Foram 54 dias preso em cárcere sem qualquer explicação pela ditadura militar. Em “Narciso em Férias”, o músico e escritor Caetano Veloso, 78, revela os bastidores das semanas mais sombrias de sua história, que trouxe repercussões psicólogicas, políticas e artísticas.
Na madrugada do dia 27 de dezembro de 1968, duas semanas depois de o governo decretar o AI-5, Caetano Veloso foi retirado de sua casa, em São Paulo, por agentes do regime militar que estavam à paisana e levado para uma solitária no Rio de Janeiro. Semanas depois, foi transferido para outra cela.
Naquele mesmo dia, o cantor Gilberto Gil também foi preso. Os jornais foram impedidos pela censura de divulgar a notícia.
Em “Narciso em Férias”, volume avulso do capítulo homônimo de “Verdade Tropical” (1997), Caetano relata o impacto brutal que essa prisão trouxe para sua vida.
A edição, que está em pré-venda e será lançada na próxima sexta, inclui uma seção com registros do processo aberto pela ditadura militar contra o cantor e compositor, descobertos pelo pesquisador Lucas Pedretti. Os documentos ficaram guardados no Arquivo Nacional e seriam revelados ao artista, pela primeira vez, 50 anos mais tarde, em 2018.
No texto inédito de apresentação, Caetano Veloso anuncia: “Este, que é meu escrito a que atribuo maior valor, entra na cena atual da vida política brasileira de modo abrasivo”.
Além do livro, no último dia 7, o filme de mesmo nome estreou mundialmente no Festival de Veneza e foi sucesso de crítica.
Com direção de Ricardo Calil e Renato Terra, o longa se concentra no depoimento de Caetano embalado por músicas. Entre os detalhes contados, estão o momento em que ele é retirado da cela e levado para raspar seus longos cabelos.
“Eu tinha que comer ali no chão mesmo. Isso durou uma semana, mas pareceu uma eternidade. Eu comecei a achar que a vida era aquilo ali. Só aquilo”, diz, no filme.
Serviço
“Narciso Em Férias”
- Autor: Caetano Veloso
- Páginas: 168
- Editora: Companhia das Letras
- Preço: R$ 59,90

“Narciso Em Férias”