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“Excesso de tarefa de casa atrapalha famílias”, afirma especialista

É comum os pais e as escolas acharem que uma grande quantidade de dever de casa ajuda no desenvolvimento das crianças. Mas o excesso de atividades ...

“Excesso de tarefa de casa atrapalha famílias”, afirma especialista
- Betty Monteiro: “As crianças estão consumindo muita informação e com pouco tempo para brincar. Os pais estão distantes, chegam do trabalho cansados, ficam no celular e não brincam com o filho”

Última atualização

Betty Monteiro: “As crianças estão consumindo muita informação e  com pouco tempo para brincar. Os pais estão distantes, chegam do trabalho cansados, ficam no celular e não brincam com o filho” (Foto: Divulgação)É comum os pais e as escolas acharem que uma grande quantidade de dever de casa ajuda no desenvolvimento das crianças. Mas o excesso de atividades escolares pode não fazer tão bem assim.

Tarefas que duram mais de uma hora – e até uma hora e meia – trazem mais malefícios do que benefícios para crianças.

É o que afirma um estudo recente da Universidade de Oviedo, na Espanha, publicado na revista “Journal of Educational Psychology” (Revista de Psicologia da Educação, em tradução livre), da Associação Americana de Psicologia, que avaliou 7.725 alunos espanhóis, com média de 13 anos.

A pesquisa concluiu que o ideal é dedicar à tarefa cerca de uma hora diária, já que mais do que isso pode atrapalhar o rendimento dos estudantes.

Para a psicóloga e psicopedagoga Betty Monteiro, o excesso de tarefas atrapalha o convívio familiar.

“Também faz com que o aluno, muitas vezes, passe a odiar a escola. A lição de casa tem de ser algo como pesquisa, um exercício de fixação”, afirmou a psicóloga, que é colunista da revista Pais & Filhos.

“É bacana os pais participarem da vida escolar dos filhos. Porém, hoje em dia, as famílias são de renda dupla. Essas crianças só verão os pais à noite”, acrescentou.

Betty destacou que a “hora da lição” pode virar um momento de estresse entre pais e filhos.

“Muitas vezes, a criança aproveita esse momento para manter os pais perto de si e receber a atenção que precisa. Então, ela diz que não quer fazer, que não sabe, cria uma cena – ou porque tem dificuldade ou porque quer atenção”, ilustrou.

“O perigo do excesso de tarefa de casa é esse: deixa de ser um momento gostoso e passa a ser uma luta”, completou.

A Tribuna – O excesso de atividades escolares atrapalha a família?
Betty Monteiro – Sim, acaba prejudicando o convívio familiar, e faz com que o aluno passe a odiar a escola também. Atrapalha esse relacionamento entre família e escola.

Existe um tempo ideal para se fazer um dever de casa?
A lição de casa tem de ser apenas uma pesquisa ou um exercício de fixação. Acontece que as escolas mandam excesso de lições nos dias letivos e até nas férias.

É muito bacana os pais participarem das tarefas e da vida escolar dos filhos. Porém, hoje em dia, as famílias são de renda dupla, e muitas dessas crianças só verão os pais à noite. Então, aquele momento de estar com a família, jantar, conversar e brincar, vira a “hora da lição de casa” e, na maioria dos casos, acaba se tornando estressante.

Isso acontece porque, muitas vezes, a criança aproveita esse momento para manter os pais perto de si e receber a atenção que ela precisa.

Quais os sinais a criança demonstra com esse estresse?
Ela diz que não quer fazer, que não sabe, ela cria uma cena que se repete diariamente – ou porque tem dificuldade ou porque quer atenção dos pais.

O perigo do excesso de lição de casa é que deixa de ser um momento gostoso, em que os pais deixam de participar da vida escolar dos filhos. Passa a ser uma luta. E os pais, para mostrarem que são participantes, fazem com que a criança apague a lição e faça de novo, ficam corrigindo. Isso acaba tornando esse momento pior do que já é.

Como os pais devem agir?
Eles deveriam dizer para o filho: ‘você não sabe ou não quer, então vá para a escola sem fazer a lição e se entenda com seu professor’. Aí eles agiriam de forma educativa. Dessa forma, a criança desenvolveria a ética da responsabilidade.

A criança iria para a escola sem lição e haveria uma reação do professor, como, por exemplo, a perda do recreio. Isso seria educativo. Agora, os pais brigarem ou, muitas vezes, fazerem a lição pelo filho não é o certo.

Quando agem assim, não estão preocupados com os filhos, mas sim com a imagem deles, com o fato de alguém dizer: ‘esse pai não cuida ou educa’. Isso seria um vício relacional. Na hora de fazer a lição de casa, os pais chegam a sofrer.

Outra questão é que o ensino mudou e muitos pais têm dificuldades de ensinar da maneira como a escola ensina. Quando a lição de casa chega nesse ponto, temos de questionar se ela é válida.

Como os pais podem ajudar os filhos a administrarem o tempo?
Hoje, as crianças estão com várias atividades além da escola, e os pais precisam saber quando o filho não está dando conta. Eles precisam sentar com o filho e verem o que pode deixar de ser feito. Precisam organizar o tempo, criar uma rotina, combinar o horário das atividades e falar o que sentem, até quando não sabem lidar com as lições de casa.

É sentar e falar o que pode ser feito para melhorar a relação.

Muitas vezes, a criança perde o interesse pela escola por causa das lições de casa em excesso. O único sentido da lição de casa é desenvolver responsabilidade e bons hábitos. É para a criança chegar em casa, realizar uma tarefa e devolver.

As escolas deveriam rever o excesso de atividades em casa?
Há escolas que passam lição até nas férias, e isso é um absurdo. Até a gente, em fim de semana, não quer saber de trabalho. Deus descansou quando criou o mundo. Passar lições durante as férias é uma falta de respeito, é um abuso.

Férias são férias, assim como o fim de semana. Passar lições durante esses dias é um abuso de poder, de autoridade, ignorância e falta de respeito. Isso pode ser reflexo de escolas que querem mostrar serviço.

Para desenvolver o hábito de responsabilidade nas crianças, de forma a envolver os pais na educação, tem de ser algo simples. Há também muitos pais que cobram as tarefas de casa das escolas porque eles acham que isso é bonito.

A senhora já acompanhou casos de crianças estressadas com excesso de atividades?
Sim. Recentemente, atendi um menino de 10 anos cuja escola achava que ele tinha transtorno opositivo-desafiador (TOD) e ele foi encaminhado para psicodiagnóstico. Fomos investigar e concluímos que ele estava com estresse.

Ele tinha um excesso de atividades, fora da escola e dentro da escola. Com 10 anos, ele treinava futebol profissional diariamente. Ainda tinha escola, inglês, lição de casa e não tinha tempo para brincar. Ele estava estressadíssimo e, inclusive, ficando deprimido.

As crianças estão sendo expostas a muitos afazeres?
As crianças estão consumindo muita informação, estão tendo pouco tempo para brincar. Os pais estão distantes, porque chegam do trabalho cansados, ficam no celular e não têm relação saudável de brincar com o filho.

É uma casa onde não há espaço para a criança ser criança. Os pais estão cansados, eles não toleram bagunça, sujeira e brinquedos espalhados. Precisamos recuperar a infância das nossas crianças.

Qual seria o modelo ideal para que as crianças pudessem crescer de forma saudável?
Os pais pensam tanto no futuro que não vivem o presente do filho. Primeiro, os pais têm de saber que a criança não tem o mesmo ritmo que o deles. O adulto faz tudo correndo pela manhã, e a criança precisa de um tempo para acordar e comer. Ela precisa de um lugar de paz e harmonia para poder crescer.

PERFIL

Betty Monteiro

  • É pedagoga, psicopedagoga, psicóloga, escritora e colunista da revista Pais & Filhos.
  • Ministra palestras por toda a América Latina. Trabalha em consultório particular, atendendo crianças, adolescentes e adultos.
  • É autora dos livros “A Culpa é da Mãe”; “Criando Filhos em Tempos Difíceis”; “Criando Adolescentes em Tempos Difíceis”; “Cadê o Pai dessa Criança?” e “Avós e Sogras”.

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