Estar em pé e poder olhar olho no olho ganhou um significado mais do que especial para Laís Souza. A ex-ginasta da seleção brasileira tenta encontrar uma sensação que se compare ao que sente quando sai da cadeira de rodas e, com a ajuda de um tipo de estabilizador, faz algo que deixou de fazer parte de sua rotina há cerca de cinco anos.
Ao sofrer um acidente em janeiro de 2014, quando treinava em Salt Lake City (EUA), a paulista de 29 anos, que atualmente mora em Vila Velha, teve uma lesão na terceira vértebra da coluna cervical que a deixou tetraplégica.
Laís esquiava à espera da classificação para a prova do esqui aéreo, nos Jogos Olímpicos de Inverno. Ali encerrou sua carreira no esporte. Carreira que teve duas participações em Olimpíadas (Atenas/2004 e Pequim/2008) pela seleção de ginástica artística.
Há cerca de um mês, a ex-atleta postou nas redes sociais uma foto em que aparecia em pé, com a ajuda do “ortho walk”, um aparelho desenvolvido para auxiliá-la nas sessões de fisioterapia.
“Fiquei muito feliz. Deixa eu tentar pensar alguma coisa para comparar o que é tentar ficar em pé… sei lá, é como voar”, contou, na tarde de ontem, em entrevista à reportagem de A Tribuna, em uma entrevista em sua residência, em Vila Velha.
A Tribuna — Qual a sensação de ficar em pé com o aparelho?
Laís Souza — Cara, eu já ficava em pé há muito tempo, só que com outros aparelhos ou com alguém. Mas a sensação de estar com esse aparelho é porque eu estou lá na minha alturinha, não estou sentada, olho no olho. Para conversar é diferente, para eu me impor é diferente. Isso é o que me trouxe, e é muito simples. Foi muito especial.
E das outras vezes?
Depois do acidente eu estava naquela busca incessante de ficar em pé, de “quero me mexer, quero, quero, quero”. Quando eu ficava em pé, sempre lutava com a minha pressão arterial no começo. Depois eu comecei a melhorar, ficando cada vez mais tempo em pé.
Mas lá atrás, quando fiquei pela primeira vez, acho que foi essa a sensação, fiquei muito feliz. Óbvio que tinha um milhão de outras coisas que me deixavam para baixo, mas fiquei muito feliz. Deixa eu tentar pensar alguma coisa para comparar o que é tentar ficar em pé… Sei lá, é como voar. Quando vocês estiverem voando, eu vou estar andando.
E te ajuda na fisioterapia?
Deu uma outra liberdade. A minha fisioterapia é uma de tetraplégico, de uma pessoa que não mexe nada. Então eu tenho a minha experiência, a experiência das pessoas que eu já passei, o tempo que fiquei nos Estados Unidos. Então, assim, é diferente. E ficar em pé, caraca! Muda, muda mesmo.
Já considerou se tornar atleta paralímpica? Seria difícil?
Não é que eu acho difícil. Só que nesse meio tempo em que tentei ter alguma vivência, acabei não me apaixonando por nada. Mas pode ser que eu me surpreenda e venha a me apaixonar por alguma coisa. Só que mais para frente. Tem a vela, que eu acho que dá para o tetraplégico, não tenho certeza, tem a bocha, algum tipo de voo. Mas sempre com alguém auxiliando.
Se sente realizada com as conquistas na ginástica?
Cara, sou 100% realizada. Eu acho que eu fiz o que podia e mais do que eu podia imaginar na vida. Passei por muitas coisas malucas e coisas muito boas. Não sei, acho que a minha dedicação de vida foi a ginástica. Foi meu trabalho por 21 anos. Foram muitas medalhas e muitas cirurgias também. Eu ia brincar falando que tinha mais medalhas que cirurgias, mas se bobear, não. Foram 17 cirurgias. Muita medalha também, mas, caraca…
Como figura pública, você acredita que tem uma causa para defender?
Acho que sim, essa responsabilidade caiu sobre os meus ombros. Não acho que sou a melhor pessoa para falar, tenho super pouco tempo de cadeira (de rodas) para apontar e levantar uma bandeira de cadeirante. Mas, não sei se é felizmente ou infelizmente, eu estou na mídia e se puder fazer alguma coisa por isso, vou fazer.

