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Entre Prateleiras

Não me perturbe

Ensaio discute como engrenagens de poder se movem sem aumentar de tamanho, à medida que resistências e contrapesos desaparecem

Não me perturbe
- Jaques Paes é executivo, mestre em gestão empresarial, palestrante, consultor, pesquisador e professor de MBA na Fundação Getulio Vargas
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Jaques Paes

Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV. Autor da coluna Entre Prateleiras, publicada no jornal A Tribuna e disponível também no portal Tribuna Online.

Última atualização

Qual será o momento em que alguém que opera uma engrenagem passa a acreditar que ela se move porque ele a movimenta? Podemos ser engolidos por ela e mesmo assim continuar apertando os parafusos. Homens comuns estão circunscritos pelo seu cotidiano, mas, com certa frequência, se movem, ou são movidos, por forças que não compreendem.

De Chaplin vamos a Nixon. Em 1973, o então presidente norte-americano Richard Nixon ordenou ao procurador-geral que demitisse um dos procuradores que investigavam o caso Watergate. Ele se recusou e renunciou.

A ordem desceu ao vice-procurador-geral. Nova recusa e nova saída. Desceu mais um nível, até o terceiro na hierarquia do Departamento de Justiça, quando foi cumprida. O promotor foi demitido. O episódio ficou conhecido como Saturday Night Massacre.

Entre a primeira ordem e sua execução, Nixon não recebeu uma nova prerrogativa, não ampliou sua autoridade nem mudou de posição. A mesma ordem percorreu a estrutura até encontrar alguém que a executasse. Duas pessoas aceitaram perder seus cargos antes que isso acontecesse.

A concentração de poder é frequentemente analisada pelo lado de quem acumulou força.

Parte desse movimento pode ocorrer ao redor dele. O poder de alguém pode aumentar sem que lhe seja concedido poder adicional, à medida que diminuem os contrapesos capazes de oferecer resistência ao seu exercício. Cargos, atribuições e competências permanecem os mesmos. A arquitetura continua reconhecível enquanto as relações que lhe davam equilíbrio começam a mudar.

Menos resistência amplia a latitude de quem decide, e a latitude exercida passa a integrar as condições da decisão seguinte.

Uma prerrogativa exercida diante de determinada circunstância encontra depois outra suficientemente próxima para ser exercida novamente. Aquilo que antes exigia excepcionalidade passa a contar com um antecedente. O ponto a partir do qual a decisão seguinte será julgada se desloca com ela. Cada ciclo aumenta a distância da condição original e o custo de retornar a ela.

Quem está fora observa o ato. Quem está dentro acumula as razões que o justificaram. Cada decisão encontra coerência naquilo que pretende resolver.

Ao oferecer resistência, contrapesos produzem informação para quem decide. Colocam interpretações concorrentes diante dele, exigem justificativas e preservam uma realidade que não coincide necessariamente com aquela percebida por quem exerce o poder. Quando a resistência diminui, parte dessa informação desaparece com ela.

Uma decisão encontra pouca resistência e passa. A seguinte encontra menos. Aquilo que foi possível começa a ser percebido como permitido. Aquilo que foi permitido passa a compor o repertório do adequado.

“Estou certo” e “ninguém consegue mais me dizer que estou errado” passam a produzir a mesma experiência.

O equilíbrio depende da capacidade de forças diferentes perturbarem o movimento umas das outras. Uma engrenagem pode permanecer exatamente onde sempre esteve e deixar de oferecer resistência. Outra continua girando e percorre um espaço cada vez maior sem ter aumentado um milímetro de tamanho.

Até que alguém que opera uma engrenagem passa a acreditar que ela se move porque ele a movimenta.

As outras continuam lá.


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