
Especialista em Avaliação de Sistemas Educacionais pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Edebrande Cavalieri avalia os impactos e desafios para o Enem diante dessa nova realidade.
A TRIBUNA– O tempo entre a última edição do Enem, em 2019, e a de 2020 esticou, já que a prova deste ano acontecerá em janeiro. Logo, as táticas de estudo para a prova devem mudar?
EDEBRANDE CAVALIERI – As táticas para estudo nesse contexto ficaram mais desafiadoras e vão mudar completamente. O maior tempo não é um dado que beneficia. Ele é expressão de um desnorteamento na vida dos jovens. Foi nesse ambiente que cada aluno pôde constatar que sozinho é muito mais difícil estudar.
Então, é preciso buscar forças em situações muitas vezes estranhas, e o entorno familiar deverá fazer parte dessas novas táticas de estudo. A cobrança constante poderá prejudicar ainda mais o quadro de desânimo. A escola foi pega de “calças curtas”.
O tempo entre o exame de 2019 e o de 2010 ficou bem maior. Mas isso não é para imputar maior responsabilidade sobre os estudantes. Muitos não conseguiam nesse tempo todo nem se mover. A principal dificuldade nesse exame decorre da ausência de equilíbrio emocional.
O ambiente familiar não equivale jamais ao ambiente escolar. Tarefas de casa e dificuldade de organização para o estudo pesaram muito sobre esses jovens. Nesse contexto muitos estudantes ainda são obrigados a enfrentar crise de ansiedade e dificuldade de reagir.
Ajuda de profissionais habilitados é importante nesse momento. Mas para a maioria dos nossos jovens das escolas públicas é impossível.
É esperado que o estilo do Enem mude no “novo normal”?
Não é esperada nenhuma mudança significativa nesse exame. A introdução da prova em meio digital como experimento facultativo com 50 mil inscritos em todo o Brasil deverá trazer novos tipos de questões com inclusão de pequenos vídeos, infográficos e até de lógica de games.
Essa é a novidade para um projeto de mudança da prova feita em papel para versão digital.
Como essa mudança de data é capaz de influenciar no desempenho de um aluno?
A mudança de data não deveria trazer impacto no desempenho, porém há que se considerar o contexto que esses estudantes tiveram que enfrentar nos estudos durante esse ano.
O ensino a distância traz a necessidade de apresentar autonomia de estudo e horários. Eles não estavam preparados para uma mudança tão brusca em suas vidas.
O que deve mudar?
Em vez da cobrança presencial, agora é a hora de investir na dedicação aos estudos. A preocupação pelo retorno não deveria tomar conta das mentes desses alunos. Além da dedicação, a disciplina também é outro ingrediente muito necessário tanto nos estudos como na vida em geral. Essa necessidade é muito presente nos alunos, pois remete ao método. Muitas vezes a falta de método traz maiores dificuldades para estudos a distância.
O tempo de estudo de um estudante quarentenado precisa ser menor para ele não “pirar”?
Aos alunos que estão nesse caminho eu diria: não é hora de largar tudo. Há um conjunto de ações que devem ser executadas para que o jovem não “pire”. Algumas ações são da responsabilidade de cada um, mas a maior parte recai sobre as instituições que possuem competência e responsabilidade sobre a educação.
Memorização de fórmulas segue sendo uma boa tática?
Dificilmente a exigência de memorização de fórmulas estará presente na próxima prova do Enem. Entre as diretrizes para elaboração das questões consta a eliminação da indução ao erro ou “pegadinhas”. O que se coloca como muito importante é a capacidade de uma questão atender a diversos campos do saber, ou seja, a interdisciplinaridade.
Portanto, haverá questões de Física em que o aluno terá que conectar com os conhecimentos de Química e de Matemática.
O costume de pensar isolado deve ceder espaço para o pensar transversal. A grande dificuldade dos alunos está geralmente situada na interpretação dos textos em que se descreve uma situação-problema que abrange todas as alternativas da questão. É muito comum haver correlação entre o texto enunciado com gráficos e tabelas. Isso torna cansativo…
Como se comportar nas festas de final de ano?
Aqui está um desafio muito grande. Não é hora para relaxar, para perder o foco. O maior desafio do Enem para os alunos é o equilíbrio emocional. Para isso algumas atividades são bem-vindas, como ouvir músicas, ver filmes e ler livros.
Quem é Edebrande Cavalieri:
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É especialista em Avaliação de Sistemas Educacionais pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), onde é professor.
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É integrante do Banco de Avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior.
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Foi Secretário de Avaliação Institucional da Ufes