Movidos pela paixão, os torcedores de futebol costumam fazer várias “loucuras” para seguir o time de coração. Até mesmo viajar por seis horas para o interior do Estado, por uma partida de futebol. E tudo isso sem enxergar um lance sequer.

No último sábado (20), ele saiu pela primeira vez da Grande Vitória para acompanhar a equipe. Foi a Venda Nova do Imigrante, a 113 km da capital, onde a Desportiva perdeu para o Rio Branco/VN por 2 a 1 pelo Capixabão.
“Desde 2011 eu acompanho a Desportiva. Quase sempre eu vou aos estádios. Quando não dá, ouço pelo rádio. Sempre venho com a minha prima”, contou.
Ainda que falte a visão, por conta de um descolamento da retina — ele nasceu prematuro — Pedro Henrique gosta da arquibancada. Quando a Desportiva joga em casa, ele sai de Goiabeiras, em Vitória, a tempo de chegar ao estádio com pelo menos meia hora de antecedência.
Em dia de jogo, suas companhias mais próximas são a prima, Marcela Ferreira, e o celular em que ele sintoniza a rádio para não perder nenhum lance.
“Não sou de contar (quantos jogos acompanhou), foram mais de 50. Lembro que já fui em final, Desportiva contra o Rio Branco, em 2012 (decisão da Copa Espírito Santo, vencida pelo time grená), se não me engano”, recordou.
Na tarde desta segunda-feira (22), Pedro Henrique foi ao treino do time no Araripe, em encontro promovido pela reportagem de A Tribuna. Ele conheceu os jogadores e a comissão técnica, ganhou camisa e recebeu convite para entrar em campo no próximo sábado, antes do jogo contra o Tupy.
“Ele tem enorme paixão pelo clube e mostra que não há dificuldade que não possa ser superada”, disse o técnico Rafael Soriano.
Camisa 10 grená, Edinho ficou emocionado com a história do garoto: “É gratificante receber uma visita ilustre como a dele”.
Nova viagem
A relação de amor de Pedro Henrique Carvalho com a Desportiva está diretamente ligada à prima do jovem, a estudante Marcela Ferreira, de 20 anos. Foi ela quem levou o torcedor ao estádio Engenheiro Araripe pela primeira vez, em 2011.
“Essa paixão pela Desportiva começou com o meu pai, que também é torcedor. Pedi a ele para me trazer no jogo e foi amor à primeira partida. Pelo Pedro ser um primo próximo, eu o chamava”, recordou a jovem.
“Nós viemos ao jogo e ele gostou. Perguntei se ele torcia para algum outro time, ele disse que não, que era a Desportiva”, completou.
Marcela conta que no estádio não encontra dificuldades com o primo, muito pelo acolhimento que a torcida grená tem com Pedro Henrique, como no último sábado em Venda Nova do Imigrante.
No encontro com o técnico Rafael Soriano, Pedro disse que agora deseja viajar para torcer pela Desportiva em outra ocasião. “Desta vez vamos é para final”, avisou.
“Fez uma cobrança legal (risos). Queremos dar essa viagem de presente a ele”, comentou Soriano.
Medo vira incentivo
“Quando ele foi (ao estádio) nas primeiras vezes, eu tinha medo de ter algum ‘vuco-vuco’ e acontecer algo”. O temor, claro, só poderia ter vindo de um coração de mãe.
Eliamara Carvalho, de 52 anos, se preocupava com as idas de Pedro Henrique ao estádio. Hoje, o receio deu lugar ao incentivo.
“Faz muito bem ele frequentar os estádios, é uma interação com outras pessoas. E estar no meio dessa ‘muvuca’, acredito que desperta isso”, comentou a cabeleireira, que hoje vive uma preocupação “natural”.
“A gente sabe que para quem enxerga, ouve, fala e corre livremente, é preocupante. Para uma pessoa que é deficiente, logicamente é mais. Vai que acontece alguma coisa?! Mas eu confio que sempre tudo vai dar certo. De tanto rezar ele sempre chega em casa muito bem (risos)”, se diverte.
O futebol está presente na família Carvalho há tempos, e com interferência do maior rival da Desportiva, o Rio Branco.
“Meu padrinho jogou em times fora do Estado, jogou aqui no Rio Branco também, o Arildo Ratão. Mas sou Desportiva”, frisa o jovem, que tem uma nova referência.
“Meu primo Victor está na Ponte Preta, jogando pelo sub-17”.
Nova viagem