Ela toma seu tempo, fala pausadamente, ri, diverte-se. Gosta de jogar conversa fora. É um de seus prazeres hoje, aos 82 anos de idade. Também tem um fraco por viagens, livros, jazz, samba, pagode e botequim.
“Eu adoro um botequim. Também vou ao cinema, ao teatro. A minha vida inteira eu trabalhei muito e ainda cuidava dos meus filhos. Não foi fácil. Não me arrependo de nada, mas não foi fácil. Hoje eu tenho mais tempo para cuidar de mim. E adoro!”, diz Rosamaria Murtinho, em um bate-papo delicioso com o AT2.
Com mais de 6 décadas de carreira, quase cinquenta novelas e dezenas de peças de teatro, uma das maiores damas da dramaturgia acaba de viver uma rainha em “Deus Salve o Rei”. Sua Crisélia morreu e ela agora vai cuidar de si mesma e arrumar o seu armário “até o final de fevereiro”, decreta.
“Estar em um palco é uma das coisas da minha vida. Não é a única coisa da minha vida. Eu não tenho aquela loucura de só estar feliz no palco. Eu tenho outros objetos de prazer”, diz ela.
A esposa de Mauro Mendonça há 58 anos ainda falou sobre filhos, casamento, carreira e vaidade. “Não entendo essa coisa de condenar a vaidade. Ser vaidosa é bom”, defende.
ENTREVISTA
AT2 Estávamos com saudades de você nas novelas e uma rainha caiu na medida para você, não?
ROSAMARIA MURTINHO (Risos) Você vai ter que repetir a sua pergunta. Você sabe que antes eu tinha vergonha de falar sobre isso, mas hoje eu não tenho mais. Na minha idade, diminui muito a nossa capacidade de ouvir direito. Eu tenho um zumbido no ouvido, um ruído que incomoda muito, o tempo inteiro. E ele mistura as palavras. É para enlouquecer qualquer um, viu? Mas eu já resolvi que não vou enlouquecer. Então eu finjo que não é comigo.
AT2 Sem problemas. Eu disse que uma rainha é um papel na medida para você, uma diva dos palcos.
Você está sendo gentil, obrigada. Tudo começou como um desafio. Porque já me contaram, primeiro, que ela tinha Mal de Alzheimer. Claro que naquela época, não sabiam o que era isso. E eu nunca conversei com ninguém que tivesse Alzheimer. O meu primeiro desafio foi pesquisar sobre isso. Então o meu filho, Maurinho Mendonça Filho, me mandou ver o filme “Iris”, com a Judi Dench. E o Caio Blat me disse para ver o filme “Amor”. Uma amiga me indicou “Para Sempre Alice” e, como eu adoro filme argentino, também vi “A Mãe do Noivo”. Tudo isso foi para ver como se comporta uma pessoa que tem Mal de Alzheimer. O interessante na Crisélia é que ela tinha consciência da doença dela e não ficou nenhum pouco amargurada com a sua condição. Depois de toda essa pesquisa, eu fiquei muito encantada com essa rainha.
AT2 –Por que?
Porque é uma rainha do bem, uma rainha amada por seu povo. E ela ama o seu povo, quer fazer tudo pela melhoria das vidas dessas pessoas a quem ela governa.
Uma verdadeira nobre, não?
Exatamente. Ela tem nobreza de fato, não somente em seu título de rainha. Estamos vivendo em um mundo complicado. O século XXI não está fácil. A rainha é uma política. E ver essa mulher que tem consciência, ética, moral, que quer fazer o melhor para o seu povo, tornou ainda mais prazeroso viver essa rainha. Especialmente em um momento em que temos tantos exemplos de políticos que nos enchem de desgosto e revolta.
AT2 -Fica revoltada?
Eu sou Escorpião, né? A minha natureza é uma natureza de luta, de agressão. Mas, com a idade, eu fui tendo consciência. Fui abrandando muito essa minha natureza. Porque a idade não pode trazer só rugas, né? Tem que trazer sabedoria. (Risos) Eu fui aprendendo e, hoje em dia, eu te digo que sou uma gracinha. Eu sou ótima, eu não reclamo, eu não brigo. (Risos) Com a idade a gente entende que tudo o que a gente joga para o universo, recebe de volta. Se jogamos amor, compreensão e tolerância, é isso que recebemos. Se você joga maldadade, recebe maldade. E eu não quero isso. Na minha idade, não posso receber maldade! (Gargalhadas)
AT2-É muito bem-humorada!
Sou! E o Mauro também. O Maurão (Mauro Mendonça Filho) nunca acordou naquele estilo “não fale comigo nos próximos 15 minutos”. Ele nunca me fez isso. Em nossa vida inteira, e temos muitos anos juntos, ele sempre me ofereceu sorriso, carinho, pela manhã. Fizemos uma peça juntos, nos apaixonamos nessa peça, chamada Rua São Luís, 27 – 8º Andar, do Abílio Pereira de Almeida. E, nessa peça, o personagem dele falava sobre não perder o bom-humor na vida. Nunca nos esquecemos disso. Veja você que a gente se doa, mas também aprende muito com os personagens. É uma troca.
AT2-Muitas vezes não deve ser uma boa levar o personagem para casa, não?
Sim, em muitos casos. Mas eu sempre me esforcei muito para não levar para casa. Porque eu tinha três filhos homens, três garotos, que dependiam de mim. Eu não tinha tempo para nada mais. Isso acabou que foi a minha salvação. Me fazia cortar o personagem assim que eu saído do estúdio, ou do palco.
AT2-Por que?
Porque a nossa carreira é complicada. Um personagem pode te levar ao sucesso ou ao fracasso. E os dois são igualmente terríveis. É preciso ter uma consciência, estar alerta, permanentemente, para não se deixar levar pelo sucesso ou pelo fracasso. Ou pelas vivências de um personagem. É preciso estar consciente de que você está representando um papel, baseado naquilo que outra pessoa escreveu. Aquela não é a minha verdade. Mas eu preciso compreender o que foi escrito e acreditar naquilo momentaneamente. O meu trabalho, como atriz, é 50% do processo. O restante vem do autor, da direção.
AT2-A novela traz avanços tecnológico. É uma maravilha ser surpreendida com novidades?
É muito bom. E nós fizemos também um workshop, durante dois meses, com o Eduardo Milewicz, que foi maravilhoso. Eu e o Marco Nanini fizemos tudo, com todo o restante do elenco, como se estivéssemos começando as nossas carreiras agora. O que é muito bom. Porque você nunca sabe tudo, está sempre aprendendo. Vi o filme “The Post”, com a Meryl Streep e com o Tom Hanks e eles dão aula de interpretação. Estou sempre aprendendo. Eu tenho um livro, ele é fininho, do Michael Caine, que chama “Acting in Film” e, ele diz copie tudo dos outros. Pode copiar o Marlon Brando, quem você quiser. Porque você não vai fazer como ele e vai pegar o que ele tem de bom. Temos que ver o que é bom e o que ruim, saber diferenciar e pegar para a nossa carreira. É por isso que eu vejo tudo, filmes, peças, novelas, tudo. Sou muito curiosa e acho que isso é muito bom para alguém da minha idade. Mas sempre fui assim.
AT2-Curiosa?
Sim, sempre fui. Desde pequena. Muito curiosa. Eu lembro quando eu era nova, isso era em uma época em que as pessoas se visitavam. Hoje elas se falam por mensagens. Mas, enfim, eu ia visitar amigas e parentes com a minha mãe e sumia. Ela me encontrava andando pelas casas, mexendo nas gavetas das pessoas. E me dizia, minha filha, você é uma menina educada, não pode fazer isso. Mas era pura curiosidade. Eu sempre fui curiosa. (Risos)
AT2-Manda mensagens? Tem whatsapp?
Tenho, mas de um mês para cá eu resolvi tirar o telefone da minha mão. Porque a gente fica escrava disso, é uma inversão de valores. Não dá para ficar mandando mensagens o dia inteiro. Só acho bom, porque me rendeu três boas leituras, que foram indicadas por mensagens. Uma delas foi a biografia do Winston Churchil que é uma delícia. E eu descobri semelhanças entre eu e ele. Ele era um preguiçoso. Dizia que se podia ficar sentado, não ficava em pé. Tomava café na cama, despachava assuntos de Estado na cama. Eu também sou preguiçosa. Acho uma delícia acordar tarde e ficar bastante tempo na cama.
AT2-E dorme tarde?
Sempre. Sempre dormi depois de meia-noite, mas o médico agora me mandou dormir cedo e eu tenho obedecido. Eu e Bibi Ferreira. Ficávamos conversando tarde da noite, era uma delícia. A gente ficou muito amiga porque ela me dirigiu em duas peças. E é uma mulher fantástica, né? Temos muito em comum, conversamos durante horas. Vi a peça que fala da vida dela e é um primor. Eu a admiro muito. Cantar, todo mundo pode. Até eu tive a audácia de cantar em um musical. Mas ter um timbre bonito é um dom de Deus. E ela tem.
AT2-Conta sobre os pontos em comum com Bibi.
Eu também adoro jazz. Eu estudei nos Estados Unidos e, nessa época, eu me apaixonei pelo jazz. Adoro. Eu não gosto de funk, de axé, dessas coisas chatíssimas que tocam hoje. Música para mim é jazz, samba de raiz e pagode. É o que eu gosto de ouvir. Como Bibi. Ela também adora jazz.
AT2-Vi o público pedindo a volta da Crisélia. O que acha disso?
Uma maravilha. E, você sabe que eu tenho um fã-clube maravilhoso. São quatro meninas de quatro Estados diferentes. Uma é da Bahia, outra do Rio, uma do Paraná e a quarta de Belo Horizonte. E elas me mandam tudo o que está sendo dito sobre mim. E eu vi isso, mesmo. Pessoas pedindo a volta da personagem. Quem sabe, né? Você sabe que a Globo adora um fantasminha, né? Quem sabe eu posso voltar como um fantasminha. Adoraria. Mas não quero influenciar o autor, não sou de telefonar e ficar cobrando, pedindo espaço. Não faço isso. Mas seria ótimo voltar.
AT2-Caiu no gosto do público. Outras colegas, como a Bruna Marquezine, estão enfrentando críticas. O que acha?
Eu não concordo com as críticas que estão sendo feitas sobre o trabalho da Bruna. Ela é a Bruna Marquezine, a namorada no Neymar. E tem tanta gente invejosa nesse mundo. No nosso país, todo mundo é crítico de futebol e de novela. Tudo isso que estão falando sobre ela é só inveja. Ela está completamente diferente de todas as personagens que já viveu, tem uma amargura no olhar e na postura da personagem, que é realmente bonito de ver. Acho que ela está perfeita no papel. Honestamente.
AT2-O mundo virtual não é fácil e, nele, há muitos críticos…
A internet é a praia dos covardes. Todo mundo fala o que bem entende, todo mundo diz o que quer como se fose uma verdade absoluta. E existe muita agressão, muita vingança, contra pessoas que pensam diferente. Isso é chato, é careta. E não é democrático. Eu não tenho nada contra palavrão, mas eu não uso muitos palavrões na minha vida. E, na internet, eu vejo essas palavras sendo usadas de forma corriqueira, há muita agressão e muita falta de educação. Isso só dificulta a aproximação, o entendimento, com o outro. Precisamos tratar as pessoas com mais amor e carinho.
AT2-Teve uma pneumonia, foi internada, e logo voltou ao trabalho. Nada te tira do estúdio?
(Risos) Eu já trabalhei doente muitas vezes na minha carreira. Tive que ficar quatro dias no hospital. Quando nós fomos no Faustão, e depois vamos falar sobre isso, eu já estava com febre. Eu telefonei para o meu médico e ele disse que não ia me consultar pelo telefone, que eu fosse ao hospital para ele me avaliar. Quando cheguei lá, era pneumonia e nem fui para casa. Fiquei quatro dias internada e ele me pediu para passar uma semana em casa. Mas eu já tinha gravação marcada e fui. Gravei de segunda a sábado. Mas eu consegui gravar. Eu tenho uma certa resistência. Eu tenho uma boa alimentação, tomo vitaminas, eu me cuido. E consegui trabalhar. E o meu diretor, os meus colegas, foram gentilíssimos comigo. Eu terminava uma cena e rapidamente tinha uma cadeira para eu me sentar e alguém trazia um copo de água. Mas você imagina, eu já tenho olheira… Dei trabalho para a maquiadora, porque a minha olheira já estava na boca. (Risos) E você não sabe da pior!
AT2-O que?
Eu já tinha tido uma gripe, uma fraqueza, durante a apresentação da minha peça “Dorotéia”, em Porto Alegre. Fui tratada com antibióticos e tudo. Depois tive a pneumonia. E então, uma virose. Quando começou o ano, aqui no Rio de Janeiro a gente comemora o Dia de São Sebastião, que é o protetor da cidade. E os freis, os capuchinhos, dão uma bêncão. Eu peguei o Mauro na hora. Falei: “Mauro, vamos lá pegar essa bênção, porque não é possível”. E aproveitei para agradecer. Porque tive tudo isso e não morri. (Risos)
AT2-É disciplinada? Segue os conselhos dos médicos?
Sou, sou muito disciplinada. Eu morro de medo de morrer. Eu acho uma chatice não estar aqui no ano 3000. Morrer é uma chatice. Então acaba que a velhice não me chateia tanto, porque significa que eu não morri jovem. E estou trabalhado até agora, com mais de oitenta anos. É uma graça de Deus. Mas não é fácil, viu. Ser idosa e famosa não é fácil. Acho meio ridículo falar “famosa”, mas é o que todo mundo diz, então coloco assim. Mas é complicado envelhecer, ainda mais sendo vista. E, para todo mundo, seria muito melhor ficar jovem, não?
AT2-Ser famoso é difícil?
É preciso tomar cuidado com quem chega perto de você. E eu sou uma pessoa que não tem o pé atrás com ninguém, então é complicado. Não é da minha natureza desconfiar do outro. Eu fui criada no lugar mais maravilhoso do mundo, em Ipanema, na década de 50. Eu tive uma infância e uma adolescência muito feliz. Vivi dois anos nos Estados Unidos. E, ali, em Ipanema, eu namorava, ia para a praia. Namorava escondido, né? E era muito gostoso, porque tudo que é escondido é muito melhor. Parecia uma rebeldia, estava indo contra o status quo. (Risos)
AT2-Vamos falar do prêmio Mário Lago que você e Mauro receberam.
Isso foi algo que me comoveu muito. E foi uma grande surpresa. Mulher, ainda mais mulher que é mãe, não gosta de surpresa.
AT2-Como assim?
Quando a gente é mãe, o que nos surpreende assusta. O telefone toca e é porque o filho está passando mal. A gente sempre pensa no pior. (Risos) Mas eles tinham que ter me dito, que nós seríamos premiados. Eu fiquei lá, com aquela cara de pateta, nem soube o que dizer. E eu sou boa para falar. (Risos) Mas foi um momento muito maravilhoso, lindo. Nos respeitaram e premiaram.
AT2-Você e o seu parceiro de vida. Mais de cinquenta anos juntos…
Mais de cinquenta anos de casada, com oito anos de intervalo. Nós demos um tempo no casamento, nos anos 80. Modernos, né? Sempre me perguntam como conseguimos isso. Acho que nós fomos corajosos. Não tenho uma fórmula para dar. Só consigo pensar que fomos muito corajosos. Nos conhecemos em uma peça e nos apaixonamos.
Ele diz que foi amor à primeira vista.
Ele diz isso, mas não é bem assim não. Porque o Mauro era danado de namorador. E ele era bonito demais! Era muito bonitão. Todo mundo queria comer o Mauro. Eu que fui vendo uma forma, de dar um jeito nele.
AT2-E como fez isso?
Aos poucos, sempre devagar, fui aos poucos. No Natal daquele ano nós ficamos noivos. Imagina, ele botou a aliança na árvore de Natal e eu abri, vi a aliança de brilhante – um brilhante mínimo – e falei “estou noiva”! Meu pai achou um absurdo, disse que eu estava querendo que o Mauro me pedisse em casamento. Mas estava tudo combinado. E aí o Mauro fez aquele negócio todo, como manda o figurino, coisa de gente antiga, pediu a minha mão. E estamos juntos até hoje.
AT2-Tiveram três filhos e os três são artistas.
Uma vez a Bibi, quando ela tinha um programa de entrevistas, me perguntou o que eu queria para os meus filhos. E eu respondi o que te digo hoje: quero que eles sejam felizes. Eu e Mauro jamais influenciamos nossos filhos, jamais incentivamos que seguissem nossas carreiras. Mas aconteceu. É o que eles escolheram. E em tantas famílias acontece isso, né? Tem famílias de dentistas, médicos, advogados. A nossa é uma dinastia de artistas.
AT2-O Maurinho é diretor da novela das nove e é muito elogiado pelo elenco.
E eu hoje sou a mãe do Mauro Mendonça Filho, né? Nem sou mais a Rosamaria Murtinho, sou a mãe do Maurinho. Mas eu fico muito inchada. Os meus filhos são maravilhosos. O Rodrigo é ator, muito competente. E o João Paulo me deu uma alegria agora que você não acredita. Ele veio me contar que estava voltando para a faculdade. E eu “what?”. E ele fez regência, entrou na faculdade mais velho, para ser maestro. Quero dizer, para fazer ainda melhor o trabalho dele. Olha só que orgulho!
AT2-E ser a mulher nessa casa masculina, como foi?
Foi uma barra! Eu não vou te dizer que era a rainha da casa, porque eu não era. Tinha muita testosterona dentro de casa. Mas eu sou Escorpião e nunca fui fácil. Se fosse, eles teriam me engolido. Eu mantinha tudo sob minha supervisão, não dava trégua. (Risos) Mas sou uma escorpiana analisada. E, hoje, como já te disse, uma gracinha. (Risos)
AT2-Era geniosa?
O que? Uma vez, quando o Daniel Filho era o bam-bam-bam da televisão, me deixou tão irritada em um ensaio… Olha, eu peguei o meu texto, joguei no chão, dei uma de doida. Todo mundo ficou me olhando. Era na época do Roque Santeiro, em plena censura. Hoje eu não faço mais isso. (Risos)
AT2-Sua rainha, Crisélia, tem preferência por um dos netos. Isso existe?
Não existe. Nem preferência por neto e nem por filho. Isso não existe. O amor é o mesmo. Cada um é tão diferente, tem seus defeitos, suas qualidades, suas necessidades. E a gente tenta ajudar como pode. O amor pelos netos e pelos filhos é o mesmo.
AT2-Ser avó é diferente de ser mãe?
É diferente. Ser mãe é muito melhor. Quando eu era mocinha, eu não era daquelas mulheres que ficavam encantadas com bebê, que pegava todos no colo. Nunca fui assim. Mas eu fiquei tão besta depois que eu fui mãe. Meu Deus! Ser mãe é uma maravilha. Você é mãe?
AT2-Sou sim.
Então conversa muito com ele. Dá muito papo para ele, pergunta sobre tudo, explica o que ele quer entender. Mesmo que você esteja cansada. Conversa muito com ele, porque é assim que ele vai se desenvolver e confiar. E lembra que tudo o que a gente faz, vem do coração. A gente educa filho, dá amor e compreensão e está sempre querendo acertar. E acho que acertamos 90% das vezes. O restante são aquelas besteiras que toda mãe faz. A gente não sabe de tudo. E isso é muito bom. Se perdoe.
AT2-Bons conselhos.
Mas voltando à pergunta. Ser mãe envolve responsabilidade a partir do momento que o filho nasce. E essa responsabilidade, ao mesmo tempo que é uma barra, é uma maravilha. Eu me lembro que com esses meus seios tão pequenos, que eu odiava quando era nova porque queria ter um corpo mais sedutor, eu amamentei os meus filhos. Quando eu era mocinha eu tinha um ódio mortal dos meus seios pequenos. Mas, quando eu fui mãe, esses seios tinham tanto leite. E eu amamentei os meus filhos. E isso te transforma totalmente como mulher. Te faz sentir poderosa, responsável, como se nada pudesse te derrubar.
AT2-Falou dos seios pequenos. Ainda usa biquínis e os comentários são de que está mandando bem…
(Risos) Pois é. Hoje esses seios pequenos são o meu trunfo. Porque eu não fiquei matrona. Mas eu também não boto biquíni pequeno, que apareça a bunda. Porque aí vai ficar ruim né? (Risos) Eu não me exibo muito. Vou te contar uma coisa que você vai cair dura para trás.
AT2-Conta.
Eu prefiro os ensaios do que fazer o espetáculo. Porque no espetáculo, no palco, você está enfrentando uma plateia, está se exibindo. E eu não sou de me exibir. Eu gosto do ensaio, de quando estou procurando a alma do personagem. Quando eu tenho que entender o que o autor escreveu, encontrar na medida do que o personagem sente. É isso que eu adoro na minha profissão.
AT2-Então não são os holofotes?
Jamais! Eu tive gente muita correndo atrás de mim. Teve época em que eu tinha que sair com motorista, segurança. Como hoje acontece com os galãs e as mocinhas. Isso não significa nada. A fama. É muito efêmera. Os meus filhos entraram na carreira preparados para tudo: para o fracasso e para o sucesso. Entraram sabendo que ser famoso não significa nada. É preciso ter isso em mente. Não se inflar com o sucesso e nem se abater com o fracasso. E é preciso aprender sempre.
AT2-São mais de 60 anos de carreira. Qual é a importância de estar no palco, ou no estúdio hoje?
Hoje eu estou mais light, sabia. Eu cheguei à conclusão de que estar em um palco é uma das coisas da minha vida. Não é a única coisa da minha vida. Eu não tenho aquela loucura de só estar feliz no palco. Eu tenho outros objetos de prazer na minha vida. Antes eu tinha vergonha de dizer isso, mas agora eu falo. Eu trabalhei sempre, durante muitos anos, e sempre fui extremamente disciplinada, que é algo que eu herdei dos meus tempos de balé. Sempre trabalhei até doente. Mas hoje, quando acaba o trabalho, eu fico feliz. Vou cuidar de outras coisas.
AT2-De que? O que faz quando não está trabalhando?
Agora, nesse momento, eu estou dedicada a arrumar o meu closet. Eu emendei a peça (“Dorotéia”) com a novela e tem dois anos que eu não consigo encontrar as minhas coisas dentro do meu armário. Resolvi que até o final de fevereiro, meu armário vai estar arrumado. E, além disso, eu vou ler, viajar, encontrar com as minhas amigas, jogar conversa fora. E também ir em botequim. Eu adoro um botequim. Também vou ao cinema, ao teatro. A minha vida inteira eu trabalhei muito e ainda cuidava dos meus filhos. Não foi fácil. Não me arrependo de nada, mas não foi fácil. Hoje eu tenho mais tempo para cuidar de mim. E adoro!
AT2-E é vaidosa?
Claro! Bota uma foto minha nova e cheia de Photoshop, viu? Se tiver que colocar uma foto minha, prefiro que seja uma foto bonita. Não entendo essa coisa de condenar a vaidade. Ser vaidosa é bom. O que não pode é colocar a vaidade em primeiro lugar. Porque aí vem a arrogância, que é uma coisa horrível. Eu me cuido, aplico botox, faço o que a medicina e o meu dinheiro permitem fazer para estar sempre bem. Não coloco botox na testa, porque a testa de uma atriz é muito importante. Mas coloco no resto do rosto. E também adoro um creme. Sou daquelas que fica com a cara toda lambuzada, branca, dentro de casa. Adoro cuidar de mim. Não há problema em ter vaidade. Outras coisas são problemas.
AT2-O que?
Não ter ética, não saber perdoar. Isso é realmente ruim. A coisa mais honrada na vida é saber perdoar alguém. E perdoar a si mesmo.
AT2-Evoluir, né?
Exatamente. A gente vai vivendo e mudando a forma de pensar, sempre. Que bom, porque temos que ser contemporâneos. Mudamos, aprendemos. Outro dia me perguntaram se eu me sentia realizada. No dia em que eu me sentir assim, eu faço o que? Eu não! Eu ainda tenho muito o que aprender, o que fazer, o que ser. Tem muita coisa por aí ainda. Ainda quero, se der tempo – e eu digo isso por causa da minha idade – fazer um Tchekhov, um Shakespeare e um monólogo, que deve ser uma solidão desgraçada. Mas tudo bem, eu me dou bem comigo mesma. E quando preciso, sozinha mesmo, pego um livro e começo a viajar
