Cerca de 150 jovens de 7 a 20 anos, que moram na Grande Vitória, participam de um projeto de atletismo da prefeitura da capital. A pista fica no campus do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), em Jucutuquara. A maioria dos meninos e meninas vivem em regiões que sofrem com a violência. Graças ao esporte, eles correm por outro caminho.
“Meu primo foi morto com 15 tiros e isso só me deu mais vontade de continuar no esporte. Foi no meu bairro, estava no começo dos meus treinos do atletismo”, disse Ludmila Rosa Gomes, 17 anos, moradora de Tabuazeiro, na capital.
O caso do primo dela aconteceu em setembro de 2014. “Fizemos até protesto na época. Hoje, essa realidade (da violência) está voltando. Ele foi morto por engano”, lembra a mãe da jovem, Rosineia Rosa Gomes, de 53 anos, que está desempregada.

Agora, ela conta os dias para participar de um camping de treinos no Rio de Janeiro, de 19 a 24 de fevereiro. Ludmila foi selecionada pela Federação Capixaba de Atletismo. “Sinto ansiedade de chegar o dia de ganhar uma medalha olímpica. Não vejo a hora (risos)”.
No que depender da garra da filha do ajudante de cozinha Josué Gomes Filho, de 53 anos, o desempenho até uma Olimpíada vai acontecer.
“Minha primeira competição foi na Estação – Estação Conhecimento é um projeto que fica no Setor Oceania, em CIdade Continental, Serra. Fiz o salto em altura (saltou 1,35m )e perdi para duas meninas. Fiquei em terceiro lugar e falei que não ia mais perder para elas. Quando terminei a prova, coloquei na cabeça que queria ser atleta de alto rendimento”, lembra Ludmila Gomes, que confessou em seguida:
“Me senti mal, mas senti uma adrenalina muito forte. Falei para mim mesma que poderia saltar 1,40m também. Eu tinha 14 anos (risos)”.
O objetivo agora é bem mais alto do que a primeira marca conquistada. “Minha meta de marca esse ano era de chegar ao índice do Mundial, que foi para 1,81m. Mas, esse ano, quero fazer 1,70m (seis centímetros acima da marca atual), ser campeã brasileira de novo, mas meu sonho é ir para o Mundial. Para chegar a essa marca preciso de treino e muita dedicação”.

“As pessoas falam que é muita fé também, mas se não tiver treino, não adianta. Meu professor fala que é um dia de cada vez, cada dia no seu limite. Estou treinando de segunda a sábado. Só tenho o domingo para tomar açaí (risos). Que nada, tomo todos os dias se deixar (risos)”, completou.
Oportunidade em meio ao caos
Eduardo Santos é atual vice-campeão estadual sub-20 nas provas dos 100m e 200m rasos. O jovem, que cursa Educação Física graças a uma bolsa de 70% de desconto devido ao atletismo, mora no bairro Nova Bethânia, em Viana. O local é o oitavo com maior taxa de assassinatos na Grande Vitória. Foram 12 mortes nos últimos dois anos.
“Os bons exemplos em volta é que nos fazem continuar. O Paulo André Camilo (líder do ranking brasileiro na prova dos 100m rasos com o tempo de 10s18 é um cara em quem eu me inspiro (mora em Vila Velha). Até mesmo meu treinador, Fernando Paes, que a cada dia me incentiva mais”, disse Eduardo Santos.
Em 2016 o garoto foi campeão estadual sub-18 nas provas de 100m e 200m rasos. Suas marcas são 10s53 e 22s22. Eduardo Santos lamenta não ter alguns colegas do bairro na pista.
“Tenho amigos que são envolvidos. Sei lá, alguns amigos morreram e para muitas pessoas é difícil driblar essa situação. É falta de pessoas boas em volta, talvez”.
Caminho das trevas e “casa baleada”: exemplos não faltam
Velocista nas provas de 200m e 400m rasos, Washington Gonçalves é morador do bairro Padre Gabriel, em Cariacica, o 17º com maior índice de homicídios na Grande Vitória ano passado. Em 2016 e 2017, foram 10 assassinatos ao todo, de acordo com dados da Gerência de Estatística e Análise Criminal da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp).
“Infelizmente temos que conviver com isso. Alguns amigos hoje estão no mundo do crime, acabam se perdendo no meio do caminho, mas o que vale é a cabeça do jovem. Isso que diferencia um do outro. Tenho isso em mente. Lembro da infância, mas também das escolhas. Outras pessoas incentivaram outro caminho para amigos que foram para o crime. Esperamos que mudem, que sigam um caminho diferente”, afirmou o garoto.
Velocista nas provas de 400m e 800m rasos e parceiro de treinos de Eduardo, Henrique Lourenço amanheceu com a casa cheia de marcas de tiros há alguns dias. Ele mora no bairro Cruzamento, em Vitória.
“Não é exclusividade minha, né? A gente tenta sempre buscar o lado positivo das coisas e deixar de lado, às vezes até tentar ignorar. Mas, vejo muitas vezes os caras armados passando do lado quando venho para o treino, alguns amigos que já frequentaram minha casa e até cumprimento, não vou dar gelo. Alguns deles tinham muito talento no esporte, tentaram até testes em times de futebol no Rio de Janeiro. Acabaram se perdendo no caminho”.
Projeto resiste há quase 20 anos, mas passa por dificuldades
Apoiado pela Prefeitura de Vitória, o projeto de atletismo convencional e paralímpico no campus do Ifes existe há 19 anos. Porém, o único investimento é o pagamento dos funcionários. A Secretaria de Estado de Esportes e Lazer (Sesport) dá suporte, mas é necessário buscar ajuda por fora.

Vice-presidente da Federação Capixaba de Atletismo (Fecat) e instrutor de atletismo no projeto em Vitória, Fernando Paes revela que a Confederação Brasileira de Atletismo (CBat), recebe apoio de uma instituição financeira pública e repassa às entidades estaduais da modalidade.
“A Cbat é patrocinada pela Caixa Econômica Federal. Uma parte dela (da quantia de patrocínio) é destinada às federações para realizar três competições: Estadual sub-16, sub-18 e sub-20. Essas três competições têm uma verba da Cbat e somos obrigados a fazer, mas não é verba suficiente para fazer o torneio todo (em cada categoria). Temos que ir atrás de outros recursos para fechar o orçamento. A fatia deles é toda para a base, não tem outro recurso (para sub-23 e adulto)”, explicou.
A Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) abriu as portas para ceder a pista de atletismo oficial, no campus de Vitória, aos atletas do projeto que acontece no Ifes.
“As instituições cedem o espaço. A parceria é com a prefeitura diretamente, não com a federação. Além do espaço, usamos os materiais do Ifes também”.

“Eu limito as viagens, mas não pelo gasto, porque o gasto a gente corre atrás aqui e consegue, seja com amigos, mas acontece. Meu critério para viagem é dedicação e resultado. Quem está determinado, se dedicando aos treinamentos, dou um jeito de levar. Até hoje eu consegui fazer isso”, garante o professor.
Só que os atletas têm correspondido tão bem, que a limitação tem sido difícil de fazer, caso necessário.
“Não tenho 100% de certeza do que vou fazer, mas vou dando meu jeito. Esse ano vai ser complicado nesse sentido, porque tenho bastante gente para viajar. É bom também, mas vai ser uma sinuca (risos). Ao mesmo tempo, dá orgulho. Fiz até projeto de captação de verba e minha ideia é de obter R$ 20 mil por ano para conseguir resolver tudo, com viagens, suplementos, material de treino, enfim, fecharia com essa quantia em bom planejamento. Farei isso através de empresas”, afirmou.



