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De Feu Rosa para o mundo: conheça as origens de Lincoln, do Fla e da seleção sub-17

Falta grama no campo de futebol que fica próximo ao ponto final do bairro Feu Rosa, na Serra. Mas foi nele que Lincoln, atacante do time sub-20 do ...

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Falta grama no campo de futebol que fica próximo ao ponto final do bairro Feu Rosa, na Serra. Mas foi nele que Lincoln, atacante do time sub-20 do Flamengo e da seleção brasileira sub-17, deu seus primeiros passos.

Artilheiro do Brasil na Copa do Mundo sub-17 com três gols, Lincoln é o cara da seleção no torneio. Recentemente, foi incluído na lista dos 60 melhores do mundo até 17 anos, pelo jornal britânico The Guardian.

“Busco me movimentar bastante, sempre me posicionando para receber as bolas para fazer o gol”, afirmou o jogador após a vitória sobre Níger por 2 a 0, na partida que encerrou a fase de grupos. Quarta-feira (18), o Brasil vai enfrentar Honduras nas oitavas de final.

Lincoln tem contrato com o Flamengo até janeiro de 2020, multa rescisória de R$ 100 milhões e premiação por metas.

Mas, essa história que começou em 2005 na escolinha de futebol do Dj Jerê, em Feu Rosa, não entrava na cabeça do pai do garoto, Josimar Dias.

Lincoln em atuação pelo Flamengo. Fotos: Staff Images / Flamengo

“Perguntei a ele umas 10 vezes para ver se falava não, mas ele só respondia sim. Bom, então pensei que se era o que ele queria, era melhor ir mesmo”, lembra o pai do atacante.

Em 2011, Lincoln disputou um amistoso contra o Fluminense, no Rio de Janeiro, por uma equipe curiosamente chamada Flamenguinho, da Serra.

“Perguntaram se ele poderia voltar para fazer um teste. A pessoa me ligou, eu aceitei e já deixaram a data marcada”.

Josimar Dias, pai do atacante Lincoln. Foto: Fábio Vicentini / AT

Desde então, o garoto voo com a camisa rubro-negra. Foi convocado para a seleção sub-15 com apenas 13 anos. “Ele sempre ficava ansioso por isso”, revelou.

Atenção com as crianças

Jeremias Américo de Oliveira tem 54 anos e desde 2000 tem uma escolinha de futebol em Feu Rosa, na Serra. Ele garante que criou o projeto para afastar os jovens da violência, que era grande na época.

“Tive a ideia porque assim muitos meninos estariam ocupados com o esporte”, afirmou.

Jerê e as crianças no campo. Foto: Fábio Vicentini / AT

Infelizmente, nesse aspecto, nada mudou por lá. No dia 2 deste mês, a reportagem de A Tribuna publicou um ranking da Grande Vitória com os locais de maior índice de homicídios. Feu Rosa é o vice-líder. “Fui um dos primeiros moradores do bairro Feu Rosa. Na época, era o bairro mais violento da Serra. Eu passava na praça central e via vários meninos de 12 anos mortos e suas mães chorando”, recorda.

Mesmo assim, o Dj Jerê, como é conhecido, gosta de lapidar talentos. E foi assim com Lincoln. “Lincoln chegou com 4 anos de idade, já com chuteira. O primeiro contato foi através do primo dele, o Manoel, que treinava com a gente. Ele ficava o tempo todo com o dedo na boca (risos) e a mãe dele falava para ele não fazer isso”, contou o seu Jerê.

Visivelmente emocionado antes da entrevista, Jerê fez um discurso às crianças que estavam no campo para explicar o motivo da reportagem. E, como um bom dj, ofereceu uma música para o Lincoln.

Lincoln corre para comemorar seu terceiro gol na Copa do Mundo sub-17, na Índia. Foto: Site Oficial da Fifa

“A música ‘Na fé de Jó’, do Ministério Éfeso – grupo gospel que toca hip-hop”.

Jerê é uma referência para os amigos dos toca-discos.

“Sou DJ há muito tempo. Meu primeiro baile eu devia ter uns 13 anos, hoje estou com 54. Eu aprendi sozinho e depois ensinei um monte de gente. Hoje vou aos encontros e me chamam de pai (risos). Com meu trabalho de DJ que consegui levar a escolinha para frente”.

Jerê lembra que já sofreu muito com as críticas sobre sua escolinha.

“Vejo a oportunidade que Deus está dando para muitos que falaram que a escolinha do Jerê não tinha futuro. As pessoas falavam para os meninos não jogarem aqui”, contou.

Já passou pela cabeça do seu Jerê encerrar o projeto. E uma situação curiosa o fez continuar.

“Um dia eu decidi acabar com a escolinha. Mas uma pessoa que estava perto do campo usando drogas falou para não fazer isso, senão os meninos iria acabar como ele”, afirmou.

“Lincoln sempre foi o melhor, o nosso camisa 10”

Amigo de infância do garoto Lincoln, João Paulo Maforte, 17 anos, jogou com o jovem craque do Flamengo e da seleção brasileira sub-17 na escolinha do Jerê, em Feu Rosa, na Serra. E desde o início, sabia o que estaria por vir.

“Entre nós ele era o mais diferenciado dentro de campo. Ele sempre foi o melhor, era o nosso camisa 10 em campo – apesar de usar a 9”.

Atualmente, João Paulo estuda no segundo ano do ensino médio e faz um curso de auxiliar de escritório. Esporte mesmo, só no futuro.

“Estou esperando terminar o ensino médio para fazer uma faculdade de Educação Física. Quero ajudar o Jerê na escolinha, foi o cara que me ensinou futebol. Ninguém gosta de receber crianças de 4 ou 5 anos em escolinhas, Jerê é diferente. Sempre ajudou as crianças do bairro”, disse.​

Reportagem de Acácio Rodrigues

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