“É uma casa portuguesa, com certeza!”. A música de Amália Rodrigues descreve como é uma moradia tipicamente lusitana, que tem ganhado um toque capixaba. Portugal tem se transformado em verdadeiro lar para atletas aqui do Estado. São 11 jogadores capixabas que estão atuando nas duas principais divisões do país na temporada 2018/19, que começou neste fim de semana.
Com a realidade do futebol capixaba – de baixos salários, falta de estrutura, contratos curtos e pouco investimento nas categorias de base –, os clubes perdem suas joias de graça, enquanto empresários e clubes europeus procuram talentos brasileiros com objetivo de retorno técnico e financeiro.
O exemplo mais recente é o de Emerson Souza. Nascido em Anchieta, o volante de 20 anos passou pelo Atlético Itapemirim e disputou o Capixabão deste ano pelo Rio Branco de Venda Nova, mas não teve muitas oportunidades. Em julho, foi contratado de graça pelo gigante Porto para integrar a equipe B, que disputa a Segunda Liga, a segunda divisão do país.
O vínculo com o clube português vai até o dia 30 de junho de 2020, mas pode ser estendido por mais três anos para utilização no time principal.
“Não precisaram pagar nada, estava sem contrato. O futebol capixaba deveria valorizar mais a garotada. Tem que entender que medalhão já foi, jogou muita bola, tem que ser respeitado, mas os dirigentes deveriam olhar muito mais para talentos mais novos porque é daí que vai vir o dinheiro”, opinou Emerson, ou “Ramires”, como é chamado pelas semelhanças com o ex-volante da Seleção Brasileira e com passagem pelo Benfica.
O caminho dele até Portugal começou na Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2017, quando atuou pelo Nacional/SP e foi descoberto pelos empresários portugueses Pedro Silva e Jorge Boas, que prepararam um DVD com lances do jogador.
“Não esperava ganhar tão bem em tão pouco tempo. Todo mês eu ajudo minha família”, comentou o capixaba, que também elogia a estrutura do clube português: “Eles gostam muito de brasileiros e dão todo o suporte”.
Ramires estreou marcando um gol de pênalti no empate em 2 a 2 contra o Portimonense, em um torneio pré-temporada. E sonha alto: “Quero brilhar no Porto B e ir para o time principal”.
“Não é fácil chegar a outro país”
Acostumado a evitar gols e a defender a meta de suas equipes, o goleiro Paulo Vítor, campeão do Capixabão em 2015 pelo Rio Branco, viveu em Portugal o outro lado da moeda. Virou “guarda-redes” – como são chamados os goleiros por lá – do Varzim e sentiu a emoção de marcar um gol na última temporada, cobrando falta dentro da própria área que encobriu o goleiro adversário.
Mas foram os gols evitados que fizeram dele titular do time nas últimas edições da Segunda Divisão Portuguesa. Agora, ele deseja conquistar o acesso.No clube desde 2016, Paulo Vítor lidera a “colônia capixaba” do Varzim, que conta ainda com o goleiro Mártin Becker (ex-Rio Branco) e o zagueiro Jeferson Bahia (ex-Desportiva).
Em conversa com a reportagem de A Tribuna e do Tribuna Online, o goleiro de 29 anos lembra como foi a adaptação e conta como se tornou referência na equipe de Póvoa de Varzim.
A Tribuna/Tribuna Online – Por que escolheu jogar em Portugal
Paulo Vítor – Foi uma oportunidade que veio quando eu não esperava mais sair do Brasil. Vim para cá e vi que era um futebol não muito difícil. A língua portuguesa também ajudou bastante a ficar mais tranquilo aqui. O futebol português te dá oportunidades, tem grandes clubes próximos que sempre acompanham as equipes pequenas.
E como foi o seu começo no Varzim?
Cheguei aqui na época 2015/16, fiz quatro jogos e tive uma lesão. Eu vim na janela de janeiro, então voltei para o Brasil e retornei na época seguinte, quando joguei a competição toda. Não foi fácil conquistar a confiança do povo português, dos treinadores que passaram desde que cheguei aqui, diretoria… Não foi fácil e não está sendo fácil, todo dia tem que mostrar que está bem.
O que fez para ganhar esta confiança?
Coloquei na minha cabeça que iria trabalhar e que, quando me dessem a oportunidade, iria entrar e agarrar com unhas e dentes, não largar essa chance. E graças a Deus a oportunidade chegou, entrei e joguei bem. Fui conquistando de pouquinho em pouquinho. Não é fácil chegar a outro país.
Você teve dificuldades de adaptação em Portugal?
Não foi fácil me acostumar ao frio. Estava acostumado com São Mateus, a andar de bermuda, chinelinho, camisa regata (risos). Cheguei aqui e peguei um inverno rigoroso, três, quatro graus no primeiro mês. Mas graças a Deus consegui ultrapassar essa barreira com o apoio do clube, que esteve ao meu lado. Trouxe a minha mulher, o que me ajudou bastante.
Há duas temporadas você é o goleiro titular do Varzim. Como avalia a passagem pelo clube e o que falta conquistar?
Desde quando cheguei, sempre fiz bons jogos. Na época passada, fui o único que não ficou de fora, atuei em 42 jogos. O que falta conquistar aqui no Varzim é a tão desejada subida para a Primeira Liga. Estou tendo mais uma oportunidade.
Até gol você marcou em Portugal, né?
Foi muito emocionante, muito bom mesmo. Nunca tinha sentido uma emoção dessa de fazer o gol, estou acostumado sempre a defender, né? (risos). Eu sempre fico chutando a bola de um gol ao outro no treino. Pegava uma bola em cruzamento, saía na linha da grande área e chutava no outro gol. E aconteceu! Uma experiência diferente na vida de um goleiro.
Bons salários e rápida adaptação ao futebol europeu
Com a facilidade do idioma, o futebol português proporciona uma adaptação mais rápida ao futebol europeu, mas também é um atrativo financeiro para os capixabas. Segundo apuração de A Tribuna, os clubes da Segunda Divisão Portuguesa pagam, em média, de 1,5 mil a 3,5 mil euros de salário mensal (R$ 6.500 a R$ 17.420), enquanto um clube de pequena expressão, na Primeira Liga, paga no mínimo 5 mil euros (R$ 20 mil).
“A adaptação é bem melhor. O Willyan está bem-adaptado, pronto para sair para qualquer outro país”, analisa Marcos Ribeiro, empresário do zagueiro campeão capixaba pela Desportiva, em 2016, que está na sua segunda temporada pelo Cova da Piedade.
“Aqui é muito bom, fui muito bem recebido. São certos e muito organizados”, elogia Willyan.
O empresário Marcelo Bomfim, que levou três jogadores do futebol do Estado para o Varzim, analisa: “É uma porta de entrada na Europa. Nos outros países, há uma certa rigidez no número de estrangeiros, em Portugal, não”. Mas alerta: “Um problema é a adaptação aos costumes e à disciplina. Alguns brasileiros sofrem”.
Dupla sonha alto no elite
Na elite do futebol português, a Primeira Liga, dois capixabas dão início a uma temporada cheia de projeções e sonhos: o lateral-direito Júnio Rocha, que atua pelo Rio Ave, e o zagueiro Marlon Rangel, jogador do Chaves.

“Se ano passado a temporada foi espetacular para eles aqui, quero que essa seja ainda melhor”, projetou o lateral-direito, contente com a visibilidade que terá no futebol português:
“Já vimos grandes transferências de atletas que saíram daqui para outros grandes clubes da Europa”.
Marlon também vai estrear na Primeira Liga. Ao contrário de Júnio, o zagueiro já estava atuando em Portugal. Depois de Vitória/BA, Bahia e Sport/ES, ele estava no Cinfães, da terceira divisão.
“A época no Cinfães foi maravilhosa, tirei muito aprendizado, fiz 29 jogos. Agora é dar continuidade ao trabalho, manter o nível, treinando forte para que as coisas aconteçam no Chaves”.
Tricampeão na década de 90 ataca de empresário
Brasileiros sempre tiveram espaço no futebol português e alguns capixabas já fizeram história atuando por grandes clubes de lá.
Nascido em Santa Teresa e revelado pelo Colatina, Edmílson Pimenta, que ficou conhecido como Ratinho, foi tricampeão português, com dois títulos conquistados pelo Porto (nas temporadas 1995/96 e 1996/97), e um pelo Sporting (1999/2000).
“Foi uma trajetória bastante vencedora. Jogar por dois clubes grandes e conquistar três títulos portugueses não é para qualquer um”, lembra o ex-atacante, que marcou cerca de 30 gols pelo Porto.
Ratinho se destacou pelo Democrata/MG marcando seis gols no Campeonato Mineiro de 1993. Recusou propostas de Cruzeiro, Atlético/MG e América/MG para iniciar sua carreira em Portugal, no Nacional da Madeira. Hoje, mora em Porto e atua como empresário de jogadores.
“Tenho um clube no Estado, o Espírito Santo S.E., e uso para negociar jogadores. Estou tentando trazer dois ou três para cá, ainda nesta janela”, explica.
O Nacional da Madeira também recebeu, em 2002, o ex-lateral esquerdo Rossato, de Vila Velha, revelado pela Desportiva e, dois anos depois, comprado pelo Porto por 2 milhões de euros (R$ 8,6 milhões). Em Portugal, ele também atuou por Braga e União Leiria.
“O futebol português é um trampolim na Europa. A meta dos clubes é contratar jogador de qualidade a custo pequeno para vender a outros clubes europeus”, revela Rossato.
Já o ex-meia e atual técnico Mauro Soares afirma ter sido o primeiro capixaba vendido de um clube do Estado para um time português. Em 1992, o Belenenses pagou 80 mil dólares (R$ 309,6 mil à época) pelo jogador da Desportiva, que também defendeu Sporting, Farense e Campomaiorense. “Lisboa é a melhor cidade do mundo para morar e eles adoram brasileiros”, lembra Mauro.







