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“Aos 90 anos, quanta coisa falta fazer!”, revela Nathalia Timberg

São 90 anos de história, o que, para ela, é apenas um número. A carioca Nathalia Timberg já era uma jovem quando viu a 2ª Guerra Mundial chegar ao ...

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São 90 anos de história, o que, para ela, é apenas um número. A carioca Nathalia Timberg já era uma jovem quando viu a 2ª Guerra Mundial chegar ao fim. Ao mergulhar nas artes, ganhou prêmios, viu seu monólogo “Paixão” atingir a maioridade e foi aplaudida em incontáveis cidades.

 (Foto: Divulgação/Pino Gomes)De sua boca, saem relatos cheios de reflexão que poderiam durar horas para serem contados. Mas todo esse conhecimento não a impede de ir atrás de novas experiências.

“Ainda tenho tudo para aprender! Nosso horizonte caminha conosco. Então, à medida que você caminha, vai desvendando. Tanto no caminhar físico como no caminhar mental. Eu não me vejo estacionada. Meu Deus do Céu, quando você olha à sua volta, tem tanta coisa! Quando chego a uma biblioteca, fico com uma raiva, porque penso: ‘Quanta coisa falta eu ler! Aos 90 anos, quanta coisa falta fazer!’”, diz, aos risos, ao AT2, após receber a Comenda Jerônimo Monteiro, a mais alta honraria concedida a uma personalidade.

A homenagem foi entregue pelo governador do Estado, Renato Casagrande, na última quarta, durante o lançamento do 11º Circuito Banestes de Teatro. A atriz retorna ao projeto este ano com o espetáculo “Através da Iris”, dias 23 e 24 de maio.

“Os obstáculos aparecem para você superar!”, diz atriz

AT2 – Como é estar envolvida em um projeto que leva a cultura para várias cidades do Estado?

Nathalia Timberg – Quando eu fiz o “Circo do Povo”, foi por isso. Minha ideia era poder me movimentar, mas depois isso se tornou inviável por uma série de razões, que passaria uma noite inteira para contar.

Fiz por causa dessa minha vontade de ter esse contato com as pessoas, de sentir como a sensibilidade delas é tocada, como esta gente da qual eu sou um outro espécime igual age, como ela recebe. Tenho alma de itinerante.

 (Foto: Divulgação/Camilla Baptistin )É isso que a leva a seguir com as turnês?

Claro! Eu adoro! As pessoas falam: “Ainda?”. Eu fico triste é quando está acabando! (Risos)

Tem uma carreira bem-sucedida, de muitos aplausos e acaba de ser homenageada mais uma vez. Mas o que, de fato, a emociona?

Tudo isso, às vezes, até me constrange um pouco. Você tem sempre medo de não entender que, ao contrário de inflar teu ego, isso deveria te dar uma visão maior de se esforçar por se tornar merecedora desse tipo de avaliação.

O importante é conseguir tocar a sensibilidade e a emoção das pessoas. Não é fazer de você um ser diferenciado em termos de valores.

Tem ideia de por quantas cidades já passou em sua trajetória?

Não. Está marcado dentro de mim, porque tenho uma sensação de um contato com minha gente de uma forma muito mais próxima do que muitos têm.

E, principalmente, quando as cidades são carentes disso, me sinto feliz em poder levar esse tipo de linguagem e de comunicação.

Cancelou datas de “Através da Iris” por conta de uma gripe. O que aprende com os obstáculos?

Os obstáculos aparecem para você superar! Se você prestar atenção, você passa sua vida superando obstáculos. Desde pequeno, quando aprende a andar. E dá mais vontade de continuar! Os desafios são interessantes, senão fica repetitivo. E a repetição, às vezes, também é gostosa.

Não é qualquer um que chega aos 90 anos. Para você, é apenas um número?

Sim! Até digo na peça que é uma bênção chegar aos 90. Tudo bem, você conseguiu chegar, mas 91 não é diferente, nem é diferente de 89…

As pessoas se habituam a marcos de datas, eu não sou chegada a isso.


O que ela diz


Visão inesquecível

A atriz Nathalia Timberg, que foi homenageada no Palácio Anchieta, lembrou a primeira vez em que esteve no Estado, no 1º ano da Escola Nacional de Belas Artes, em 1948. Em Anchieta, sozinha numa praia, viu o céu estrelado de um jeito que nunca tinha visto antes.

“É um momento que me acompanha pela vida. Tenho uma visão – talvez por causa de uma família que é muito eclética em termos de nacionalidade – de que sou habitante do planeta. A Terra é um ovo, uma bobagem pequenina. Hoje acontece algo aqui e você já está sabendo. Antes, não. As pessoas se ignoravam.

Então, essa consciência de pertencer, de estar num corpo celeste específico, que faz parte desse universo em que me vi integrada, não me abandona.

O defeito não está na concepção e nem em nenhum sistema, está no ser humano, nas falhas humanas, que continuam as mesmas daquelas tratadas pelos gregos nas grandes tragédias. Elas mudam de figurino, mas o homem continua o mesmo!”

“Meu dia tinha que ter mais horas”

Envolvida em tantos projetos, a atriz confessa que tem pouco tempo para ouvir música e ler. “Adoro música sinfônica, me cobro que não estou ouvindo o suficiente e ultimamente não estou lendo tanto, pelas coisas que estou fazendo… Meu dia tinha que ter mais horas!”, brinca.

Nova produção capixaba

Nathalia contou que fará mais uma peça de produção da capixaba WB: “Três Mulheres Altas”, que teve sua 1ª montagem brasileira há 25 anos. A atriz era uma das estrelas, junto a Beatriz Segall e Marisa Orth. No novo espetáculo, ela fará a personagem interpretada por Beatriz Segall, morta em 2018. Outro nome confirmado é o de Deborah Evelyn. A estreia está prevista para o final deste ano.

“O engraçado é que todas são baixinhas”, brinca ela, que também deseja retomar com o espetáculo “Chopin ou o Tormento Real”.

“O estudante não tem curiosidade”

“Falo muito da conquista de conhecimento… Para você ter uma criança desenvolvendo bem em toda sua formação, ela tem que ter tido alguém que lhe despertasse o conhecimento. Às vezes, por obra do espírito santo, ela já nasce com isso: a curiosidade! É ela que vai te levar a aprender. Você não vai aprender nada que não te interessa.

Infelizmente, hoje, o ensino é todo diferente. O estudante estuda só para passar, e isso não leva a nada. Ele vai para uma faculdade querendo o diploma, não o conhecimento. Não tem essa curiosidade, que é despertada lá nas primeiras letras. E isso fica quase como um vício, fica tudo por fazer, por aprender.

Tem gente que não sai do lugar, não se interessa por coisa alguma. É triste, mas é a grande maioria”.

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