Defensor do equilíbrio e sintonia entre conteúdo e as competências emocionais na sala de aula, o doutor em Educação Max Günther Haetinger critica a falta de formação e comprometimento da maioria dos professores que se mantém didaticamente engessada frente às novas formas de aprendizagem do século 21.
Max aconselha que os professores usem vídeos, desenhos, atividades lúdicas e todas as ferramentas disponíveis para que preparem aulas interessantes, que envolvam os alunos e suas realidades. Ele afirma que o professor tem papel fundamental na formação cidadã e de valores do indivíduo e diz que a família presente na escola influencia diretamente nos resultados de um aluno nota 10.
A tribuna – Qual o maior erro das escolas hoje?
Max haetinger – O excesso de conteúdo. A gente tem de compreender que a formação do indivíduo frente aos desafios do mundo em que vivemos necessita de conteúdos, competências e comportamentos. Não adianta a pessoa saber de cor a regra de três e em uma situação da vida não saber lidar efetivamente. O comportamento é mais desenvolvido dentro de nossas casas, mas a maioria das famílias não tem tempo. Os comportamentos passaram a ser também desafio das escolas.
Então, por isso que a escola não pode se preocupar só com conteúdo, de maneira nenhuma não quer dizer que não tem de se preocupar, e confundir isso é um grande erro. É preciso ter equilíbrio, sintonia e integração.
Como se determina a qualidade da escola e do ensino na atualidade?
Por um conjunto de coisas. A nota é importante, mas é preciso que o ambiente escolar seja agradável, que haja relações de cooperação, que a escola disponha de tecnologias, que dialogue e que desenvolva o “pensar juntos”. Essa é a escola do futuro. Não do futuro dos sonhos, mas o modelo que funciona nos países com o maior grau de aprendizagem como Irlanda, Coreia do Sul, parte da Alemanha e Canadá, por exemplo.
São países que de alguma forma encontraram a simbiose nos ambientes em que as crianças se comunicam, experimentam, ficam mais de pé, caminham mais. Temos uma geração em que o movimento é cada vez mais limitado por falta de espaço e segurança. A criança precisa de movimento para se desenvolver. Esses são desafios importantes das escolas de qualidade.
É preciso ter sintonia entre o que a escola oferece e o que a família pensa. Não posso colocar meu filho em uma escola na qual não acredito. É mais difícil nas escolas públicas, mas isso depende muito da vontade de quem gere, com o uso de pedagogias ativas e participação de todos.
Quando o modelo de ensino começou a mudar?
Na verdade, a educação é um processo de mudança constante. Há mais ou menos 30 anos se rompeu o paradigma da memória, da aprendizagem por conteúdo e por memorização (decoreba).
Desenvolver a memória não é parte do processo de formação de alguém, pois não se forma um indivíduo para concorrer com máquinas. Foi aí que se começou a pensar em colocar em prática metodologias diferentes, a partir de professores que pensavam diferente.
Ainda há professores que estão há mais de 20 anos na sala de aula. Como se atualizar?
Fazer curso de formação, pesquisar lá na internet “como dar uma aula de equação, regra de três, história”. Por que não usar um desenho animado da internet para contar a história do Brasil? E isso não depende da idade mas sim de comprometimento. Os velhinhos como eu (risos) estão se esforçando para aprender com os alunos. E isso vai além do salário. Se sou educador, preciso me inteirar das coisas, isso é muito importante.
Qual o papel da escola na formação do cidadão que respeita as diferenças do outro?
O educador tem o direito de opinar e de chamar a atenção. O papel da escola é total nesse processo. Nas escolas públicas nem tanto, porque os alunos normalmente têm credos e cores parecidos. Na particular, às vezes é difícil o convívio com um grupo muito específico, é ruim para a diversidade.
A gente só aprende quando convive e está no lugar de quem olha. Tenho de respeitar o lugar do outro. Entender, sob a vista do outro, essas diferenças.
É importante que a família esteja presente na escola?
A educação ideal depende sim da participação da família. Família presente na escola é sinal de sucesso garantido de um aluno na sala de aula.
Qual a fórmula da aprendizagem?
Não existe fórmula. A aprendizagem é um processo cultural. Não é fácil aprender e, por isso, não é fácil dar aula.
Como os professores podem se motivar?
Não é fácil não. Estamos em um momento em que o professor é considerado vilão. Nós vivemos um momento social no Brasil que o respeito não é dado como deveria. O professor não é uma figura respeitada e, muitas vezes, é desrespeitado por políticas públicas.
O meu sonho é que a educação no Brasil seja gerida por educadores. O ministro da Educação tinha de ser um pedagogo, de “chão de escola”, e tinha de ficar uns 20 anos lá, independente do presidente eleito.
Que conselho dá para os professores?
Que ele seja autêntico, que seja ele mesmo. Que procure dar aula com paixão, com a certeza de que vai deixar o aluno satisfeito.
Professor, dê aula com coisas que te façam feliz. Se gosta de ler, leve livros, se gosta de contar histórias, conte. Se gosta de cozinhar, faça receitas e ensine Matemática. Use técnicas didáticas, mas seja você. Essa proximidade com os alunos quebra todas as fronteiras.
