A cantora e compositora Bebel Gilberto, 54, estava no início da produção de seu novo álbum “Agora” quando conseguiu a curatela de seu pai, o ícone da bossa nova João Gilberto.
A medida, na prática, significava que o cantor não estava mais autorizado a praticar atos como assinar contratos e movimentar dinheiro, por ser percebido como incapaz de tomar tais decisões.
Da decisão, nasceu “O Que Não Foi Dito”, música que está nas plataformas digitais, mas que não foi ouvida pelo seu principal destinatário, que morreu em julho do ano passado.
Na canção, escrita em 2017, a artista canta os seguintes versos: “Na outra metade da vida / Você soube, fez tudo / Mas nessa metade / Vou ter que tentar te ensinar / O que não foi dito, já estava escrito”.
“’O Que Não Foi Dito’ foi uma carta para o meu pai. Havia um turbilhão de informações, muita exposição na imprensa… Eu já estava em estúdio e era impossível que a aquela situação toda não se transformasse em música. Foi uma forma de me desculpar, de explicar o porquê de eu ter tomado aquela decisão, de falar que meu objetivo era organizar a vida dele, a casa, o médico”, conta Bebel ao AT2.
Seu novo disco traz ainda a canção “Na Cara”, gravada com Mart’nália, e chega após três anos desafiadores na vida da cantora, marcados também pela perda da mãe, a estrela Miúcha, e por brigas judiciais.
“Tudo isso me deixou bem machucada, com cicatrizes. Mas tudo a gente renova, faz de novo, transforma. Isso que é importante. A música é sempre uma terapia”, conta ela, que decidiu trocar Nova Iorque, onde nasceu e viveu as três últimas décadas, pelo Rio de Janeiro.
“Não vivo de mentiras. Sou impulsiva”
AT2 De que forma o retorno ao Brasil e ao Rio de Janeiro influenciou nesse disco?
Bebel Gilberto A minha mudança para o Brasil ocorreu quando já estava com o disco praticamente pronto. O que muda é o fato de estar aqui no Brasil no lançamento, falando em português, com um disco que é 90% em português. É um momento mais Brasil, mas não necessariamente tão Brasil.
De que forma Thomas Bartlett, que trabalhou com nomes como Norah Jones e Yoko Ono, somou para esse projeto?
Nos conhecemos há, pelo menos, 15 anos. Thomas fez vários shows comigo pelo mundo e escreveu a música “Secret”, do disco “All in One”. A produção dele sempre é rica, com arranjos e sons que normalmente não são muito usados. Pelo fato de ele tocar tudo no teclado, acho que traz uma sonoridade melancólica muito interessante.
Ficou conhecida por sua bossa nova eletrônica. O que este disco tem de diferente de “Tanto Tempo”, seu primeiro álbum internacional?
Tento sempre fugir do rótulo bossa nova eletrônica. Acho que, hoje em dia, consegui criar o som Bebel, que justamente veio com o “Tanto Tempo”, com a linda produção do Suba e do Béco Dranoff. Esse disco me colocou na plataforma mundial.
O disco marca 40 anos de sua estreia na música, cantando com seu pai em especial de TV. Ele foi seu maior incentivador?
Papai incentivava, mas cobrava. Não era o maior incentivador, não. Nem ele, nem a mamãe. A mamãe, com certeza, vibrava mais. Mas acho que sempre fui muito cobrada e isso tem um lado até positivo.
Sobre os 40 anos de carreira, é uma loucura! Realmente, é um orgulho. E, com todas essas datas redondas, 20 anos de “Tanto Tempo”, 40 anos de carreira, 30 anos da morte de Cazuza, um ano depois da morte do papai… É muita coisa! Acho que agora a gente tem que seguir em frente e sempre aprender com nossos erros e vitórias.

Sem dúvida. Eu não vivo de mentiras. Uma das minhas qualidades – e também um dos meus defeitos – é ser transparente e impulsiva. Às vezes, eu caio nessa armadilha das redes sociais de querer parecer perfeita, não mostrar a bagunça da casa… Eu, que gosto de beber um pouco, vez ou outra me arrependo de ter entrado numa rede social e ter sido “eu mesma”.
Mas eu vejo que, cada vez mais, as pessoas têm buscado aceitar e entender o outro. As lives de produção essencialmente caseira trouxeram isso de bom, uma abordagem mais natural. Por isso, as lives da Teresa Cristina fazem tanto sucesso. Ali, nós temos “permissão” para ficar mais soltos.
Como se sente com o fato da trajetória tão brilhante de seu pai trazer uma briga judicial, que impede que grande parte de sua obra e materiais inéditos cheguem às plataformas digitais?
Sobre o espólio, agora não está nas minhas mãos. Depois que papai se foi, preferi não ser a inventariante, mas fiquei satisfeita com a indicação da advogada Silvia Gandelman, indicada pelo Ministério Público. Ela tem muita experiência, pode fazer um bom trabalho.
Há relíquias, materiais inéditos antigos, papai registrou muita coisa em vídeo. Nos resta agora é ajudar a advogada, para que a música dele seja espalhada mundo afora.
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