Você deixa de seguir suas vontades para ter aceitação? Ou não reage de forma contrária para evitar conflitos? Como saber se tais condutas têm a ver com o fato de viver para agradar aos outros?
“Não tem uma regra. Mas, basicamente, é deixar de fazer e bancar o que você acredita para viver em função de alguém”, define a psiquiatra e especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) Danielle Admoni.
Mas a especialista facilita a identificação do perfil ao apresentar algumas pistas: “A pessoa percebe pelo sofrimento que esse comportamento promove. E nem sempre ela consegue fazer alguma coisa em relação a isso, o que pode levar a quadros depressivos, alterações diversas, já que há alguma coisa incomodando e a pessoa não sabe como lidar”, frisa.
De acordo com a psiquiatra, esse comportamento pode acompanhar da infância até a fase adulta ou simplesmente aparecer. “Muitas vezes, não tem a ver só com personalidade, mas com uma situação ou momento em que ela se encontra. Agora, existem, sim, pessoas que são mais dependentes, imaturas, que precisam do outro para funcionar”.
Pelo visto, o fato de tentar agradar ao outro vai além de uma questão da manutenção de uma boa convivência. “Acontece em todas as áreas da vida. Vemos bons profissionais que, na vida pessoal, acabam tendo um comportamento imaturo”, alerta.
E qual o caminho para sair desse labirinto comportamental? “É importantíssimo que a pessoa banque o que ela acredita. Há coisas que devemos bater o pé, de que não podemos abrir mão.
Então, busque o equilíbrio. Quando isso não acontece, é importante repensar esse relacionamento”, pondera Danielle.
A fonoaudióloga e doutora em Ciências e Expressividade pela USP Cristiane Romano vai além: “Valores e princípios são inegociáveis na relação de convivência”.
SAIBA MAIS
Causas
- Para o psicólogo e escritor Alexander Bez, a necessidade de agradar aos outros pode vir de algumas representações psicológicas: “Transtorno de carência (para se aproximar do outro), transtorno de dependência (a pessoa se mantém próxima para chamar a atenção) e o interesse por algum objetivo já delimitado na sua mente. Outra questão é o sentimento de impotência”, explica ao AT2.
Atenção aos sinais
- A fonoaudióloga e doutora em Ciências e Expressividade pela USP Cristiane Romano afirma que, muitas vezes, a pessoa não percebe, no entanto, o comportamento de tentar agradar ao outro ou mesmo não saber dizer “não” deixa pistas. “Ela sente que está sempre perdendo ou sendo invadida, mas não entende o motivo, pois o medo de ser rejeitada é maior”, diz Bez.

“Desde os 11 anos, sofria bullying, devido à forma de me vestir. Para trabalhar, tive que esquecer quem era Edy. Me proibiam de usar até acessórios! Ao longo da vida, fui adaptando meu estilo. Mas ninguém pode anular meu código de comunicação. Não faço mais para agradar à plateia”, conta a estilista Edy Lopes, 44.
Necessidade de aceitação
- A necessidade de serem aceitas é um ponto delicado e determinante na forma de agir de algumas pessoas. Segundo a doutora em Ciências e Expressividade pela USP, no agradar ao outro existe um senso de comunidade.
- “Sempre há uma necessidade do ser humano de ser aceito e se pertencer. E, ao dizer ‘não’, ele automaticamente está negando alguma coisa, e esse negativismo sobre algo requer um esforço muito grande. O psicanalista Jacques Lacan destaca a importância de falar o ‘não’ para impor limites e ter sua individualidade. E isso difere o que não somos do que somos”, ressalta.
Autoconhecimento
- No jogo de tentar sobreviver agradando ao outro, o autoconhecimento é uma das saídas que levam à liberdade. “Mas isso desde que a pessoa tenha condições psicológicas e emocionais e essa dependência não atrapalhe sua vida. Caso contrário, o ideal é buscar ajuda de especialistas”, alerta Bez.

“Na infância, quando eu não era ouvido, fazia para agradar. Mas teve uma fase da minha vida que tentei mudar: manifestando minha opinião, defendendo minha linha de raciocínio. Acabou que passei a ser tachado de antipático, grosso. Talvez pela forma de falar. Hoje, me calo para ser poupado de conflitos. Encontrei o meio-termo”, salienta o auxiliar administrativo Cássio Galdino, 27.
Barreira protetora
- Impor limites aos outros para se proteger é uma conduta interessante. No entanto, para o psicólogo e escritor Alexandre Bez, é um passo que deve ser dado com sabedoria e respeito.
- E vai além. “Entender seus limites é primordial para que exista boa convivência de ambas as partes, sem dependência emocional”, aconselha.
- A psiquiatra e especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria Danielle Admoni ressalta: “É importante ser fiel aos seus princípios. O ideal é encontrar um equilíbrio entre o que dá para abrir mão e o que não dá. Isso inclui princípios e valores, enfim, aspectos nos quais a pessoa realmente acredita. Não é fácil chegar a esse ponto, mas não dá para abrir mão de tudo”.
Fonte: Especialistas consultados pelo AT2.

