Magia pura! Ou será bruxaria? Não importa. Hermeto Pascoal aceita ser chamado de mago, de bruxo, do que o público achar melhor. Dá a todos a mesma liberdade que tem criando suas composições do que chama de “música universal”.
Sua musicalidade sem freios, nascida naturalmente há 83 anos, estará no sábado no Marien Calixte Jazz Music Festival, no Bairro República, que ainda contará com nomes como a mistura paulista e argentina do Duo Finlândia e com o pianista carioca Jonathan Ferr.
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E o que esperar da noite com o mago da música? “Isso eu só sei quando eu piso no palco. Estamos prontos, como se fosse para o jogo. Então, vamos lá! Vamos tocar e matar a saudade dessa linda cidade e desse povo lindo e maravilhoso”, diz o simpático bruxo dos sons alagoano.
É muito querido pelo público capixaba. Gosta de se apresentar aqui?
Olha, como você me fez essa pergunta, eu ia falar um negócio e agora eu vou dizer. Eu queria saber por que demoram tanto para me chamar para ir aí, um dos lugares que eu mais gosto de tocar.
É chamado de “Mago” e de “Bruxo”. Gosta de ser chamado assim? Faz mágica ou bruxaria sonora?
Eu acho que é tudo junto, sabe? Porque eu sempre digo que eu sou 100% intuitivo. Então, eu não espero nada, as coisas vêm até a mim. Então, o que eu acho é que bruxo, mago, tanto faz. Eu gosto de dar a mesma liberdade que eu tenho para fazer a minha música, 100% de liberdade para o povo piar o que ele quiser. Não defino nada para o auditório, nem o que eu vou fazer. Comigo não tem disso não. Até endereço. Eu não gosto de andar sempre pelo mesmo lugar.
Já disse que tem sempre três ou quatro músicas na cabeça. O que o inspira a compor?
Justamente essa interrogação que eu tenho. Se você perguntar se eu conheco Deus , eu não conheço. E nem você. E agora dizer para você, responder isso, eu não consigo. Nem eu sei e nem você. Você tem até mais liberdade do que eu, porque você pode escutar a minha música e deduzir do seu jeito, da sua maneira, como qualquer pessoa do público. Porque a música não é minha. A música é do mundo. A música é o céu, a música é todas as galáxias.
Seu processo criativo é sem freios, intuitivo. Pode contar um pouco sobre ele?
Aí você falou uma coisa maravilhosa, sem freio. Porque eu só vou frear quando Deus colocar a mão na minha cabeça e me receber lá de volta. Então, isso, eu sou mesmo. Poderia até dizer um desenfreado. E isso não sai de mim porque eu sou um camarada assim. Eu amo a música.
Qual é a sua primeira lembrança musical? Quando diria que se tornou um músico?
Diria que a minha mãe, muitas vezes, chegava para mim, enquanto estava aqui na Terra, e dizia que ela nunca se esqueceu de quando eu nasci. Ela disse que eu nasci todo cor de rosinha, chorando quase nada. Só parecia que estava sorrindo. E eu nasci assim. Então, eu não falei “eu sou músico”. Eu nasci música. É como eu falei, sobre ser intuitivo, eu já nasci música. Esse negócio de números não é comigo. Só quando eu uso a teoria, e eu uso a teoria apenas para anotar as coisas.
Sua obra é estudada por músicos de todo o mundo, o senhor é um artista querido, premiado, reverenciado, vanguardista. O que significa tudo isso para o senhor?
Não existe nada no mundo que não tenha semelhança, ninguém faz alguma coisa diferente em nenhuma área. A divulgação é que é errada de não esclarecer isso, especialmente para as crianças que estão começando. Eles ensinam todo mundo a fazer as coisas iguais.
Quando eu vejo alguém fazendo alguma coisa muito puxada para o meu jeito, acontecia muito no começo, mas hoje, graças a Deus, não acontece mais, eu dou um conselho: você existe. Deus te botou no mundo justamente para você criar, fazer as suas coisas e ter o seu pensamento e a sua maneira de ser.
Olhe para o céu, para as estrelas, o vento… Tudo o que você pode ver que não tem definição. Quanto menos definição você tem, quanto menos rótulo você der, mais inteligente é.
É considerado um dos grandes da música. O que acha disso?
Como eu disse, sou 100% intuitivo e eu espero as coisas virem. Acho que, nesse dia, a gente estava em um bar, tomando uma cervejinha e você entendeu para esse lado… (Risos) Nunca fui assim, grande, nunca fui, porque eu acho que ninguém tem o direito de dizer o pensamento antes dele chegar. Então, como Deus não me deu esse direito, eu prefiro ficar 100% intuitivo e com a minha mente aberta. As coisas ruins voltam, vão embora, e as coisas maravilhosas ficam.
