Ter tatuagens espalhadas pelo corpo já foi motivo de preconceito no ambiente de trabalho e na sociedade. Porém, o estigma está ficando no passado. É o que aponta estudo das Universidades de Miami e da Austrália Ocidental feito com cerca de 2 mil pessoas em 50 estados americanos. O levantamento mostra que não há diferença no mercado de trabalho ou discrepância de salário entre quem tem ou não tatuagem.
Essa realidade também se confirma no Brasil e no Espírito Santo, onde especialistas ouvidos por A Tribuna afirmam haver mais tolerância com as pessoas tatuadas, que são vistas como mais criativas.
“A tatuagem foi algo ligado à rebeldia até uma década atrás. Mas hoje está completamente diferente”, analisou a psicóloga Maria Rita Sales Regis. “Pessoas tatuadas fazem uma leitura diferenciada tanto na estética quanto na vida. Não são encaixotadas em padrões”.
Para a tatuadora Kessy Borges, essa aceitação tem a ver com a profissionalização da categoria. Os trabalhos se tornaram mais delicados. Antigamente, as tatuagens eram bem feias e agressivas”.
Já o também tatuador Ticano acredita que a aceitação engloba até os mais religiosos. “A religião, muitas vezes, é usada para abrir caminho quando alguém quer fazer uma tatuagem e escolhe um desenho relacionado à fé”, diz ele.
Há 10 meses, o médico Hugo Migliorini tatuou todo o braço esquerdo como forma de superar a timidez. Os desenhos fazem referência à mitologia nórdica, como o deus Odin e o martelo de Thor. “A tatuagem me deixou mais tranquilo, solto e confiante”, destaca o profissional de 33 anos.
Mas há quem veja ainda certa resistência em profissionais da Saúde que fazem essa opção. “Ao mesmo tempo que a tatuagem passa um olhar criativo e aceitável, nas áreas tradicionais esse olhar pode desvirtuar para a falta de seriedade”, explica Élcio Teixeira, CEO da Heach Brasil.
Eliana Machado, diretora da Center RH, vai além. “Nas áreas da alimentação e jurídica, pode não repercutir tão bem”, acrescentou.
Contudo, Hugo diz nunca ter sofrido preconceito. E, com o apoio dos pacientes, decidiu fazer outros desenhos. “Pretendo fechar o outro braço. Vou fazer um elefante estilizado em homenagem à minha mãe, que é apaixonada nesse animal”.
Exagero pode prejudicar a imagem
A diretora do Center RH, Eliana Machado, concorda que as tatuagens não assustam ou muito menos são motivo de alarde como antigamente. Porém, segundo ela, isso não significa que o exagero possa prevalecer: desenhos muito agressivos, tatuagens no rosto e coisas do tipo não são aconselhados por ela.
“O que deve existir é bom senso. Depende do estilo da tatuagem, do local onde vai tatuar e da profissão que ela resolveu seguir. Existe um contexto”, alertou.
Eliana confirmou que ter muitas tatuagens não chega a ser um problema, dependendo do caso. “Quem trabalha com tatuagem, quanto mais tiver, melhor. Mas você teria coragem de deixar um médico todo tatuado te operar? Nós, infelizmente, julgamos e somos julgados o tempo inteiro”, diz.
Ela aconselha quem pensa em procurar um estúdio de tatuagem. “O que eu digo para o jovem é que, quando ele for decidir por uma tatuagem, opte por algo que seja reversível. Tem de pensar bastante para não se arrepender depois”.
