Com mais de 40 anos tocando juntos, os músicos da banda Os Paralamas do Sucesso – Herbert Vianna, João Barone e Bi Ribeiro – não se veem desde março. “É o efeito da pandemia”, diz Barone, 58, em entrevista ao AT2.
Mas a saudade está com os dias contados. No próximo sábado (29), às 20h, o trio carioca fará sua primeira live, “Paralamas Clássicos”, pelo YouTube.
Mas por que demoraram tanto? Não rolou nem um show virtual, como tantos artistas têm feito? “Desde o momento em que a quarentena entrou em vigor, achamos que seria mais seguro e sensato mantermos nosso distanciamento. Foi cada um para um lado e, desde março, não nos encontramos. O Herbert não tem estúdio em casa. Eu e o Bi também não, por isso ficamos impossibilitados de fazer algo virtual. Achamos que era melhor esperar até termos todas as garantias de segurança para nos encontrarmos novamente e não entrarmos em contradição com o distanciamento social”, explica.
E o baterista completa: “Finalmente, agora temos essa tranquilidade e garantias. E vamos fazer essa primeira live com muita alegria. Esperamos corresponder às expectativas. Vai ser um astral muito grande poder encontrar, mesmo que virtualmente, a nossa grande galera. Será um show mais intimista. Como se estivessem nos vendo num momento mais descontraído”, diz.
“Paralamas Clássicos”
O quê: Primeira live dos Paralamas do Sucesso com show inédito
Quando: Sábado (29), às 20h
Onde: No canal oficial da banda no YouTube
“A ignorância é a irmã da maldade”
AT2 Vai ser uma noite de clássicos?
João Barone Vamos apresentar uma boa parcela do repertório que estávamos preparando para o show que a gente iria fazer em março, no Rio. Seriam duas noites no Circo Voador lançando a nossa nova turnê, que batizamos de “Paralamas Clássicos”.
Demos uma sacudida no nosso repertório para poder apresentar um show novo, com novo formato, repertório novo e, ao mesmo tempo, dar uma diferenciada dos shows que vínhamos fazendo desde a turnê do “Sinais do Sim”.
Agora, vamos poder dar uma pequena amostra desse novo repertório. Estamos prevendo fazer uma apresentação que não é show exatamente, já que não vai ter aquela coisa de iluminação, projeções… Vai ser um negócio bem diferenciado, com uma característica própria. Será mais especial esse momento.
De onde será transmitida?
A live será gravada ao vivo no Teatro Prudential, no Rio.
Já saiu música nova na quarentena? De repente, vai rolar alguma surpresa no sábado?
Estamos sem previsão de cantar uma música inédita, agora. Estamos precisando nos encontrar para voltarmos a compor. (Risos)
A gente não teve notícia do Herbert, de que ele passou esse período se dedicando às composições novas… Vamos ver o que acontece. Mas quem sabe teremos algumas surpresas na live? De repente, a gente leva um som mais inusitado.
Após cinco meses em quarentena, a maioria da turma da cultura segue sem trabalhar, sem renda… De que forma a banda tem ajudado esse segmento?
A gente está participando diretamente do “Não Fest”, que é uma forma de mobilizar todo mundo para ajudar as equipes técnicas, os produtores. Todo mundo está sofrendo sem fazer show. Emprestamos nosso nome, nossa causa.
Participei de um monte de lives que procuraram angariar fundos para as equipes técnicas pelo Brasil afora. Promovi eventos espalhados pelo Brasil, de Belém (PA) até o Rio Grande do Sul. É muito importante toda essa mobilização. Vamos tentar ajudar todos que estão precisando.
Tempos difíceis, assustadores. Uma realidade cantada por vocês desde 1986, com “Selvagem”. Mesmo depois de 30 anos, é um roteiro que segue atual?
Infelizmente, estamos vendo repetir um monte de história ruim na política recente no Brasil. Vivemos uma espécie de bolha, uma ilusão de que as coisas estavam indo bem quando, na verdade, era uma grande fachada. No fundo, a gente se alienou um pouco em não cobrar e em deixar de exigir que determinadas práticas da nossa política não continuassem acontecendo. E estamos aí, agora, vendo um cenário assustador de terra arrasada, destruição, de apostar numa política de grosso calibre.
Sempre tivemos uma percepção do brasileiro sendo um povo solidário e que tinha essa bondade acima de qualquer interesse. E o que estamos vendo hoje é uma espécie de reafirmação daquela ideia de “quanto pior, melhor”. Então, é realmente terrível.
Nossa geração, nos anos 1980, se deparou com a liberdade de expressão quando acabou a censura, a ditadura. Reencontrou a democracia. Vimos tanta coisa bacana acontecer: uma Constituição nova sendo promulgada, o povo podendo votar.
Mas, em contrapartida, a gente constatou que muita coisa deixou de ser feita, principalmente na educação. E é o que estamos colhendo hoje. A falta de investimento na educação deixa o povo ignorante. E a ignorância é a irmã da maldade. É o que a gente está vendo aí.
Temos que quebrar esse ciclo de alguma maneira. O Brasil não é o que a gente está vendo. Não é essa selvageria.
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