
“Tentam transformar a gente num corpo só, como se todos fôssemos iguais e como se só existissem dois gays: o que ‘dá pinta’ e o machão. Mas somos complexos, cada um tem sua história, suas dores, fala de um jeito e se veste como quer. E é preciso ter coragem para ser o que você é, para se expressar e poder criar o seu universo”, afirma o ator e comediante Luis Lobianco, 38, ao AT2.
Há oito anos vivendo um relacionamento com o pianista Lúcio Zandonadi, 43, o artista está no filme “Carlinhos e Carlão”, disponível no Amazon Prime Video.
Na trama, ele é um homofóbico e machista que passa por uma transformação após comprar um armário mágico: à noite, Carlão se torna o divertido Carlinhos.
“O recado deste personagem é: ‘Sou tudo isso, vou passar com minha alegria, existência e ninguém vai me impedir’”, define Lobianco.
“Sempre em ação”, como ele mesmo diz, o ator ainda pode ser visto na nova temporada de “Vai que Cola” (Multishow), no filme “10 Horas para o Natal”, em cartaz nos cinemas a partir desta semana, além de atuar no especial natalino da série “Diário de um Confinado” (na plataforma Globoplay) e no cabaré online “Buraco show”.
Luis Lobianco, ator e comediante
“O humor não é só riso”
AT2 – Está nos cinemas com o filme infantil “10 Horas Para o Natal”. Como foi?
Luis Lobianco – Nunca imaginei que faria um filme de Natal. Foi divertidíssimo! A química em tela com meus “filhos” é inegável, me emociona.
Nas plataformas de streaming, estreou com “Carlinhos e Carlão”. Foi difícil criar esses personagens tão diferentes?
O Carlão foi um expurgo, porque a gente não aguenta mais esse tipo de heteronormatividade tóxica, com que a gente precisava lidar a vida toda. São esses caras que cometem homofobia, que te xingam e imitam. Foi natural, porque foi a minha vez de apontar: “Olha, como você é babaca!”.
Com Carlinhos, foi diferente, porque conheço muitos deles, os meus amigos são diferentes Carlinhos. São gays incríveis, pessoas criativas, expressivas, complexas e eu precisava honrá-las.
Esperava que esse filme chegasse e tocasse as pessoas?
A arte pode ser muito estratégica em criar o sentimento de empatia fora da nossa bolha. É um filme popular, acessível a todos. As pessoas vão rir e se emocionar.
Como tem sido a recepção?
As pessoas não querem apenas falar que assistiram. Algumas vão além! Existem relatos como de um menino que queria conversar com os pais sobre a orientação dele e me escreveu, após ver o filme: “Não posso deixar a confiança que sinto nesse momento passar”.
Há relatos de pais que assistiram ao filme com seus filhos e acham importante que eles entendam o que está sendo dito. E tem homens héteros que falam: “Foi incômodo me ver mais no Carlão do que no Carlinhos”.
Tiveram cuidados para transmitir a mensagem principal do filme?
O tempo inteiro! Desde que recebi o roteiro, já li querendo rabiscar e anotar coisas. O filme é uma toalha bordada com várias pontas de gente bordando.
Acho que é muito importante que o protagonista, que sou eu, seja gay. Porque eu direciono meu trabalho sempre para isso, para falar de diversidade, me alimento muito do que está sendo falado e é uma grande oportunidade da gente traduzir isso em arte.
O humor é importante na mudança de condutas?
Durante muito tempo, a gente riu do oprimido, mas estamos num momento onde o humor passa a rir do opressor. E esse filme acompanha isso. O Carlão não inspira no público um sentimento de cumplicidade.
O humor não é só riso. Quando se para no riso, muitas vezes as histórias não estão sendo contadas até o fim. A arte, quando consegue chegar ao coração, promove transformações incríveis.
Apesar de ser uma comédia, há cenas tristes, que retratam a homofobia.
Esse é um filme brasileiro, e o Brasil é o país que mais comete crimes contra o LGBTQIA+. Seria irresponsável tratar desse tema e não mostrar isso.
Estamos perto de viver em um mundo sem preconceitos?
Estamos no caminho, mas longe do ideal. Ainda falta muito porque, quanto mais avançamos, mais o outro lado fica intolerante. Mas não vamos arriar a cabeça!
Qual é a vacina para uma sociedade intolerante?
Vacina, por enquanto, só penso na Coronavac! (Risos) Mas acho que é a oportunidade. Que as pessoas que detêm as mídias abram seus espaços para que a gente esteja presente.
Assumir o “verdadeiro eu” é o segredo da felicidade?
É uma fórmula para tudo na vida, não só para a sexualidade. Não podemos criticar pessoas que não se assumiram, porque cada um sabe o que passou. Eu tenho uma família superbacana. Quando foi o momento de falar sobre isso, fui acolhido, mas não é assim com todo mundo.
A partir do momento que você decidiu se assumir gay, acredita que chegou mais perto da felicidade?
A repressão está em todo lugar, mesmo numa família bacana como a minha. Eu fui falar sobre isso quando tinha 18 anos, porque não existia espaço em lugar nenhum para crianças que tinham uma expressão LGBTQIA+.
Quando falei, acho que eles refletiram, pensaram numa vida toda e, a partir dali, começamos uma coisa nova, com aceitação e respeito. Mas, em todo ambiente da sociedade, não tem lugar para nós.
E você não tem referências também. Na minha adolescência, quando começaram a vir os hormônios e inseguranças, quando ligava a TV, não tinha eu ali. Você fica sem lugar, tem que criar o seu espaço sozinho, por isso é difícil.
Ser representado é importante para você ter coragem de existir e exigir a sua identidade, naturalizar a nossa existência.
A criação dos filhos é o primeiro passo para a mudança?
Com certeza! Quando uma criança tem contato com outros universos, ela amplia sua visão, sua capacidade de empatia.
Estar “fora do armário” já prejudicou a sua carreira?
Em nenhum momento, dizem que você não está sendo escolhido para uma personagem porque você não é magro ou por ser gay. Mas, se você coloca, em paralelo com a sua carreira, amigos seus, que estão dentro de algum padrão, tiveram muito mais oportunidades do que você e pessoas que se parecem com você. Então, tem algo errado. Eu tenho plena consciência do meu talento, e exijo as oportunidades!
Você e o Lúcio Zandonadi têm um relacionamento público. Faz parte dessa luta?
Eu sempre vivi minhas escolhas com naturalidade. Faz parte da minha vida e eu ainda acho que falo muito pouco dela.
Seu marido tem parentes em Pedra Azul (Domingos Martins). Chegaram a passar a quarentena aqui?
Infelizmente, não. Como eu queria me refugiar em Pedra Azul! Acabei ficando em casa porque trabalhei remotamente.
Sou apaixonado pela família do Lúcio, foi através dele que conheci melhor o Espírito Santo. Sempre vamos, passamos alguns dias na casa dos meus sogros, e são momentos de muita paz. Infelizmente, é um turismo pouco visto. Sempre que vou e posto, as pessoas perguntam onde é. Já mandei tanta gente para aí que você não tem noção, tinha que ser secretário de Turismo. (Risos)