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“Criar é um prazer para mim”, diz João Bosco

Cantor e compositor mineiro vai celebrar 50 anos de carreira em show sábado (22), no “1º Guaçuí Jazz e Blues Festival”

João Bosco tem no currículo a autoria de clássicos como “O Bêbado e a Equilibrista"

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É diante das perdas que o cantor João Bosco, 76, ressalta, por telefone, o valor da vida e o quanto ela merece ser vivida. 

“Estamos aqui para dar o melhor de si e seguir em frente. Já que estamos aqui, temos essa obrigação”, salienta o mineiro, ao lembrar da morte do amigo e parceiro de composição Aldir Blanc, morto por complicações causadas pela Covid-19 em maio de 2020. 

E qual o significado de viver para um artista  depois de 50 anos dedicados à música e tendo no currículo a autoria de clássicos como “O Bêbado e a Equilibrista”?

Ao jornal A Tribuna, ele responde: “Criar é um prazer para mim. Essa é a minha vida, é o que eu gosto de fazer.  A música só não tem hora marcada, surge de forma misteriosa. Mas quando quer, é insistente. Então você tem que estar sempre ali à disposição”.

Além da paixão por criar, ele aprendeu nessas cinco décadas de carreira que o prazer de curtir um show precisa ser recíproco.  Por isso, quem define a seleção de hits que ele vai apresentar no próximo sábado (22), no “1º Guaçuí Jazz e Blues Festival”, é o próprio público.

“É um repertório muito vasto e generoso, então vamos deixando as coisas fluírem. Será um show representativo, bonito e eu vou junto das pessoas criar uma relação para que a gente possa curtir junto”.

No palco, ele estará acompanhado dos músicos Kiko Freitas (bateria), Guto Wirtti (baixo) e Ricardo Silveira (guitarra), formando o elogiado “João Bosco Quarteto”. 

CONFIRA A ENTREVISTA COMPLETA:

A Tribuna: Sua última passagem pelo Espirito Santo foi em dezembro de 2021. Está com saudade?

João Bosco: Com certeza! Desde o princípio da minha carreira que eu passo pelo Espírito Santo. E de diversas maneiras. Nessa última, foi com orquestra.

O “1º Guaçuí Jazz e Blues Festival”  acontece próximo a natureza. É um ponto positivo?

Foi uma surpresa agradável saber que o local do show seria esse. Engraçado que a música teve grandes momentos em paisagens semelhantes. 

A gente tem que se lembrar lá do Woodstock que foi um momento crucial e foi lindo ver aquelas pessoas todas ali sentadas, despojadas, todo mundo à vontade com um som muito lindo. O som tinha esse espírito, essa liberdade. 

Aqui no Brasil cheguei a participar de eventos que se faziam até mesmo em função do que representou o Woodstock. Em Poços de Caldas, Minas, o Belchior estava comigo. Já no interior de São Paulo,  no dia que toquei, Raul Seixas fez um de seus últimos shows em festivais. Então, minhas recordações são as melhores possíveis. 

A música te propôs os melhores momentos de sua vida?

A música é a minha vida! Eu estive em Ouro Preto, me formei engenheiro, mas todo tempo que passei por lá estudando, eu fazia música.

Em todo tempo da minha vida, eu não me reconheço vivendo sem pensar em música. Ela está comigo desde o início. Para mim, esse tempo todo é muito natural porque sempre desejei e é o que eu desejo. Manter esse desejo, para mim, é manter a vontade de estar vivo e presenciar as mudanças que ocorrem no mundo em que vivemos. A música me proporciona isso. 

Se
apresenta no segundo dia do festival. No primeiro, tem Leila Pinheiro.
São grandes amigos?

Nós
somos amigos de muitos
anos. Desde
quando ela chegou ao Rio,
eu
já
estava aqui e
ficamos
amigos imediatamente. Compartilhamos trabalho
várias vezes, em locais diversos pelo Brasil.
Mas,
principalmente, na
turnê do
Prêmio
da Música
Brasileira
quando eu fui homenageado.

Naquele
ano, ela viajou comigo. Nós
percorremos algumas capitais brasileiras com esse show e
tinha
uma turma muito divertida e
competente com a gente. Estávamos
eu, a Leila
Pinheiro,
Alcione,
Arlindo
Cruz
e Péricles.
E
eu
cantava muito
com a Leila
nesse show, fazíamos
alguns números
juntos e sempre foi muito prazeroso. Saber que a Leila
está
junto de
um evento que também estou
só me deixa
ainda
mais feliz.

Chega
com show comemorativo aos 50 anos de carreira. O que prepara?

A
gente procura fazer um show que represente a nossa trajetória e esse
é um quarteto que tem músicos realmente extraordinários.
Compartilhar músicas com eles significa enriquecer a leitura daquelas canções.
Como já temos muitos anos nessa estrada, é um repertório
muito vasto, então
vamos deixando
as coisas fluírem naturalmente porque
a música
tem muito disso também.

A
música
precisa dessa espontaneidade de surgir
naturalmente num
repertório,
então
nós
temos várias
opções, e são
músicas
representativas desse tempo
todo que a gente está na estrada. É um repertório bastante
generoso. Vai
ser generoso, amplo, representativo, bonito e eu vou também junto
das pessoas criar uma relação
para que a gente possa curtir ali juntos, para
que
seja um prazer recíproco. É
isso que a gente vai aprendendo ao longo do caminho também. 

A
maior parte do álbum “Abricó-de-macaco” (2020) é resultado da parceria com
seu filho Francisco Bosco. Te enche de orgulho essa parceria?

Claro!
A
gente já trabalhava
junto
no disco “As Mil e Uma Aldeias” (1997), que é muito pessoal,
familiar, que falava dos meus ancestrais no mundo árabe. Depois
trabalhamos juntos nos discos “Malabaristas do Sinal Vermelho”
(2003) e “Na Esquina” (2000). Agora, com “Abricó-de-macaco”, a faixa título do disco, recebemos o prêmio de Melhor Canção no Grammy Latino.

Então,
não
é de agora que ele aparece contribuindo com meu trabalho, ele já
vinha fazendo isso há
muitos anos. Ele é um cara que pode contribuir e ainda
vai
contribuir muito para um pensamento sobre a nação
que a gente vive e os
diversos
problemas que temos que enfrentar. 

Em
algum momento teve medo de não ter a oportunidade de levar esse
disco para os palcos por conta da pandemia de Covid-19?

A
partir do momento que você nasce, está vivo, o seu tempo começa a
contar, porque o tempo não é infinito. A partir daí, estar ou não
aqui são probabilidades que você têm que conviver. Agora,
evidentemente, que há momentos como em situação de guerra, de
pandemia, que
as vidas sofrem uma ameaça maior do que o normal do dia a dia. E na
pandemia não foi diferente. O que aconteceu é que você tem imensas
perdas e, quando você consegue passar pela pandemia, tem uma grande
parte de você que sofre muito por
elas.

Aldir
Blanc faleceu dia 4 de maio de 2020 e não havia ainda vacina. Essa é
uma perda irreparável que você vai ter que lidar com ela a vida
inteira. E
tiveram outros
amigos que perdi e parentes, e pessoas que não conhecia, mas que
eram importantes para a história do Brasil.

Então
são perdas que você vai ter que administrar com o tempo e seguir em
frente. Estamos aqui para dar o melhor de si e seguir em frente
porque a vida segue em frente. Já que estamos aqui, temos essa
obrigação, esse comprometimento de seguir em frente. Viver
é um ato obrigatório, é
uma graça, uma dádiva da natureza,
então
você tem
que fazer
o possível para
se preservar,
para
que você
possa passar por isso.

Todo
mundo  deve se preocupar em se defender para
que a vida possa continuar porque
a vida merece todo esse esforço e é por isso
que digo a você,
passado esse momento, que
outros momentos ameaçadores virão, porque o ser humano é assim,
cheio de incoerências, intolerâncias, caminha para
espaços
às
vezes individualistas e tudo isso repercute na humanidade. Então
a qualquer momento nós poderemos estar ameaçados
mais uma vez por uma coisa ou outra. Mas
a questão
é seguir em frente. Como
diria um amigo meu, “fugir só para
frente”!

Já
se apresentou com orquestra e há
pouco tempo fez
releituras com Hamilton de Holanda. O que ainda falta fazer nessa
longa trajetória?

A
gente
está aí
tocando,
então
os convites vão
surgindo. E
você
vai vivendo as experiências.
Mas, enfim, com certeza vou viver ainda muitas experiências
musicais. Espero
e torço por isso! Vou
deixar que a própria
vida me faça surpresa. 

Você
já deu arranjos sinfônicos para suas músicas e está
sempre reinventando canções já lançadas. Num mundo onde a
novidade é muito cobrada pelo público, você ainda mostra que é
possível reinventar canções…

Aprendi
na música brasileira que isso existe e adoro exercitar isso. Acho
que
todo
exercício
de criação no sentido da busca pelo
ineditismo, pela exploração
dos limites da música,
tem o seu lado
inédito e deve ser visto assim.

SERVIÇO:

“1º Guaçuí Jazz e Blues Festival”

Quando: Sexta-feira (21) e sábado (22), às 19h.

Onde: Casa da Prata. Rodovia ES-185, km 6, a 14 km do centro de  Guaçuí.

Ingressos: Para cada dia, R$ 90 (2º lote/meia). Passaporte para os dois dias a R$ 160 (3º lote/meia).

Venda: lebillet.com.br. 

Clas.: 18 anos.

Programação:

Sexta-feira: Leila Pinheiro (PA), Vanêssa Coutinho e Trio, Ronnie Silveira e Trio, Passuka Jazz Quarteto e Big Bat Blues Band.

Sábado: João Bosco (MG),  Niumar Santiago e Trio, Amélia Barretto & Trio, Ed Ayres e Urublues.

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