Quando as cortinas se abriram ontem, revelaram um ser dourado, totalmente coberto, no fundo do palco. Então a figura se aproximou e um canhão de luz mostrou sua cabeça, totalmente coberta. Ney Matogrosso então se revelou, abriu o capuz. E foi ovacionado. Aplausos, gritos, assobios. Ele sorriu e colocou o seu “Bloco na Rua”.
O espetáculo foi aberto com a canção de Sérgio Sampaio, que dá nome à nova turnê do multifacetário artista. A ideia, ele já tinha contado ao AT2, era surpreender, como tantas outras vezes ao longo de sua carreira, iniciada nos anos 70 no Secos & Molhados. E, mais uma vez, ele conseguiu!
O show começou quente, com Ney gingando “pra dar e vender”, e provocando na interpretação de “Jardins da Babilônia”, de Rita Lee, e “O Beco”. No telão, as diferenças sociais brasileiras estavam evidentes e completavam o tom de denúncia e ironia. Ao final de cada canção, o público respondia eufórico. E as reações foram ficando cada vez mais apaixonadas.
“Estou aqui”, “lindo”, “maravilhoso” é o que se ouvia em meio às baladas “Tua Cantiga” e “Postal de Amor”. Tudo certo. Para ele, no show, tudo é permitido, todos são livres. E todos estavam conquistados, assim que ele, um dos maiores intérpretes do País, cantou “A Maçã” e “Iolanda”. Com notas precisas, Ney causou arrepios e a emoção transbordou.
De um repertório “emocional, com músicas que eu queria cantar”, ele resgatou “Sangue Latino” e “Mulher Barriguda” do Secos & Molhados, deu a sua versão para “Como Dois e Dois”, de Caetano Veloso, e para “O Último Dia”, de Moska, e apresentou a única inédita no repertório atual, “Inominável”, de Dan Nakagawa.
Em dois momentos, Ney ensaiou a despedida. Mas parecia impossível encerrar a noite. O público pedia mais, só “mais uma”. Ou mais tantas. Então ele voltou. No final da noite, os foliões de seu bloco estavam exaustos, extasiados, excitados, felizes. Envoltos, em um verdadeiro Carnaval de emoções.
Após 60 anos, Ney Matogrosso reencontra amigo capixaba
Nos bastidores da turnê “Bloco na Rua”, mais um momento de pura emoção. Logo após o final do espetáculo, um simpático e tímido Ney Matogrosso saiu do camarim para ser abraçado por fãs entusiasmados. No meio deles, um antigo amigo, dos tempos de serviço militar, no Rio de Janeiro.
Ney e o capixaba Daniel Rocha Coutinho não se viam há quase sessenta anos. Assim que reconheceu o antigo colega, Ney sorriu e o abraçou. “Quanto tempo, meu Deus!”, disse. “Lembro demais de você e de seu irmão. Eram os ‘gêmeos do quartel'”, completou, citando o irmão do capixaba, que mora no Rio de Janeiro.
“O Ney desenhava bastante nessa época e era muito talentoso. Seus desenhos eram muito bonitos”, lembrou Daniel. Emocionados, os dois recordaram os tempos de Aeronáutica e os amigos da época. “A maior parte dos nossos colegas eram daqui, do Espírito Santo. O Ney era o único que não era capixaba”, contou Daniel.

