Um problema no sistema que transmite a energia gerada pela usina hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, no Pará, fez com que diversas regiões do País, inclusive no Estado, ficassem cerca de 20 minutos sem energia na última sexta-feira.
Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), houve desligamento de dois polos do sistema operado pela Belo Monte Transmissora de Energia (BMTE). O problema ocorreu um intervalo entre as 11h06 e 11h26.
A EDP Brasil informou, por exemplo, que clientes de suas distribuidoras em São Paulo e no Espírito Santo também tiveram o fornecimento afetado entre 11h26 e 11h51. No Estado, foram 256 MW de cargas interrompidas, com impacto em cinco clientes industriais.
Um especialista do setor, que pediu para não ser identificado, explicou que o País vive um cenário de crise hidrológica. Segundo ele, “este foi o primeiro sinal. Se as chuvas atrasarem, há risco de apagão ou racionamento de energia ainda no segundo semestre deste ano. Os reservatórios na região Sudeste estão muito baixos”.
O diretor do Sindicato da Indústria de Energia do Estado (Sinerges), Carlos Sena, diz ser necessário repensar o sistema atual.
“Precisamos privilegiar a termelétrica na base de carga, preservando assim as hidrelétricas. Basicamente inverter o que fazemos hoje, migrando de um sistema hidrotérmico para um termohidríco. O problema é que isso elevaria os custos, o que refletiria para o consumidor”.
Economistas destacaram que uma possível crise no fornecimento de energia poderá ser “catastrófico” para a economia nacional.
“As indústrias e serviços dependem muito do setor energético. E ainda afetaria os estados, porque o setor de energia é uma das grandes pagadoras de ICMS”, explicou o economista Marcelo Loyola Fraga.
“Poderemos ter interrupções nas linhas de produção, o que vai elevar os custos e prejudicar o planejamento produtivo da indústria. Será um desastre que pode resultar em demissões e elevar o custo de produtos, já que parte da indústria poderá recorrer a compra de geradores de energia, o que irá impactar no preço final”, analisou o economista Ricardo Paixão.
Pedido para baixar vazão de água
As atenções de todo o setor elétrico se voltam, neste momento, para o nível dos reservatórios localizados na bacia do Rio Paraná.
É nesta região que estão localizadas as principais barragens que abastecem todo o Sudeste e Centro-Oeste do País, com dezenas de usinas espalhadas pela calha principal do Rio Paraná e pelos rios que compõem a sua bacia, como Paranaíba, Grande, Tietê e Paranapanema.
Sozinha, a bacia do Paraná responde por 53% da capacidade nacional de geração de energia do País. Seu cenário, no entanto, é crítico.
Se considerado o volume total de água armazenada hoje na bacia do Paraná, a quantidade chega a apenas 27% de sua capacidade plena. Esse é o segundo pior nível de armazenamento dos últimos 21 anos nesta bacia.
Não por acaso, o governo emitiu alerta de emergência hídrica para os cinco estados banhados pelos rios: Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná.
Para tentar amenizar a situação e riscos de desabastecimento, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) decidiu que deverá ser liberada uma quantidade mínima de água em barragens das hidrelétricas localizadas em São Paulo e Mato Grosso do Sul.
O Ministério de Minas e Energia deverá publicar nos próximos dias portaria que permitirá a contratação das chamadas térmicas “merchants”, em mais um esforço para tentar evitar um racionamento de energia diante da grave seca sobre os reservatórios das hidrelétricas.
Essas usinas vendiam energia exclusivamente no mercado de curto prazo, e algumas delas estão hoje sem contrato e com operações paralisadas. A ideia é integrá-las ao sistema elétrico, para poupar água nas barragens.
Com a portaria, o governo quer oferecer melhores condições de remuneração para essas usinas.
Conta de luz mais cara
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) decidiu acionar o patamar mais alto do sistema de bandeiras tarifárias em junho. Com a bandeira vermelha patamar 2, a conta de luz dos consumidores ficará mais cara a partir do próximo mês, com a cobrança adicional de R$ 6,243 a cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos.
Segundo a agência reguladora, o mês de junho começa com os principais reservatórios do setor elétrico em níveis mais baixos para essa época do ano, o que representa uma redução na geração de usinas hidrelétricas e necessidade de acionar mais usinas térmicas, que geram energia mais cara.
A última vez que a agência reguladora acionou o patamar mais alto da bandeira tarifária foi em dezembro, após meses sem a cobrança adicional por conta da pandemia. Em maio também foi acionada a bandeira vermelha, mas no patamar 1, cuja cobrança é de R$ 4,169 a cada 100 kWh consumidos. Nos meses anteriores, de janeiro a abril, vigorou bandeira amarela, com taxa adicional de R$ 1,343 a cada 100 kWh.
O sistema de bandeiras tarifárias foi criado em 2015 para sinalizar ao consumidor o custo da geração de energia elétrica no País. A bandeira verde, quando não há cobrança adicional, significa que o custo para produzir energia está baixo.
O acionamento das bandeiras amarela e vermelha representa um aumento no custo da geração e a necessidade de acionamento de térmicas, o que está ligado principalmente ao volume dos reservatórios e das chuvas.
Alerta para pior seca em 111 anos
Miniapagão
- O Brasil viveu na sexta-feira o que pode ser o primeiro sinal da “severa” crise hídrica alertada pelo governo.
- De acordo com relatos de distribuidoras em vários estados e da agência reguladora Aneel, partes do País ficaram 20 minutos sem energia por um problema causado pela usina de Belo Monte. De acordo com a EDP Brasil, o Espírito Santo também foi afetado, das 11h26 às 11h51.
Alerta foi emitido
- O Sistema Nacional de Meteorologia (SNM) emitiu alerta conjunto de emergência hídrica para a área da Bacia do Paraná, que abrange os estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná.
- O documento prevê chuvas abaixo da média entre junho e setembro na região. É a primeira vez que o órgão emite um alerta desta natureza.
Foi o primeiro alerta do tipo emitido pelo governo em 111 anos.
- Ainda de acordo com o alerta, as perspectivas climáticas indicam que nos próximos meses haverá o período de menor volume de chuvas na região central do País.
- Impacto na indústria e população
- Especialistas explicam que a situação pode ter impactos severos na economia, já que, caso haja apagão ou racionamento de energia, os custos de produção da indústria devem aumentar o que aumenta os preços de produtos para os consumidores.
- A solução citada por especialistas, de dar ênfase na indústria termelétrica, afetaria a população, já que o preço das contas de luz aumentaria e o impacto ambiental seria grande, por ser um modelo que polui mais.
Fonte: Moneytimes e especialistas citados na reportagem.


