Carioca de nascimento e capixaba de coração, o jornalista e escritor Caê Guimarães, 49, ficou em primeiro lugar da edição de 2020 do Prêmio Sesc de Literatura na categoria romance, com o livro “Encontro Você no Oitavo Round”.
Morador da Praia do Canto, o autor agora vai assinar com a editora Record para a publicação da sua obra inédita, que deve chegar às livrarias no final do ano. O romance será lançado por todo o Brasil por meio do circuito cultural promovido pelo Sesc. Neste ano, foram inscritos 1.358 livros, sendo 692 romances e 666 contos.
Em entrevista ao Tribuna Online, o escritor conta um pouco da história que o fez ser reconhecido nacionalmente por sua qualidade literária e que traz elementos de sua vivência em terras capixabas.
Na história do livro, o boxeador Cristiano Machado Amoroso está prestes a fazer sua última luta, mas é atormentado por um zumbido em seu ouvido e por fantasmas do passado. E ele começa a enfrentar essas memórias e passa a questionar toda sua trajetória.
Tribuna Online Como se sente ao ganhar um prêmio dessa magnitude?
Caê Guimarães Muito feliz! Estava confiante. Eu tinha certeza que contribuí com um nível de trabalho muito bom. Minha trajetória começou em 1997, quando publiquei meu primeiro livro de poesias, “Por Baixo da Pele Fria”. Depois, lancei outro de poesia e comecei a escrever crônicas. Meu último livro inédito foi em 2014, “Vácuo”, de poemas.
E como foi o processo de escrita do livro “Encontro Você no Oitavo Round”?
Desde 2012, venho trabalhando no romance. Terminei em 2019. Aconteceu de eu parar o livro algumas vezes, porque sou muito exigente com o que escrevo. Senti que a história estava indo para uma caminho não muito legal, não muito interessante. Tenho umas quatro versões dele. Cheguei a me questionar: será que sou um romancista ou só poeta e cronista?
Escrever um romance é uma dinâmica totalmente diferente. Falei: não, não é minha praia, não vai rolar mais. Mas, em 2018, a coisa fluiu e tem um dado curioso. Embora ele seja ambientado em um universo predominantemente masculino, que é o pugilismo, eu só consegui concluir a história quando a personagem jornalista, uma voz feminina, começou a provocar o narrador.
Qual a história do livro?
Foi inspirado em mim. Não é autobiográfico, mas há muito de mim nele. O personagem tem por volta de 40 anos. A idade que eu tinha comecei a escrever. Hoje tenho 49. Pratiquei box como exercício físico, já competi no judô. O universo da luta sempre me pareceu muito fascinante.
A história é de um boxeador chamado Cristiano Machado Amoroso, que está prestes a fazer a última luta. E ele começa a ser atormentado por um zumbido, que vai e volta na cabeça dele, e por fantasmas do passado. Ele começa a rever o passado, a confrontar suas memórias. E surge outra circunstância que o leva a largar o que fazia antes e se dedicar ao pugilismo. Ele vai caindo. Questiona o que fez, sua trajetória.
Tem um componente social muito grande. O pugilismo é uma atividade de periferia, expõe a pessoa a muitos riscos de morte, é algo muito duro, é difícil. As pessoas terminam a carreira com machucados neurológicos, cicatrizes. E eu fiz uma certa reflexão desse lugar onde excluídos encontram espaço de realização.
E, como existe uma personagem jornalista, eu aproveito para fazer algumas críticas a um jornalismo que é feito hoje por alguns jornalistas. E é ela quem vira a chave do personagem. É ela quem o leva ao nocaute. Ele se depara com esse momento, a última luta da carreira e, em cima disso, faz um grande mergulho. O personagem busca sua redenção. Para alcançar, ele faz um mergulho profundo no seus demônios interiores. E ele tem vários.
E onde a história é ambientada?
Existem referências a Vila Velha e Vitória, embora não cite o nome. Lembro do cheiro do chocolate, do apito da fábrica. Tem algumas cenas que quem conhece o lugar vai ver que é a Vila Rubim. Usei muitos elementos da minha vida para a construção dessa narrativa.
Quando será o lançamento?
Esta semana, assino com a editora Record. O lançamento está previsto até novembro. Terá circuito de lançamento nos eventos literários do Sesc pelo Brasil, incluindo o Espírito Santo.
Na sua opinião, o que mais chamou a atenção dos jurados?
Não é a temática, porque o pugilismo e o box já foram usados na literatura internacional, mas não me lembro de ser abordado na literatura brasileira. O box é tão bruto, vários artistas praticaram e praticam esse esporte. Talvez a história que conto, usando como pano de fundo o pugilismo. É uma história de redenção.
Escrevi o livro ao longo de alguns anos. Aqueles colegas que leram o original disseram: “Tá sequinho, não tem nada sobrando”. E uma das julgadoras fez um depoimento, disse que é uma narrativa que prende o leitor do começo ao fim.
Por meio da filosofia, eu coloco o pugilismo como uma etapa da vida. É um romance de extensão curta, é extremante conciso, talvez umas 220 páginas. Não é extenso, mas há uma extensão nele.
Tanto tempo como cronista e poeta, por que resolveu escrever um romance?
Sempre quis me aventurar pelo romance, pela prosa longa. Sempre fui um leitor de prosa longa, até mais que de poesia. Talvez tenha lido mais prosa que poesia. E me instigava isso, saber se tinha capacidade de escrever um romance. E um livro para ficar bem-resolvido leva um ano. Não é um trabalho imediato. A prosa tem um fascínio.
Quando comecei, achei que estava escrevendo um conto. Estava bacana, e guardei. Sempre deixo o texto fermentando, às vezes até por um ano.
Quando fiz a leitura, fui continuando. E, de 20 paginas, virou 40. Depois 60. E vi que não tinha um conto, tinha um romance. E o personagem foi se manifestando. E chega uma hora que é inevitável. A história começa a acompanhar. Na padaria, no show, na festa. Olho para o lado e vejo esse personagem.
Foi a primeira vez que você se inscreveu para esse prêmio?
Primeira vez. A ideia do prêmio é revelar novos escritores. A maioria dos escritores fez contrato com editoras.
E agora? Qual o próximo passo?
Vou aguardar ansiosamente para o lançamento, assinar o contrato com a Record e esperar a pandemia passar. Eu já estava desenvolvendo um novo projeto, o romance “O Filho de Zeus e seu Avô”. Mas agora é só comemorar. O prêmio é hoje uma das grandes vitrines da literatura brasileira, por causa do circuito que é feito no Sesc. E é muito importante, porque o Brasil tem literatura de altíssimo nível.