Um evento feito na quebrada e para os moradores da quebrada. Assim foi o Festival Red Bull Amaphiko, evento realizado no Centro Cultural Grajaú, localizado no extremo sul de São Paulo. Ao longo de dois dias, o Festival reuniu diversas atividades: oficinas, rodas de conversas e exibições de filmes, além de dança, poesia, música, entre outras expressões artísticas.
O festival, que acontece em várias partes do mundo, rolou durante os dias 15 e 16 de dezembro, e essa foi a primeira vez que as atividades se concentraram fora do Red Bull Station, localizado no centro de São Paulo. E o seu objetivo é exaltar aqueles personagens que procuram transformar suas realidades, seja nos Estados Unidos, África do Sul ou Brasil.
E foi isso que rolou durante a terceira edição do evento: uma celebração àqueles que buscam mudar a realidade dos espaços onde vivem, mais especificamente a do Grajaú, distrito que tem cerca de 390 mil habitantes distribuídos em uma área de 92 km².
Toda a curadoria do evento foi construída ao lado de cinco coletivos do distrito do extremo sul paulista: Periferia em Movimento, Nóis por Nóis, Casa Ecoativa, Imargem e Abebé. Eles também contaram com a ajuda do produtor independente Leandro Sequele.
No entanto, quem deu o pontapé inicial do evento foi o grupo baiano Capoeira Semente do Jogo de Angola. Houve também feira de alimentação saudável com produtos orgânicos, de empreendedores locais, além de debate-papos sobre alimentação natural e orgânica.
Um dos momentos mais emocionantes desse primeiro dia foi a exibição do documentário “O Olhar do Trabalho – A Outra Face do Lixo”, produzido pelo Núcleo Pele. O filme volta seu olhar para a Cooperativa de Produção Coleta, Triagem e Beneficiamento de Materiais Recicláveis da Granja Julieta Nossos Valores.
Por lá estão diferentes trabalhadores que, diante da câmera, compartilham sua relação com o trabalho e entre seus colegas de profissão. Mais cedo rolou um debate-papo com o skatista multicampeão Sandro Dias, o Mineirinho, e Douglas Fontes. Eles trocaram ideias com o público acerca do skate na quebrada, e também falaram sobre a inauguração da pista no Parque Linear Cantinho do Céu, que havia acontecido horas antes.
Mineirinho, em entrevista ao Tribuna Online, chegou a comentar a iniciativa. “O skate é muito voltado a doações, amizade, camaradagem, família. Acho que esse projeto (Red Bull Amaphiko) tem tudo muito a ver com um pouco de cada disso. Porque a gente acaba unindo as pessoas, mesmo que não as conheça, o skate acaba unindo as pessoas por um bem em comum, que nesse caso é a reforma da pista para que todo mundo possa usar da melhor forma”, destacou ele.
No segundo dia de evento, no dia 16 de dezembro, um domingo, o início da tarde foi com uma roda de samba formada por Gugs Samba, Edynho Oliveira, Carlos Café, entre outros nomes.
Na sequência, o público que estava presente do Centro Cultural Grajaú teve a oportunidade de participar de uma aula de dança com Flora Bitancourt (Movimentarte), Lucas Santos (Favela em Dança) e Rubens Oliveira (Gumboot). Todos eles utilizam diferentes estilos de danças em seus projetos são parceiros do Red Bull Amaphiko.
Flora, por exemplo, trabalha a dança com jovens com Síndrome de Down, com o Movimentarte desde 2010 e ingressou na Red Bull Amaphiko em 2013.
“Essa é uma história muito legal de contar porque quando entrei, eu achava que eu era uma professora de dança. Eu não tinha essa visão do que é empreendedorismo social”, recorda ela.
“Então, a Red Bull Amaphiko me mostrou que todos somos empreendedores. Foi isso que me trouxe: esse empoderamento de entender o que eu estava fazendo estava trazendo transformações no mundo”, complementou a professora de dança e empreendedora social.
Já o encerramento do festival ficou por conta da cantora e compositora Lei di Dai. Ela se apresentou na Jah!spora, festa que celebra igualdade, coletividade e diversidade com ritmos como dancehall, afrobeats, hip-hop e funk. Referência do dancehall brasileiro, Lei di Dai é parceira do Red Bull Amaphiko e está à frente do projeto Gueto pro Gueto.
Ela comentou contou sobre o seu projeto, criado em 2012 e que já realizou mais de 100 eventos nas quebradas de São Paulo.
“O Gueto pro Gueto é o que está rolando aqui (no Red Bull Amaphiko, no Grajaú, em São Paulo), mas numa escala menor. É a mesma coisa: a gente vai nas quebradas, leva o soundsystem, convida os artistas de lá para participar”, conta ela.
Para a artista, que tem feito barulho fora do Brasil, principalmente na Inglaterra, iniciativas como essas são importantes para valorizar o artistas da periferia. “Isso é legal e importante para as comunidades você valorizar o artista das quebradas”, explicou ela.