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Economia

Os mestres do conserto

Dar vida nova a produtos desgastados pelo tempo de uso é o trabalho que move diversos profissionais que atuam no Estado. Eles consertam de tudo na ...

Kalu é dono de oficina que faz reparos em eletrodomésticos, mas até panela de pressão aparece para ser consertada

Última atualização

Dar vida nova a produtos desgastados pelo tempo de uso é o trabalho que move diversos profissionais que atuam no Estado. Eles consertam de tudo na área em que escolheram atuar, contribuindo para a sociedade das mais diversas formas.
Carlos Ceolin, o Kalu, 68 anos, por exemplo, é dono de uma oficina em que conserta tudo em eletroportáteis, além de eletrodomésticos e panela de pressão.

Na lista, estão micro-ondas, ventilador, ferro elétrico, batedeira, máquina de lavar, ar-condicionado e fogão.

Kalu é dono de  oficina que faz reparos em eletrodomésticos, mas até panela de pressão aparece para ser consertada (Foto: Fábio Nunes/AT)

“Nesse período de pandemia, o povo resolveu consertar as coisas e o movimento aumentou bastante. As pessoas estão usando muito, principalmente, micro-ondas. Em apenas um dia, às vezes, chegam até 10 micro-ondas para consertar”, contou Carlos, entre um e outro atendimento na oficina, que fica no Centro de Vitória.

Ele explicou que está no negócio há 17 anos. “Aqui na rua tinha uma casa muito famosa que consertava fogão e vendia peças há uns 30 anos. Como os consumidores já tinham o hábito de ir até lá em caso de necessidade, quando ela fechou as portas, abri a oficina aproveitando a fama”.

Faek Khoury está à frente de assistência técnica em Jardim Camburi (Foto: Fabio Nunes/AT)Já o engenheiro eletrônico e sócio-proprietário de uma assistência técnica, em Jardim Camburi, Faek Khoury, 63 anos, foca no segmento de informática há 30 anos. Na assistência são reparados: notebook, impressora, televisão, computador de mesa, projetores, além de equipamentos industriais.

Ele destacou que, com a pandemia, o preço dos produtos subiu muito, o que estimula ainda mais os consumidores a optarem pelo reparo em vez de comprar um novo.

Quem trabalha na área acaba até se surpreendendo com alguns motivos que levam os clientes a procurar ajuda.

“Uma vez recebi uma televisão que tinha levado um murro. Um lado da tela estava para dentro e outro para fora. O cliente estava vendo jogo de futebol e acredito que o time dele tenha perdido. Ele ficou nervoso e descontou na TV”, revelou a técnica em eletrônica Irisneide Ornelas de Souza, 46 anos.

Ela revelou que já recebeu uma TV de 60 polegadas, que foi vítima de uma briga entre casais.

“A mulher jogou o celular no marido. Ele desviou e o aparelho atingiu a televisão”, contou Irisneide, que atua em Carapina Grande, na Serra. Ela destacou que, nos casos de tela quebrada, não compensa a reparação.

Consumidor deve devolver eletrônicos a empresas

O músico Ronaldo de Souza Brito, (Roni Beris), 47,  tem uma oficina em Itapuã, Vila Velha. Lá faz manutenção, regulagem e reparo de todos os instrumentos de corda, como violão, cavaquinho, baixo, guitarra, entre outros.  “Na pandemia, muita gente que estava com instrumento parado reformou e voltou a tocar. São pessoas que gostam de tocar no fim de semana com a família, ou de estudar uma musiquinha”, contou. Ele também atende os músicos profissionais. (Foto: Kadidja Fernandes/at)O trabalho de quem atua consertando produtos contribui para a não geração de resíduos, conforme lembrou o professor Renato Siman, chefe do Laboratório de Gestão de Saneamento Ambiental da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e professor do Departamento de Engenharia Ambiental.

Quando o conserto não é a escolha, é importante dar a destinação correta ao resíduo. Ele explicou que, se o lixo for jogado em terreno baldio, vai para o lixão.

Se for jogado na lixeira convencional vai para o aterro sanitário e se for para a lixeira reciclável vai para a associação de catadores. “Aterro é um local adequado de disposição, mas não é o mais sustentável. Só há dano se for para lixão ou área inadequada”.

Ele destacou que a política nacional dos resíduos sólidos trouxe a responsabilidade compartilhada de toda a cadeia produtiva pelo ciclo de vida dos produtos. Além disso, existe acordo setorial para a logística reversa de eletroeletrônicos, firmado no ano passado.

Pelo acordo, cabe ao consumidor entregar os produtos aos comerciantes ou distribuidores.

Quando ele é devolvido, existe o caminho do desmonte que valoriza os materiais, como plástico, metal, cobre para introdução como matéria-prima secundária ou a própria indústria o conserta e dá outra destinação adequada.

Saiba quando vale ou não a pena fazer reparos

Antes de decidir se vale a pena ou não consertar um objeto, há vários aspectos que devem ser analisados. Entre eles estão preço, valor simbólico, prazo de garantia, questão ambiental, entre outros.

Televisão: conserto deve ser feito se valor for até 50% do preço total (Foto: Divulgação)Em relação ao preço, compensa consertar se o reparo custa até 50% do valor total do bem, de acordo com o economista Luiz Sant’Anna. Ele lembrou também que é preciso considerar a vida útil do produto e o tempo de garantia, antes de tomar a decisão:

“Comprei uma TV por mil reais e ela estragou. Se eu comprar uma TV nova, ela vai ter vida últil e garantia de dois a três anos. Se consertar, gastando R$ 500 e em um ano ela estragar de novo, não valerá a pena”, destacou.

A psicóloga Monique Nogueira explicou que valor e preço são coisas diferentes. O valor é algo mais simbólico, está ligado à história, emoção, afetividade.

“Os objetos podem trazer uma carga de afetividade dependendo da forma que foram utilizados, de quem você ganhou, o que tem de valor simbólico, afetivo. É preciso avaliar qual é a carga emocional que ele traz para você. Para decidir se vai consertar, mesmo que financeiramente não compense”.

Já do ponto de vista ambiental, a reparação sempre vale a pena, aumentando a vida útil do produto.

Passivo ambiental
O passivo ambiental é uma reparação a algum dano, segundo o professor Renato Siman, do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e chefe do Laboratório de Gestão de Saneamento Ambiental da instituição.

Ele explicou que o dano ocorre, por exemplo, quando o equipamento vai para o lixão ou quando vai para a cooperativa e é desmontado inadequadamente, causando problema ao trabalhador ou ao meio ambiente.

Renato diz que as TVs de tubo, por exemplo, têm na composição bário, cádmio, arsênio e chumbo, que podem contaminar o solo e a água, e, se forem queimados, podem contaminar o ar, causando danos à saúde.

“No Brasil não há empresas que reciclam os constituintes dos produtos eletroeletrônicos. Há empresas que trabalham com recolha, desmonte e possível remanufatura para botar de volta no mercado”.

ANÁLISE

“Descarte incorreto contamina natureza”, Rander Loss Marinot, engenheiro florestal pós-graduado em Engenharia Ambiental

“Do ponto de vista ambiental, o ideal é sempre consertar os produtos e utilizá-los até o fim de sua vida útil, evitando o descarte. No caso dos eletrônicos, na hora de descartá-los, deve-se levar o produto usado até a loja onde foi comprado.
Todas as lojas de eletrodomésticos e eletrônicos são obrigadas a aceitá-los de volta, para dar o descarte correto a eles. É a chamada logística reversa e há lei municipal em Vitória que garante isso.

Se houver o descarte inadequado, eles poderão contaminar, principalmente, o lençol freático e o solo, tornando a água imprópria para o consumo. Isso porque esses materiais têm muitos componentes eletrônicos, que demoram milhares de anos para se decompor.

Dados do Panorama dos Resíduos Sólidos do Brasil 2020 apontam que a quantidade de resíduos sólidos urbanos destinados inadequadamente cresceu 16% na última década.

Com o descarte correto, por meio dos fabricantes, eles reaproveitam praticamente todas as peças”.


SAIBA MAIS


Análise
– Antes de definir se vale ou não a pena consertar um objeto é importante fazer uma análise de diversos aspectos:

Preservação ambiental
– Os materiais que compõem eletrodomésticos e eletroeletrônicos demoram a se decompor. O vidro, por exemplo, leva quatro mil anos. E até um milhão de anos para ser absorvido por completo pela natureza.

– Por isso, para o meio ambiente, a melhor alternativa é sempre consertar. Se não for fazer isso, é importante fazer o descarte nos locais indicados para a reciclagem de cada material.

Valor emocional
– Um objeto pode ter valor emocional, remetendo a uma lembrança de uma pessoa ou lugar, por exemplo. Descartá-lo significa o fim de um ciclo, em que ele não tem mais significado emocional.

Preço
– É preciso avaliar se o preço do conserto compensa em relação ao valor do produto novo. Geralmente vale a pena quando o valor do conserto é inferior a 50% do total do produto novo. Mas é preciso considerar também:
– O tempo de vida útil do produto: para ter uma noção de quanto ele custa usado e se vale a pena consertá-lo.
– Qualidade: avaliar se no mercado ainda são fabricados produtos com a mesma qualidade do que você possui. Hoje, muitos produtos têm uma vida útil menor, quando comparados a produtos mais antigos, o que faz o conserto valer a pena.
– Garantia: o prazo pode fazer o reparo valer a pena.

Alguns produtos

TV
> Vale a pena: quando é para trocar o barramento de LED. O preço varia de acordo com o tamanho da TV. O reparo da de 32 polegadas fica em torno de R$ 400.
>  Quando queima alguma placa, às vezes dá para recuperar. A placa de sinal é a mais cara e mais difícil de reparar. Já a placa de fonte é mais comum de ser reparada. A troca de placa gira em torno de R$ 400 para uma TV de 32 polegadas.
> Não vale a pena, financeiramente, quando a TV quebra a tela.
> Quando há um curto-circuito na rede elétrica e queima mais de uma placa da TV.
> Para esse tipo de aparelho é considerada uma vida útil de 5 anos e, a cada ano que passa, ela tem uma desvalorização de 20%. Assim, é possível calcular se, do ponto de vista financeiro, o conserto compensa. Mesmo se compensar, é preciso avaliar a garantia, pois, dependendo do prazo, pode não ser bom negócio.

Ventilador
> Vale a pena, dependendo do valor de aquisição do ventilador, quando é preciso trocar o capacitor ou o fusível. A troca custa em média R$ 80.
> Não vale a pena quando o cliente tentar reparar por conta própria e estragar o rolamento do motor.

Liquidificador
> Vale a pena quando o problema é na borracha que fica por cima do motor, onde o copo se encaixa. Quando ela está com problema, geralmente o liquidificador gira sem nada dentro e, quando se coloca algo dentro, ele para.   > Nesse caso é só trocar a borracha, que custa em torno de R$ 6. O próprio consumidor consegue fazer.
> Não compensa quando o problema é com o motor, geralmente.

Micro-ondas
> Vale a pena quando queima o fusível, pois a peça gira em torno de R$ 5. E não é indicado quando é preciso trocar o transformador de alta voltagem.

Secador
> Vale a pena: quando se trata de um secador profissional e for necessário trocar as chaves (onde aperta para ligar e desligar), dependendo da marca. Preço médio: R$ 70.
> Não vale a pena quando é preciso trocar o carvão, que ativa o secador para funcionar.

Carro
> É preciso avaliar cada caso. Mas, geralmente, os 60 mil quilômetros marcam a vida útil sem grandes gastos com oficina, em que a manutenção foi com a troca dos itens mais básicos. A partir daí, começam os gastos de manutenção mais elevados, como a troca de pneus, amortecedores, escapamentos, freios, etc.
>  O custo elevado com a reposição de peças pode fazer com que as pessoas adiem a manutenção, elevando os riscos de segurança. Há de se considerar ainda custos, transtornos e tempo gasto com manutenção.

Celular
>  Vale a pena em alguns casos em que é necessário fazer a troca de tela. > Geralmente, não vale a pena o conserto quando o objeto teve contato com urina, água salgada, acetona e saliva ou quando está muito torto, envergado ou amassado.

Fontes: Jocimar França; Irisneide Ornelas de Souza; Faek Khury; e Carlos Ceolin.

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