Muitas coisas incríveis podem sair do silêncio da madrugada. Que o diga uma galera que transforma a falta de sono em arte e trabalho. Sim! Para muitos, enquanto a cidade dorme, as cortinas das ideias se abrem para entrar em cena a madrugada criativa.
Artistas como Roberto Carlos e Caetano Veloso já revelaram que grandes sucessos seus nasceram na “hora dos vampiros”, como brinca o cantor e compositor Carlos Papel, 68, ao AT2.
A coreógrafa Mítzi Marzzuti, 63, e seu marido, o fotógrafo Carlos Antolini, 62, transformam suas madrugadas em momento de diversão. “É um processo louquíssimo! Desenvolvi um sono que começa às 19h. Resultado: às 2h, estou de pé. E acordo numa felicidade! (Risos) Tenho vontade de cozinhar, beber, dançar. Como meu marido gosta de ver TV até tarde, nos encontramos nas madrugadas. Tomamos vinho, jogamos baralho, oramos por um mundo melhor”, conta ela, que também inclui seu processo criativo nesses momentos. “Vivo com a dança em mim”.
Mas o que acontece com as pessoas que se soltam tão tarde – ou tão cedo? A psicóloga pós-graduada em Criatividade e Inovação Marcia Dolores Resende tem uma resposta. “Descobrem novos talentos que podem fazê-las mais felizes e leves. Deixa de ter um problema e passa a respeitar sua singularidade”, esclarece a especialista.
“O silêncio da madrugada, para alguns, é um combustível. A liberdade de ter um período sem interrupções e a exclusividade de ser dono do tempo são valiosos para produtividade. Quando tenta dormir para evitar perder a noite de sono, estará com medo e agindo como se fosse obrigado, saindo, assim, da postura adulta e responsável por suas escolhas e internamente portando-se como uma criança temerosa. E ainda manterá o desconforto e o sintoma”.
Roberto Debski, psicólogo e médico, define criatividade como uma característica que nos leva a achar saída em momentos de crises. “Nos leva a pensar em maneiras diferentes. A pandemia tem gerado problemas nos relacionamentos e sintomas como insônia. Encontrar novos meios de gerar conforto e bem-estar é uma saída para lidar com essas questões”, aconselha.
E Marcia Dolores reforça: “Atribuir um novo significado à insônia é libertador”. Para Debski, pessoas que se sentem melhor à noite se tornam mais desinibidas. “Aproveitam o período em que se sentem mais dispostas, motivadas e em ambiente no qual se identificam”.
“Companhia”
“As madrugadas são minhas companhias artísticas. Tudo começou há quatro anos, durante minha recuperação de uma cirurgia no coração. Não conseguia dormir, o que me deixou muito mal. Até que uma amiga me trouxe um bloco de aquarela e fui rabiscando. É algo visceral. Hoje, pinto em tela, cenário, parede. Nunca tive limitação”, salienta a artista visual e publicitária Milena Almeida, 37. “Se tiver tudo bem, durmo às 3h”.

“A hora dos vampiros (risos), a madrugada, é meu horário de trabalho. Ela sempre foi intensa, inspiradora. A criação provoca, perturba. A música já me acordou! Pela madrugada, rolam até conversas com outros músicos. Todos felizes”, destaca o cantor e compositor Carlos Papel, 68, que dorme às 5h.

“Tenho problema com ansiedade e, como alguns projetos exigem que me debruce por horas, sem interrupção, a madrugada se torna perfeita! Consigo ter paz, foco. Sou apaixonado pelo dia, no entanto, trabalhar em determinados projetos e tocar violão só mesmo de madrugada”, conta o publicitário Octávio Baioco, 32. Para ele, dormir só mesmo depois das 2h.

“A madrugada é uma companheira. Gosto do silêncio da noite, me sinto mais produtiva. E, como meu trabalho é uma continuação de mim, tudo o que vejo me estimula: um filme, uma leitura, as pessoas, uma conversa”, explica a designer de joias Ivana Izoton, 37, que, em noites sem insônia, dorme às 2h.

“Moro na madrugada e sobrevivo durante o dia. Conheço a madrugada toda. Ela é o ninho das inspirações, é poesia. Uma oficina da solidão, que, por sua vez, hospeda as ideias. Enquanto a cidade dorme, componho, escrevo meus poemas engarrafados”, diz o cantor e escritor Sandrera, 47, que dorme depois das 3h.
