Dar vida nova a produtos desgastados pelo tempo de uso é o trabalho que move diversos profissionais que atuam no Estado. Eles consertam de tudo na área em que escolheram atuar, contribuindo para a sociedade das mais diversas formas.
Carlos Ceolin, o Kalu, 68 anos, por exemplo, é dono de uma oficina em que conserta tudo em eletroportáteis, além de eletrodomésticos e panela de pressão.
Na lista, estão micro-ondas, ventilador, ferro elétrico, batedeira, máquina de lavar, ar-condicionado e fogão.
“Nesse período de pandemia, o povo resolveu consertar as coisas e o movimento aumentou bastante. As pessoas estão usando muito, principalmente, micro-ondas. Em apenas um dia, às vezes, chegam até 10 micro-ondas para consertar”, contou Carlos, entre um e outro atendimento na oficina, que fica no Centro de Vitória.
Ele explicou que está no negócio há 17 anos. “Aqui na rua tinha uma casa muito famosa que consertava fogão e vendia peças há uns 30 anos. Como os consumidores já tinham o hábito de ir até lá em caso de necessidade, quando ela fechou as portas, abri a oficina aproveitando a fama”.

Ele destacou que, com a pandemia, o preço dos produtos subiu muito, o que estimula ainda mais os consumidores a optarem pelo reparo em vez de comprar um novo.
Quem trabalha na área acaba até se surpreendendo com alguns motivos que levam os clientes a procurar ajuda.
“Uma vez recebi uma televisão que tinha levado um murro. Um lado da tela estava para dentro e outro para fora. O cliente estava vendo jogo de futebol e acredito que o time dele tenha perdido. Ele ficou nervoso e descontou na TV”, revelou a técnica em eletrônica Irisneide Ornelas de Souza, 46 anos.
Ela revelou que já recebeu uma TV de 60 polegadas, que foi vítima de uma briga entre casais.
“A mulher jogou o celular no marido. Ele desviou e o aparelho atingiu a televisão”, contou Irisneide, que atua em Carapina Grande, na Serra. Ela destacou que, nos casos de tela quebrada, não compensa a reparação.
Consumidor deve devolver eletrônicos a empresas

Quando o conserto não é a escolha, é importante dar a destinação correta ao resíduo. Ele explicou que, se o lixo for jogado em terreno baldio, vai para o lixão.
Se for jogado na lixeira convencional vai para o aterro sanitário e se for para a lixeira reciclável vai para a associação de catadores. “Aterro é um local adequado de disposição, mas não é o mais sustentável. Só há dano se for para lixão ou área inadequada”.
Ele destacou que a política nacional dos resíduos sólidos trouxe a responsabilidade compartilhada de toda a cadeia produtiva pelo ciclo de vida dos produtos. Além disso, existe acordo setorial para a logística reversa de eletroeletrônicos, firmado no ano passado.
Pelo acordo, cabe ao consumidor entregar os produtos aos comerciantes ou distribuidores.
Quando ele é devolvido, existe o caminho do desmonte que valoriza os materiais, como plástico, metal, cobre para introdução como matéria-prima secundária ou a própria indústria o conserta e dá outra destinação adequada.
Saiba quando vale ou não a pena fazer reparos
Antes de decidir se vale a pena ou não consertar um objeto, há vários aspectos que devem ser analisados. Entre eles estão preço, valor simbólico, prazo de garantia, questão ambiental, entre outros.

“Comprei uma TV por mil reais e ela estragou. Se eu comprar uma TV nova, ela vai ter vida últil e garantia de dois a três anos. Se consertar, gastando R$ 500 e em um ano ela estragar de novo, não valerá a pena”, destacou.
A psicóloga Monique Nogueira explicou que valor e preço são coisas diferentes. O valor é algo mais simbólico, está ligado à história, emoção, afetividade.
“Os objetos podem trazer uma carga de afetividade dependendo da forma que foram utilizados, de quem você ganhou, o que tem de valor simbólico, afetivo. É preciso avaliar qual é a carga emocional que ele traz para você. Para decidir se vai consertar, mesmo que financeiramente não compense”.
Já do ponto de vista ambiental, a reparação sempre vale a pena, aumentando a vida útil do produto.
Passivo ambiental
O passivo ambiental é uma reparação a algum dano, segundo o professor Renato Siman, do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e chefe do Laboratório de Gestão de Saneamento Ambiental da instituição.
Ele explicou que o dano ocorre, por exemplo, quando o equipamento vai para o lixão ou quando vai para a cooperativa e é desmontado inadequadamente, causando problema ao trabalhador ou ao meio ambiente.
Renato diz que as TVs de tubo, por exemplo, têm na composição bário, cádmio, arsênio e chumbo, que podem contaminar o solo e a água, e, se forem queimados, podem contaminar o ar, causando danos à saúde.
“No Brasil não há empresas que reciclam os constituintes dos produtos eletroeletrônicos. Há empresas que trabalham com recolha, desmonte e possível remanufatura para botar de volta no mercado”.
ANÁLISE
“Descarte incorreto contamina natureza”, Rander Loss Marinot, engenheiro florestal pós-graduado em Engenharia Ambiental
“Do ponto de vista ambiental, o ideal é sempre consertar os produtos e utilizá-los até o fim de sua vida útil, evitando o descarte. No caso dos eletrônicos, na hora de descartá-los, deve-se levar o produto usado até a loja onde foi comprado.
Todas as lojas de eletrodomésticos e eletrônicos são obrigadas a aceitá-los de volta, para dar o descarte correto a eles. É a chamada logística reversa e há lei municipal em Vitória que garante isso.
Se houver o descarte inadequado, eles poderão contaminar, principalmente, o lençol freático e o solo, tornando a água imprópria para o consumo. Isso porque esses materiais têm muitos componentes eletrônicos, que demoram milhares de anos para se decompor.
Dados do Panorama dos Resíduos Sólidos do Brasil 2020 apontam que a quantidade de resíduos sólidos urbanos destinados inadequadamente cresceu 16% na última década.
Com o descarte correto, por meio dos fabricantes, eles reaproveitam praticamente todas as peças”.
SAIBA MAIS
Análise
– Antes de definir se vale ou não a pena consertar um objeto é importante fazer uma análise de diversos aspectos:
Preservação ambiental
– Os materiais que compõem eletrodomésticos e eletroeletrônicos demoram a se decompor. O vidro, por exemplo, leva quatro mil anos. E até um milhão de anos para ser absorvido por completo pela natureza.
– Por isso, para o meio ambiente, a melhor alternativa é sempre consertar. Se não for fazer isso, é importante fazer o descarte nos locais indicados para a reciclagem de cada material.
Valor emocional
– Um objeto pode ter valor emocional, remetendo a uma lembrança de uma pessoa ou lugar, por exemplo. Descartá-lo significa o fim de um ciclo, em que ele não tem mais significado emocional.
Preço
– É preciso avaliar se o preço do conserto compensa em relação ao valor do produto novo. Geralmente vale a pena quando o valor do conserto é inferior a 50% do total do produto novo. Mas é preciso considerar também:
– O tempo de vida útil do produto: para ter uma noção de quanto ele custa usado e se vale a pena consertá-lo.
– Qualidade: avaliar se no mercado ainda são fabricados produtos com a mesma qualidade do que você possui. Hoje, muitos produtos têm uma vida útil menor, quando comparados a produtos mais antigos, o que faz o conserto valer a pena.
– Garantia: o prazo pode fazer o reparo valer a pena.
Alguns produtos
TV
> Vale a pena: quando é para trocar o barramento de LED. O preço varia de acordo com o tamanho da TV. O reparo da de 32 polegadas fica em torno de R$ 400.
> Quando queima alguma placa, às vezes dá para recuperar. A placa de sinal é a mais cara e mais difícil de reparar. Já a placa de fonte é mais comum de ser reparada. A troca de placa gira em torno de R$ 400 para uma TV de 32 polegadas.
> Não vale a pena, financeiramente, quando a TV quebra a tela.
> Quando há um curto-circuito na rede elétrica e queima mais de uma placa da TV.
> Para esse tipo de aparelho é considerada uma vida útil de 5 anos e, a cada ano que passa, ela tem uma desvalorização de 20%. Assim, é possível calcular se, do ponto de vista financeiro, o conserto compensa. Mesmo se compensar, é preciso avaliar a garantia, pois, dependendo do prazo, pode não ser bom negócio.
Ventilador
> Vale a pena, dependendo do valor de aquisição do ventilador, quando é preciso trocar o capacitor ou o fusível. A troca custa em média R$ 80.
> Não vale a pena quando o cliente tentar reparar por conta própria e estragar o rolamento do motor.
Liquidificador
> Vale a pena quando o problema é na borracha que fica por cima do motor, onde o copo se encaixa. Quando ela está com problema, geralmente o liquidificador gira sem nada dentro e, quando se coloca algo dentro, ele para. > Nesse caso é só trocar a borracha, que custa em torno de R$ 6. O próprio consumidor consegue fazer.
> Não compensa quando o problema é com o motor, geralmente.
Micro-ondas
> Vale a pena quando queima o fusível, pois a peça gira em torno de R$ 5. E não é indicado quando é preciso trocar o transformador de alta voltagem.
Secador
> Vale a pena: quando se trata de um secador profissional e for necessário trocar as chaves (onde aperta para ligar e desligar), dependendo da marca. Preço médio: R$ 70.
> Não vale a pena quando é preciso trocar o carvão, que ativa o secador para funcionar.
Carro
> É preciso avaliar cada caso. Mas, geralmente, os 60 mil quilômetros marcam a vida útil sem grandes gastos com oficina, em que a manutenção foi com a troca dos itens mais básicos. A partir daí, começam os gastos de manutenção mais elevados, como a troca de pneus, amortecedores, escapamentos, freios, etc.
> O custo elevado com a reposição de peças pode fazer com que as pessoas adiem a manutenção, elevando os riscos de segurança. Há de se considerar ainda custos, transtornos e tempo gasto com manutenção.
Celular
> Vale a pena em alguns casos em que é necessário fazer a troca de tela. > Geralmente, não vale a pena o conserto quando o objeto teve contato com urina, água salgada, acetona e saliva ou quando está muito torto, envergado ou amassado.
Fontes: Jocimar França; Irisneide Ornelas de Souza; Faek Khury; e Carlos Ceolin.
