
O engenheiro agrônomo Victor Bezerra explicou que no momento da ordenha vale de tudo: ventilador para refrescar os animais, música para acalmar, dieta balanceada e até cama de feno com temperatura regulada para o controle de bactérias.
“Sinfonias de Beethoven ou Mozart são as mais populares, mas também conheço propriedades que vão além e tocam de Caetano Veloso a Chico Buarque. A Música Popular Brasileira, por ter uma caraterística mais calma, ajuda a reduzir o estresse do animal. Assim como a música clássica, que é usada em várias propriedades do Brasil”, explicou.
No Espírito Santo, por trás de uma xícara de leite, há milhares pessoas envolvidas. Um exemplo acontece em uma fazenda no interior de Marechal Floriano, município na região serrana do Estado.
Antes do sol nascer, uma família de produtores acorda, e a ordenha começa. Pouco a pouco as vacas vão sendo enfileiradas para a retirada do alimento, e também para a primeira refeição do dia.
Antes da drenagem, o produtor dispensa com cuidado três jatos de cada teta. Isso serve para limpar toda e qualquer substância que possa contaminar o leite.
Em seguida, a teta é esterilizada, seca e, aí sim, está pronta para receber a bomba mecânica de drenagem. Em menos de cinco segundos o leite sai da vaca e vai para o reservatório.
O leite sai, quentinho, e precisa rapidamente ser resfriado. Por isso, vai diretamente para o reservatório da própria fazenda, onde chega a 9 graus celsius. É assim ao menos duas vezes por dia, sete dias por semana. No início da manhã e no final da tarde.
No Espírito Santo, existem oito cooperativas que, juntas, produzem mais de 490 mil litros de leite por dia. Em um mês esse valor chega a 15,2 milhões de litros. A ordenha é feita por milhares de cooperados, nas cooperativas: Selita, Colagua, Colamisul, Clac, Cavil, Cacal, Coaac e Coopeavi.
O ciclo que começa nas fazendas, e – antes mesmo da ordenha – o gado é preparado de forma especial. Nesta etapa, tudo em volta da vaca influencia na qualidade do leite, inclusive a música.
A ordenha é feita por meio de uma série de ações, combinando mecânica, vácuo e hidráulica. Tudo é feito com o objetivo de retirar o máximo de leite possível do animal, e ao mesmo tempo, não maltratar ou ferir as glândulas da vaca.
A logística por trás dessa movimentação vem se sofisticando cada vez mais. A teteira tem o interior de borracha e as mangueiras, além de sugar o leite, o transporta para um tanque de armazenamento provisório. Após a ordenha, um gel é passado nas tetas para fechar os mamilos e evitar a proliferação de bactérias. Tudo para o bem-estar dos animais.
Fazendas do futuro já são realidade
A tecnologia presente nas fazendas de leite impressiona e vai muito além do alimento servido aos animais. No Estado, o futuro já chegou e engenharia genética de ponta é utilizada nos campos, chegando a cerca de 10 mil animais, que já nascem geneticamente modificados, resistentes a doenças e com uma produção leiteira quatro vezes maior que um animal comum. Trata-se da Fertilização in Vitro (FIV).
A FIV consiste em aspirar as vacas que se destacam por conta da alta produtividade. Com o óvulo receptivo, o sêmen de touros com a mesma performance é inserido e, em laboratório, as vacas de alta lactação são inseminadas.
Todo o procedimento tem um custo, que varia de R$ 1.000 a R$ 1.250, mas que, segundo especialistas, traz um ganho considerável, praticamente pagando-se com o aumento na produção do lácteo.
Segundo o gestor do programa de monitoramento genético da pecuária do leite do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Abdo Gomes, quando o produtor investe nesse tipo de tecnologia, há um salto de produção de 4,1 litros, para impressionantes 30 litros diários. “É como subir quatro degraus de uma só vez”, brincou.
Ele explica que entre os principais beneficiados estão as cooperativas e associações do Estado, uma vez que acessar individualmente cada produtor é inviável. “Somente no Sul do Estado, 740 produtores foram beneficiados este ano. Juntando de Norte a Sul do Espírito Santo, já chegamos a mil propriedades atendidas. Cada uma delas podendo realizar de três a 10 procedimentos desse tipo”, disse.
E os ganhos vão além da produção leiteira. Sem a FIV, são necessárias décadas de cruzamentos até chegar a uma produção satisfatória.
“É nesse ponto que a FIV entra como um divisor de águas, por ter como principal vantagem a aceleração do retorno em produção. Podendo ser até 10 vezes mais rápida quando comparada com a inseminação artificial em tempo fixo, por exemplo. É uma técnica de altíssima precisão, com investimento inicial elevado, mas que garante um retorno e cobrimento de gastos muito rápidos, e que está cada vez mais presentes nas propriedades leiteiras”, explica o engenheiro agrônomo Victor Bezerra.
Além do aumento produtivo com a FIV, outras técnicas permitem o ganho de espaço, tempo e dinheiro. A modalidade de manter o animal em piquetes rotacionados, por exemplo – ainda que crie discussões entre ambientalistas – consegue produzir centenas de litros de leite em um espaço menor. De fato, é a fazenda leiteira sem o pasto. O campo sem a grama, lembram engenheiros agrônomos.
Mas o futuro pede mais. O coordenador de produção animal do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), Bernardo Lima, lembra que os estudos na área da engenharia genética se aproximam cada vez mais da barreira da ficção científica.
Especialistas explicam que, em breve, poderá ser possível diminuir ainda mais o intervalo de geração de novos embriões. Será possível até mesmo que embriões se tornem pais de outros embriões ainda no ventre, com retirada de células-tronco durante a gestação.
São os campos de leite correndo atrás de seu desenvolvimento tecnológico e sustentável. O próximo desafio? O mercado.
Os gargalos do mercado leiteiro
Mesmo com consumo diário de milhões de litros de leite no Brasil e no mundo e a função social do alimento – tradicionalmente oferecido a crianças, os produtores de leite não vivem um bom cenário, lembram especialistas.
Alto custo de produção, transporte caro, burocracias trabalhistas complexas, seca, ameaças internacionais e falta de incentivo e políticas públicas. Estes foram alguns dos problemas mencionados pela maioria dos cinco produtores entrevistados pela reportagem.
Reflexo de uma economia em recuperação, o baixo preço pago pelo litro e os altos custos da produção, o Estado ainda sofre por ter de competir com multinacionais, que importam leite a custos menores, chegando ao consumidor final com preços mais competitivos, diminuindo a produção local.
No Espírito Santo, do ano passado para cá, o primeiro trimestre da produção leiteira registrou queda. No ano de 2017, foram produzidos 71.526 litros de leite, no mesmo período do ano seguinte o número subiu para 75.956, mas caiu neste ano, com produção de apenas 66.064 litros de leite, o pior resultado dos últimos 11 anos. Os números são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Segundo o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Espírito Santo (FAES), Júlio Rocha, são vários os gargalos que limitam a produção de leite e impactam na rentabilidade do produtor capixaba.
“Os custos da produção são superiores ao de venda. Estamos verticalizando a produção, com investimento em animais geneticamente modificados, que de fato produzem mais, mas carecem de um tratamento especial, com rações diferenciadas e selecionadas”, explicou.
Para eliminar, ou ao menos tentar amenizar os gargalos da cadeia produtiva de leite, Rocha lembra que é preciso empenho e discussões com a classe política e o governo.
“Todas as ações que estão ao alcance do produtor ou cooperado já estão sendo feitas. É preciso agora estreitar os laços com a classe política para corrigir algumas inconformidades da legislação, além de fortalecer a produção local. Incentivos fiscais dados aos produtores locais podem ser uma solução”, lembrou.



