h são chamadas motonetas ou motocicletas. Para ambas, as exigências são similares às motos convencionais. É preciso placa, licenciamento e a famosa ACC ou Categoria A. “O que define as exigências são as permissões da potência”, resume o empresário. É o fim da zona cinzenta legislativa.


A economia que cabe na tomada do quarto



Se o tempo ganho no trânsito é o prêmio emocional, o custo de rodagem é o troféu financeiro. Em um estado onde o preço da gasolina ainda pesa no bolso do trabalhador, a elétrica surge como uma afronta aos postos de combustíveis. A matemática de Romero é acachapante: carregar uma bateria leva cerca de quatro horas em uma tomada comum. “Em Pernambuco, isso custa menos de R$ 1,00. Com esse valor, você anda 40 quilômetros”.


O visual dessa economia é poderoso. Imagine cruzar a cidade, ir e voltar do trabalho, gastando menos do que o preço de um cafezinho expresso. A barreira da infraestrutura — o medo de não ter onde carregar — também ruiu. “As baterias são 100% removíveis. Você deixa a moto na garagem (ou em outro local), sobe com a bateria para o apartamento e carrega como se fosse um celular”, explica Romero. É a tecnologia servindo à conveniência.


E sobre a segurança?


A segurança é um dos principais pontos de atenção para quem circula de moto elétrica em Recife. Diante da violência urbana na capital, a vulnerabilidade dos condutores é combatida com o uso de tecnologia e proteção financeira. A loja MotoChefe passou a equipar todas as unidades com alarmes de controle remoto, similares aos de carros, e oferece um seguro próprio de baixo custo. A medida busca criar barreiras físicas e reduzir o prejuízo em casos de roubo, permitindo que o cliente contrate a proteção diretamente na loja.


O Hub e a experiência de “ver a cena”



O sucesso fulminante da loja do Recife acendeu um alerta na matriz da MotoChefe. A previsão é dobrar o número de unidades no Brasil ainda este ano, mas Pernambuco ganhou um status especial: será o Centro de Distribuição do Nordeste.  “O plano é instalar na Região Metropolitana ainda no primeiro trimestre de 2026. Não é apenas uma questão de vender motos, é sobre garantir reposição de estoques e peças com maior rapidez, com suporte técnico chegando antes da dúvida do cliente”, destaca Romero.

Mas Romero prefere falar de vida. Ele descreve a experiência de trocar o estresse de algumas avenidas pela brisa das ciclovias, que normalmente tem uma vista mais bonita da cidade, às veze, pela beira do rio: “Ir trabalhar pela ciclovia, em lugares mais bonitos, é uma experiência de qualidade de vida e liberdade muito grande”. Para ele, o modal elétrico é o casamento perfeito entre a eficiência e o cuidado ambiental: sem queima de óleo, sem ronco ensurdecedor, sem emissão de gases.


No final das contas, o fenômeno das elétricas no Recife é um grito de independência. É o cidadão retomando o direito de se mover sem ser engolido pelo caos. E, como Romero faz questão de lembrar, com o pedestre sempre como prioridade. “O pedestre é o centro de tudo. Precisamos ter visão preventiva”. A mobilidade mudou, o asfalto agora é silencioso e o futuro, ao que parece, carrega na tomada de casa.

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