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Memórias que não se apagam

Quando um gol ou um título é classificado como “inesquecível”, pode mesmo não ser exagero. Até aqueles que sofrem de Alzheimer conseguem se lembrar ...

PORTADOR DE ALZHEIMER observa foto do estádio Canindé, em atividade da pesquisa “Revivendo Memórias”

Última atualização

PORTADOR DE ALZHEIMER observa foto do estádio Canindé, em atividade da pesquisa “Revivendo Memórias” (Foto: Divulgação/museu do futebol)Quando um gol ou um título é classificado como “inesquecível”, pode mesmo não ser exagero. Até aqueles que sofrem de Alzheimer conseguem se lembrar de momentos marcantes e de ídolos do time de coração.
O futebol tem sido utilizado para melhorar o quadro de pacientes da doença neurodegenerativa que provoca deteriorização das funções cerebrais, como a perda de memória.

A pesquisa “Revivendo Memórias”, do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP/SP, em parceria com o Museu do Futebol, tem levado portadores de Alzheimer e de outros problemas cognitivos e de memória para visitas ao museu, em São Paulo.

Os pacientes são estimulados por imagens, áudios e troféus que retratam principalmente o futebol, mas também as artes e o entretenimento, geralmente entre os anos 50 e 80. Os resultados estão impressionando médicos e pesquisadores, que identificam melhoras dos pacientes na estimulação cognitiva, na reinserção social e na qualidade de vida deles.

“Um lembra quem é o jogador, o outro lembra do jogo, o outro do campeonato e eles começam a interagir. O futebol é um gatilho para ativar memórias. A gente usa o emocional para buscar aquela memória que ainda não foi perdida”, explica o pesquisador e idealizador do projeto, Carlos Chechetti.

O capixaba Almir (nome fictício) é vascaíno e, aos 79 anos, ainda consegue se lembrar de alguns ídolos do clube quando o assunto é o Vasco.

“Lembro deles, do Roberto Dinamite, do Romário… Sou vascaíno por causa do meu pai e assisto aos jogos do Vasco pela TV”, conta. “Mas o Vasco hoje não está muito bem não, já foi muito melhor. O Flamengo hoje está melhor (risos)”, brinca.

Ele é paciente do geriatra Luiz Gustavo Genelhu, que até mesmo orienta as famílias dos pacientes a colocarem jogos de futebol na televisão, mesmo que seja uma partida antiga.

“É bom colocar um jogo para assistir porque pode resgatar boas lembranças. As memórias com uma carga emocional são as mais difíceis de desaparecer. Também porque o Alzheimer afeta, principalmente, as memórias mais recentes”, explica o doutor.

Reações emocionantes

A cada visita de pacientes com Alzheimer ao Museu do Futebol, em São Paulo, surpreende e emociona os profissionais que trabalham com a pesquisa “Revivendo Memórias”, do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP/SP.

Seleção formada por pacientes (Foto: Carlos Chechetti)Desde 2019, cerca de 20 pacientes já foram beneficiados com o projeto, que usa o futebol para reativar lembranças e ajudar no quadro dos portadores de Alzheimer.

O trabalho realizado durante as visitas é dividido em três etapas. Na primeira, educadores e pesquisadores mostram os primeiros elementos aos pacientes, como fotos e troféus. Depois, se inicia o tour pelo museu localizado no estádio Pacaembu. Por fim, os pacientes escalam uma espécie de seleção com jogadores de futebol e também com celebridades das artes, da televisão e de outros esportes.

A evolução no quadro dos pacientes é perceptível. “Na primeira visita, um paciente que tinha o quadro mais avançado começou quieto e de repente foi lembrando da infância dele, que jogava futebol, lembrou os nomes dos amigos… Arrepio de lembrar”, conta a coordenadora do Núcleo Educativo do Museu do Futebol, Ialê Cardoso.

“Teve um torcedor do Corinthians que lembrou que assistiu à um jogo em 1965 contra o Palmeiras, lembrou do placar, do amigo que viu com ele e até do restaurante que ele foi jantar no dia”, conta o idealizador Carlos Chechetti.

Projeto oferece um gol de placa na qualidade de vida

Além de ser um pontapé inicial para resgatar lembranças em pacientes com Alzheimer, o futebol é um gol de placa na qualidade de vida dos portadores da doença que estão participando da pesquisa “Revivendo Memórias”, em São Paulo.

Neurologista Leonel Takada (Foto: Acervo Pessoal)Neurologista do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP/SP, responsável pelo projeto, o doutor Leonel Takada explica que o trabalho realizado vem tendo resultados duradouros.

“Pacientes com Alzheimer costumam ficar muito isolados e com esse projeto eles podem interagir com as pessoas. Esses pacientes também podem ter alterações no comportamento, de agitação ou até agressividade e sintomas depressivos”, esclarece o doutor.

“Em alguns pacientes, a gente vê uma melhora que dura até dias ou semanas após a visita, porque eles ficam comentando com familiares”, diz.

O especialista também explica o processo fisiológico que acontece após o paciente ser estimulado com fotos, vídeos ou objetos como camisa e troféus:
“A gente se lembra melhor das coisas que têm um valor afetivo maior. Isso porque tem uma via do cérebro que envolve uma região do cérebro chamada amígdala que está associada a essas memórias com conteúdo afetivo”.

Análise

Informações do passado conservadas durante algumas fases

Fernanda Damiani, geriatra (Foto: Rodrigo Gavini)“A memória presume uma temporalidade que tem como síntese a história vivida. A história vivida para alguns fica no arquivo, no registro oficial e no fato em si, para outros na lembrança, registrada em papel, fotografias, sentimentos, cartas…
A dificuldade principal do Alzheimer não é propriamente a memória no sentido pleno, mas sim a dificuldade de memorização. O indivíduo tem dificuldade de guardar fatos novos. Possuem prejuízo na memória de curto prazo, ou memória de trabalho. Em assimilar fatos e coisas novas.
Entretanto, as informações do passado ficam conservadas durante algumas fases da demência, podendo ser resgatadas com estímulos, como o futebol”.

Fernanda Damiani, médica geriatra

Inspiração que vem da Escócia

  • “Revivendo memórias” é uma pesquisa que vem sendo realizada em São Paulo, pelo Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP/SP em parceria com o Museu do Futebol
  • A ideia veio do pesquisador Carlos Chechetti, que em 2018 começou a se questionar se a paixão de um portador de Alzheimer pelo futebol, pela música ou pela arte poderia ajudá-lo a melhorar o seu quadro de saúde
  • Carlos, então, iniciou uma extensa pesquisa e encontrou um projeto que vem sendo executado há cerca de dez anos na Escócia, utilizando o futebol como gatilho para resgatar lembranças de pacientes com a doença, utilizando fotos, vídeos e objetos como camisas e troféus
  • O pesquisador viajou para conhecer o projeto escocês, chamado de Football Memories, do Scottish Football Museum, e trouxe o modelo para o Brasil. Os profissionais desejam agora levar o projeto para outros Estados

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