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“Vou contra a ditadura da beleza”

Mais do que ninguém, a atriz carioca Guilhermina Libanio sabe o que é passar por um processo de autoaceitação. Ela enfrentou muitos medos e ...

"Aceitar o próprio corpo é uma eterna 'obra', com aquela plaquinha escrita 'em construção'. É um trabalho árduo e diário”

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Mais do que ninguém, a atriz carioca Guilhermina Libanio sabe o que é passar por um processo de autoaceitação. Ela enfrentou muitos medos e inseguranças em relação ao seu corpo aos 15 anos e reviveu todos eles quando fez “Malhação: Vidas Brasileiras”, dando vida à Úrsula, uma jovem que sofria preconceito por ser gorda.

“É cruel a gente viver se espremendo para entrar num padrão que alguém inventou”, desabafa Guilhermina (Foto: Paulo Belote/TV Globo)

Hoje, aos 21 anos, ela está em “Órfãos da Terra”, interpretando Cibele, uma ativista que faz de tudo para tentar mudar o mundo, e se identifica com a coragem da personagem. Afinal, a artista usa sua popularidade para pregar o amor-próprio nas redes sociais e entrevistas.

“A minha militância vem muito por necessidade. Falo sobre autoaceitação porque é um processo que estou vivendo. É cruel a gente viver se espremendo para entrar num padrão que alguém inventou. Vou contra a ditadura da beleza porque acredito que a beleza das pessoas está nas suas potencialidades, que a gente tem que ter liberdade para desenvolver as nossas potências, e não acredito que exista apenas um jeito de ser bonito. A beleza é plural e diversa como as pessoas são”, afirma ao AT2.

“Revivi inseguranças, medos e alegrias” – Guilhermina Libanio, atriz

AT2: Deixou “Malhação” para atuar em “Órfãos da Terra”. Como foi ir para uma nova novela tão rápido?
Guilhermina Libanio: Fiquei surpresa! Mas, quando li o texto do teste da Cibele, fiquei sedenta pela personagem. Ela é uma mulher incrível! É muito bom poder trabalhar com o que amo e estar falando sobre coisas tão importantes na TV.

AT2: Sempre quis ser atriz?
Guilhermina Libanio: Faço aulas de teatro desde os 11 anos e sabia que não teria como fugir desse universo. Mas demorei para entender que era atriz mesmo que eu queria ser. Pensava que seria diretora ou produtora, achava que não existia espaço para uma atriz gorda na TV. Não via muitas mulheres ocupando esse espaço, achava que não existia.

AT2: O que aprendeu com Úrsula, de “Malhação”, e com a Cibele, de “Órfãos da Terra”?
Guilhermina Libanio: As duas trazem a mesma mensagem, porque ocupam um corpo gordo, mas, de resto, são muito diferentes. A Úrsula ainda estava descobrindo como era amar esse corpo. É lindo poder falar sobre isso, mostrar que é um processo, que não é de um dia para o outro que a gente acorda se amando.

Junto com ela, passei de novo por todo meu processo de aceitação. Revivi inseguranças, medos e alegrias de fazer as pazes com quem você é.

Para Cibele, o corpo não é uma questão. Ela ocupa esse corpo e desfruta de todo potencial que ele tem. Usa shorts curtos e decote, batom vermelho às 8 da manhã e busca a liberdade de ser o que quiser o tempo todo. Cibele me ensinou a tomar posse das minhas vontades, a perceber que sou mais do que um corpo, a ter coragem de ser quem sou e a lutar pelo que acredito.

AT2: Personagens como esses na TV são uma arma do bem?
Guilhermina Libanio: Sim! Recebo mensagens de pessoas me agradecendo pelo fato de eu ser uma mulher gorda e estar na TV. Representatividade é muito importante. Como você vai se amar se não vê ninguém semelhante a você à sua volta?

Espero abrir esse espaço para que diversas pessoas possam ocupá-lo. Quero diversidade! Quero fazer uma personagem que ser gorda não seja questão, que esse tema nem apareça de forma explícita.

AT2: Quando percebeu que não era necessário estar dentro de um padrão e que poderia estar bem e livre do Photoshop?
"Aceitar o próprio corpo é uma eterna 'obra', com aquela plaquinha escrita 'em construção'. É um trabalho árduo e diário” (Foto: Leandro Tumenas/Divulgação)Guilhermina Libanio: Nunca deixei de fazer nada porque tinha corpo gordo. Mas, às vezes, não me sentia tão confortável como deveria, como ir à praia com os amigos.

Estar bem e livre do Photoshop foi, e ainda é, um processo em construção em mim.

Não tenho nada contra Photoshop, só acho que não devemos ser escravos disso.

Atualmente, estamos tão acostumados a modificar a própria imagem que, quando a gente se olha no espelho, praticamente não se reconhece mais sem as alterações.

O não usar Photoshop, para mim, é um compromisso com quem eu sou de verdade. Mas não é algo fácil sair com celulites e estrias em foto. Aceitar as marcas do nosso corpo é um trabalho árduo. Mas não invalida quem quer apagá-las também.

Eu quero que as pessoas tenham liberdade para fazer suas escolhas. O que importa é que esteja em paz com seu corpo e com quem você é.

AT2: Acompanhamento psicológico te ajudou a se livrar de algumas neuras?
Guilhermina Libanio: Sou da turma que acredita que todo mundo deve fazer terapia. Faço acompanhamento psicológico desde os 15 anos e me ajudou.

AT2: Disse que a aceitação do corpo não é um processo rápido…
Guilhermina Libanio: Aceitar o próprio corpo é uma eterna “obra”, com aquela plaquinha escrita “em construção”. É um trabalho árduo e diário. Todo dia você escolhe se amar de novo. Se perdoar. Não existe uma fórmula mágica. O amor-próprio tem que ser alimentado como qualquer amor.

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