A frustração da Copa do Mundo de 1990, que aconteceu na Itália, ainda incomoda o torcedor brasileiro. Cair nas oitavas de final para a Argentina, derrotado por 1 a 0 com gol de Cannigia, não era o esperado após a quebra do tabu de 39 anos sem ganhar a Copa América, um ano antes.
E quem carrega esse peso há 28 anos atende pelo nome de Sebastião Lazaroni.
Hoje, com 67 anos, o ex-técnico da Seleção Brasileira ficou marcado por aquela Copa. Mas, no currículo, times como Flamengo, Vasco, Grêmio, Botafogo e Fiorentina não deixam a história dele ser apagada.
Em entrevista exclusiva ao jornal A Tribuna, Lazaroni relembra seus tempos à frente da Seleção Brasileira e dá conselho para o time do técnico Tite na Rússia:
“O primeiro jogo vai ser a chave para o título. É muito duro para o Brasil”, alertou.
A TRIBUNA – Costa Rica, Sérvia e Suíça. O que acha do grupo do Brasil no Mundial da Rússia?
LAZARONI – É um grupo muito difícil. São três seleções com características diferentes, mas que se classificaram com méritos. A Suíça teve que ir para a repescagem, mas soube se superar. É uma seleção que defende muito, tem essa proposta de saber se defender bem e explorar uma ou outra ação. A Sérvia tem qualidade, capacidade física e corporal, técnica boa, é um time alto. A Costa Rica, em 1990, fez parte do nosso grupo e é difícil de ser batida. Acho que o primeiro jogo vai ser a chave, muito duro para o Brasil.

Depois que o Tite entrou, a coisa fluiu melhor, em um grande momento da carreira conseguiu explanar suas ideias, fez excelentes escolhas e os resultados vieram. Vínhamos de resultados negativos na campanha inicial, duas edições da Copa América, Copa do Mundo e ele mostrou o caminho.
O time é ideal?
Tem sido um time forte sem a bola, sabendo sofrer em alguns momentos e sabendo se impor e usar a velocidade, capacidade técnica e criatividade do jogador brasileiro. Tem um sentido bom de equipe, ele tem lutado para permanecer e o Brasil é candidato forte ao título da Copa da Rússia.
A pressão em grandes times como Flamengo e Vasco lhe credenciaram a confiança para assumir a Seleção Brasileira?
Disse sempre que treinei as seleções A e B e depois fui para a principal. É uma forma de dar uma comparação do que representava dirigir Flamengo e Vasco. Estava chegando à seleção principal naquele momento. É bom de trabalhar, tivemos momentos tecnicamente felizes com jogadores de qualidade e aí a coisa tem muita chance de dar certo, outras vezes um pouco menos, como é o esporte em si.

Apesar de jovem (38 anos quando assumiu a Seleção Brasileira), vivia um momento muito feliz. Assumi interinamente o Flamengo em 1985, vieram bons resultados e fiquei em 1986. Fui campeão carioca, tivemos a saída de alguns jogadores mas terminamos o ano bem. Em 1987 saí e tive muita felicidade no Vasco em 1987 e 1988. Já no mundo árabe fui chamado para assumir a Seleção Brasileira. Eu estava no Al-Ahli. Ia ter eleição na CBF, uma nova direção e eu era uma das pessoas que estavam pensando para ficar à frente da Seleção, eu e o Parreira, para ser justo e sincero. E aí ocorreram as eleições e me ligaram: Ricardo Teixeira (ex-presidente da CBF), Eduardo Viana (o polêmico Caixa D’água, ex-presidente da Federação de Futebol do Rio de Janeiro já falecido) e Eurico Miranda (ex-presidente do Vasco e ex-diretor da CBF). Ratificaram o convite, o (Carlos Alberto) Parreira estava na seleção da Arábia Saudita, eu no Al-Ahli, mas acabei conseguindo um acordo.
Na Copa América de 1989, o Brasil ganhou seu quarto título da competição em uma campanha otimista para o Mundial do ano seguinte. Como foi a preparação para o torneio?
O convite foi feito e nós tínhamos Copa América, Eliminatórias e Copa do Mundo. Esse convite foi em janeiro de 1989 e a Copa do Mundo era em junho de 1990. Foi um período curto, de muitas dificuldades, porque só para você ter uma ideia, tivemos 11 amistosos até a Copa América, mas muito cheio de empecilhos, impedimentos forçados por clubes, por compromissos. Abrimos com Brasil contra Equador em Cuiabá (MT), 1 a 0, só com jogadores que atuavam no Brasil. Então, foram 11 processos diferentes. Tanto que, na parte final, nós fomos informados que iríamos participar dos 75 anos da Associação Dinamarquesa de Futebol, aí perguntei se poderia levar todo mundo. Pedi para cancelar e me disseram que não podíamos deixar de jogar, gastaram dinheiro. Avisei que não teria os melhores resultados, porque não podia levar quem eu queria. E assim foi, apanhamos de 4 a 0 para a Dinamarca e perdemos para a Suécia por 2 a 1 – derrota também por 1 a 0 para a Suíça. Empatamos com o Milan em 0 a 0 (quatro jogos ao todo nesse torneio amistoso) e faltava uma semana para a Copa América. Alguns jogadores não se apresentaram por novos impedimentos, mas acabamos ganhando, depois de 39 anos, a Copa América. Foram muitas dificuldades na preparação, era uma época que você convocava os jogadores, eles se apresentavam e dois dias depois você jogava. Ganhamos a Copa América e fomos para as Eliminatórias. Vivíamos problemas políticos e problemas econômicos (no Brasil o presidente era Fernando Collor).

Eu sabia de alguns impedimentos, caso do Careca, por exemplo. Mas, eu pautei meu trabalho na base que eu tinha dos dois clubes onde eu tinha passado (Flamengo e Vasco) e o próprio trabalho do treinador Carlos Alberto Silva, que era meu antecessor na Seleção. Acho que Seleção é continuidade. Em cima desses jogadores que eu tinha confiança e preenchiam os requisitos para jogar na Seleção, fiz a convocação. O grande problema é que na excursão que fizemos na Europa, me disseram que poderiam ser 20 os inscritos na Copa América, mas o regulamento só permitia 18. Tivemos que cortar dois jogadores, e um deles era do Bahia, que o clube levava muita fé. Era o Charles. Optei por Bebeto, Romário, Renato Gaúcho e Baltazar. O Careca não podia, por conta de compromisso do Napoli. O clube impedia que ele fosse para a Seleção.
Na decisão da Copa América de 1989, Maracanã lotado contra o Uruguai. Como foi a sensação de vencer o algoz no palco da final da Copa do Mundo de 1950?
Isso é sempre colocado midiaticamente, em função de um resultado que não foi positivo em 1950. Mas, eram outros jogadores, outro momento, mas existia sempre a pressão nesse sentido. Aqueles que ali estavam, não eram nem nascidos quando se deu o evento em 1950. Bola para frente, era nossa oportunidade. Bacana aquela geração, jogadores campeões da Copa América.

Mas isso foi depois, antes teve a Eliminatórias, que também foi problemática. O Chile tinha ganhado da gente na Copa América de 1987 por 4 a 0 e os jogadores estavam energizados, carregados, estavam bem. Foi um jogo muito difícil, o Romário foi expulso com três minutos de jogo, um acidente alheio à nossa vontade. Imagina, você vai jogar contra um concorrente direto, só classificava um no grupo e na hora de começar a partida perdemos o atacante, o Romário, tem um peso muito grande isso. Fizemos 1 a 0 e empataram em um gol esquisito.
E depois teve o jogo polêmico no Maracanã contra o mesmo Chile…
Aí vem um jogo de risco no Maracanã. Estamos dando um “chocolate” neles, aí solta aquele foguete (Rosinery Mello do Nascimento ficou conhecido como “a fogueteira do Maracanã”, chegou a posar nua e faleceu em 2011), e ficou a dúvida se o Brasil iria para a Copa ou não. Ficou provado que não atingiu o Rojas (ex-São Paulo que na época era o goleiro da seleção chilena e cortou parte do rosto para simular ter sido atingido pelo foguete que caiu no gramado), ele que simulou aquilo tudo, mas aquilo pairou sobre nossas cabeças, a dúvida se íamos ou não para a Copa. Aí veio a Copa do Mundo e o Romário quebrou a perna. Aldair ia jogar a Liga dos Campeões, não jogou e acabou não se recuperando de lesão para a Copa (foi reserva nos quatro jogos que o Brasil disputou). E o Bebeto se lesionou mais ainda (chocou o joelho direito com o joelho do goleiro Zé Carlos em treino).
Qual foi o jogo mais difícil para você nesse período à frente da Seleção Brasileira?
Todos são difíceis, mas acredito que, em função do clima de batalha em Santiago, tenha sido o mais difícil. Mas, não posso deixar de dizer que a final da Copa América também tinha um peso muito grande para nós. E outro em cima desse mesmo clima foi Brasil e Argentina, nas oitavas de final de 1990.

De uma forma ou de outra, pelo bem ou pelo mal, porque o Brasil sempre produz excelentes jogadores, você deixa de fora gente boa. Em 1990 fiquei até o último momento entre Renato Gaúcho (estava no Flamengo) e o João Paulo, ex-Guarani, que na época estava no Bari/ITA. No último domingo que antecedeu a convocação, escolhi o Renato Gaúcho e arriscaria.
O esquema 3-5-2 ainda não tinha sido utilizado em uma Copa do Mundo pela Seleção Brasileira. Como foi esse processo de preparação para jogar dessa forma e o que mais te agrada?
A gente estuda, por acompanhar o momento do futebol, tendência, uma série de coisas, respeitando a escola brasileira com bom passe e iniciativa do jogador, mas tivemos um processo de dificuldades desde que assumi. Ali, achei que poderia dar uma segurança maior à equipe, buscando um equilíbrio: defendendo sem deixar de atacar e atacar sem desguarnecer. Pela busca do equilíbrio é que eu estabeleci que poderia, com três zagueiros, dar confiança para os laterais brasileiros que têm uma tendência grande ofensiva, de atuarem dentro dessas características.
A Seleção Brasileira chegou confiante no título em 1990? Como era o clima do grupo?
Tivemos muitos problemas fora do campo com relação às lesões, tratos que não ficaram acertados de premiação, então, isso nós levamos para o Mundial. Isso representa você não estar 100% focado no trabalho que tinha que ser feito e o grau de dificuldade desse trabalho. Os adversários também são muito difíceis. Isso, com certeza, foi de negativo para nós assim como as lesões de jogadores-chaves. Poderia incluir aqui jogadores que tiveram problemas de contrato. Aldair, Silas, Bebeto e Romário foram as grandes perdas que tivemos. Mesmo assim, tínhamos confiança na Seleção, no trabalho, e infelizmente caímos numa máxima no futebol: “quem não faz, acaba levando”.

A Argentina tinha sido campeã mundial e estava jogando em 1990 por uma bola. Eu disse isso no intervalo do jogo, que tínhamos que ter atenção ao Maradona, porque ele jogava por uma bola. Acabou acontecendo, infelizmente. Um detalhe fundamental para a vitória foi o que faltou, o gol (risos).
O Dunga foi injustiçado pelas críticas após a Copa de 1990?
Tudo o que foi vivido no campeonato de 1990, foi importante para a conquista de 1994. Ganhamos a Copa América depois de 39 anos, terminamos a Eliminatórias em primeiro lugar. Com 100% de aproveitamento na fase de grupos, caímos em um clássico entre Brasil e Argentina. O Dunga foi o capitão do tetra, fez por merecer.
Qual foi o momento mais difícil para você à frente da Seleção Brasileira?
Depois que encerrei minha participação à frente da Seleção, eu já tinha acordado com a direção da CBF que tinha muito a crescer e desenvolver. Mas a conta ficou muito pesada, fui para a Itália (foi técnico da Fiorentina) e vivi um massacre midiático durante muitos anos. Mas, bola para frente, vida que segue, porque dirigir a Seleção rende crítica muito forte. Foram 10 anos após muito difíceis. Mas, consegui superar e você está me entrevistando por causa disso.
