Enquanto Juan Guaidó e Nicolás Maduro disputam o poder na Venezuela, a população busca uma saída para não ter de conviver com a violência, a hiperinflação, a fome e um sistema de saúde precário.
As dificuldades enfrentadas pelos venezuelanos vêm chamando a atenção do Brasil e do mundo. E alguns deles escolheram o Espírito Santo para tentar um recomeço.
São famílias que deixaram suas casas, venderam móveis, e atravessaram a fronteira em busca de mudança. E, também, pessoas que vieram sozinhas, carregando nos ombros o desejo de transformar a vida de seus familiares.
O padeiro José Rivas, de 51 anos, e a confeiteira Jakeline Briceno de Rivas, de 38, são venezuelanos e vieram para o Espírito Santo trazendo as filhas Sara, de 12, e Ana, de 8 anos. Eles moram atualmente em Vila Velha, e José contou que a situação na Venezuela estava crítica.
Segundo ele, houve casos de pessoas que saíam de casa às 4 horas da manhã para enfrentar uma fila na intenção de comprar alimentos e ficavam até o fim da tarde, mas nada conseguiam comprar, pois , quando chegava a vez delas, a comida já havia acabado.
“Quando estávamos trabalhando lá, ficamos sem comida. Passamos uma semana comendo só alimentos de farinha. Não tinha arroz, não tinha macarrão”, contou Jakeline.
Como lá o casal tinha uma padaria, o sonho deles é abrir o próprio negócio no Estado. “Nós fazemos pães e bolos, com recheios doces e salgados, e saímos na rua para vender. Temos avançado, ganhado clientela”, contou Jakeline. Eles garantem que a vida aqui está melhor.
O economista e professor universitário Celso Bissoli esclareceu que a Venezuela enfrenta uma hiperinflação, o que significa que há uma desvalorização muito grande da moeda local.
“Houve disparada no preço de produtos com alguns componentes importados, o que fez com que o país não tivesse condições de produzir internamente, já que fica caro comprar de fora”, explicou.
Ele lembrou que existe também o boicote econômico devido à estrutura do poder:
“É um problema puxando o outro. Aumenta o desemprego, a população com menos renda disponível consome menos e tudo vai fugindo ao controle do governo.”

A professora venezuelana Deyarling Riva, de 36 anos, veio para o Brasil em agosto buscar uma vida melhor e conseguiu se estabelecer no Estado, onde dá aulas de espanhol.
Deyarling explicou que, no Espírito Santo, recebeu apoio da Igreja Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias que a auxiliou com moradia e alimentação. Atualmente, a venezuelana reside em Vitória.
Ela contou que na Venezuela, mesmo trabalhando nos três períodos do dia, não conseguia comprar remédios que o filho precisava e nem ter uma boa alimentação.
“Eu trabalhava muito para comer arroz, macarrão e mais nada. Meu filho ficava doente porque não estava comendo proteína. Vi que eu iria morrer no meu país e decidi que buscaria uma vida melhor para mim e para minha família”, contou.
Seu objetivo é juntar dinheiro para que seus pais, irmãos e filho também possam vir para o Brasil.
Entenda a situação
Economia
A Venezuela é um país com excessiva dependência dos recursos do petróleo. O que é um ponto de fragilidade, diante da falta de diversificação. Desde a crise internacional de 2009, os preços das commodities despencaram e o país foi afetado.
O país está enfrentando uma hiperinflação. A desvalorização da moeda em comparação ao dólar torna caro importar prejudicando a produção interna.
Há um desequilíbrio muito grande entre a oferta e a procura de produtos. O preço dos poucos produtos ofertados acaba disparando e gerando um ciclo vicioso.
Somado a isso vem o desemprego. A população com menos renda disponível tende a consumir menos.
A pobreza, a necessidade de se alimentar e a falta de alimentos acabam aumentando os índices de violência.
Política
O país enfrenta graves questões políticas. Diante de indícios de fraudes na eleição de Nicolás Maduro, há situações de boicote econômico devido à estrutura de poder.
Juan Guaidó, que pela hierarquia do poder assumiria a presidência e também é o principal nome da resistência, se autoproclamou presidente do país. Para decisão foram considerados os aspectos legais e políticos.
Saída
Com toda essa situação, venezuelanos estão buscando alternativas fora do país. Mesmo porque com a hiperinflação por lá o dinheiro ganhado em outro país acaba tendo mais valor em território venezuelano.
Entre os destinos deles está o Brasil, e o Espírito Santo vem recebendo muitos venezuelanos, que chegam com intenção de abrir caminho para os familiares. Outros sonham em voltar para o país natal em melhores condições financeiras.
Refugiado
É aquele que sai do seu país de origem por causa de perseguição (política, étnica ou racial…), conflito, violência ou outras circunstâncias. Por ser perigoso voltar para o país de origem, o refugiado busca moradia em outros países.
Imigrante
Sai voluntariamente de seus país, por exemplo, em busca de melhores condições de vida, para aliviar dificuldades surgidas com desastres naturais, fome ou extrema pobreza. Eles podem retornar à sua casa em segurança quando quiser.
Fonte: economista e professor universitário Celso Bissoli; advogada especialista em Direito Internacional Daniely Ribeiro.

Além da Venezuela, o Espírito Santo já recebeu refugiados do Haiti, Síria, República Democrática do Congo, Zimbábue, Cuba, Angola e Nigéria, de acordo com dados do Núcleo de Apoio aos Refugiados no Espírito Santo (Nuares) da Universidade Vila Velha (UVV).
O Núcleo atua ajudando os refugiados que chegam ao Estado com informações sobre como conseguir se legalizar no País, ajuda no processo de integração que envolve vencer a barreira do idioma, entre outras funções.
“Às vezes, a pessoa chega e precisa de ajuda para preencher os documentos. A gente encaminha para Polícia Federal para tirar o Registro Nacional de Estrangeiro (RNE), que é como se fosse a identidade, e a partir dele tirar o CPF e a Carteira de trabalho, para poder trabalhar e se manter aqui”, detalhou o coordenador do projeto, Rafael Simões.
Segundo ele, falta no Espírito Santo políticas públicas direcionadas para esse público, que consegue se regularizar e quer empreender no Estado.
De acordo com o Comitê Nacional para Refugiados (Conare), como há liberdade de locomoção dentro do território nacional, não é possível precisar o número de refugiados vivendo em uma determinada unidade da federação, tendo em vista que os números são dinâmicos e mudam a cada momento.
A advogada especialista em Direito Internacional Daniely Ribeiro enfatizou a diferença entre refugiado e imigrante. “O refúgio geralmente está ligado a algum tipo de perseguição, seja étnica, religiosa ou política, por exemplo”.
Além disso, também há motivação pela generalizada violação de direitos humanos. Já a migração, segundo ela, é a saída voluntária.
Brasil
No território nacional já houve solicitações de refúgio por parte de cidadãos do Afeganistão, Albânia, Alemanha, Andorra, Angola, Argentina, Argélia, Armênia, Arábia Saudita, Austrália, Bangladesh, India, Venezuela, Tanzânia, entre outros, conforme o Comitê Nacional para Refugiados (Conare).
Saiba mais
Brasil
O Brasil já recebeu 1,5 milhão de imigrantes e sete mil refugiados.
Espírito Santo
Como há liberdade de locomoção dentro do território nacional, não é possível precisar o número de refugiados vivendo no Estado.
Entre os pedidos de reconhecimento da condição de refugiado deferidos este ano está o de uma ucraniana, cuja cidade de solicitação foi Vitória, em 2015.
Empreendedor
Os refugiados que estão legalmente no País podem empreender. Para isso devem procurar orientação com a prefeitura do seu município, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes) para obter mais informações sobre como proceder e acessar aos programas de crédito.
Fonte: Núcleo de Apoio aos Refugiados no Espírito Santo (Nuares), Comitê Nacional para Refugiados (Conare) e pesquisa AT

