“Merecimento”. É assim que Carlos Alberto Parreira classifica o momento em que o craque italiano Roberto Baggio isolou a cobrança de pênalti, na final da Copa do Mundo de 1994, decretando o tetra do Brasil. Assim como dos atletas, da comissão técnica e da nação – que soltou o entalado grito de ‘campeão’ – o título era mesmo um mérito dele, que já tinha iniciado suas jornadas em Mundiais há 24 anos.
A tabelinha entre Parreira e o Mundial vem desde 1970, quando ele foi preparador físico da Seleção que voou ao tri. Depois, tornou-se o técnico recordista em participações em Mundiais. Além do Brasil (1994 e 2006), comandou outras quatro seleções em Copas: Kuwait (1982), Emirados Árabes (1990), Arábia Saudita (1998) e África do Sul (2010). Em 2014, foi coordenador técnico do Brasil. E está chefiando, nesta Copa, o Grupo de Estudos Técnicos da Fifa.
A caminho da Rússia, literalmente, Parreira atendeu à reportagem de A Tribuna enquanto dirigia em direção ao aeroporto. Aos 75 anos, compartilhou seu conhecimento de vitórias e derrotas na entrevista que finaliza a nossa série especial com campeões mundiais. Confira, na íntegra:
A TRIBUNA: Como foi a experiência de ser preparador físico do Brasil, na Copa de 70, com apenas dois anos de formação, e como foi esse convite?
PAREIRA: “É até motivo, nas minhas conversas, de eu falar da importância de se preparar na vida, ter a oportunidades e aproveitá-las, foi o que aconteceu comigo. Eu fui convidado para ser técnico da seleção de Gana, pelo Itamaraty, assim que me formei, e fui para lá ganhando 100 dólares, fui em uma missão especial. Estando em Gana eu conheci o pessoal da Federação da Alemanha e pedi para estudar na Alemanha, me colocaram em uma escola de futebol. Eu estava investindo na minha qualificação profissional. Quando eu estava lá, fui convidado para acompanhá-los, junto com a delegação, em Stuttgart, ver Brasil e Alemanha, quatro dias depois deles jogarem contra a Inglaterra. Encontrei Admildo Chirol, que era o preparador físico da Seleção Brasileira, que por acaso – olha como que a vida é interessante – tinha sido meu professor na escola de educação física, e ele falou: “O que você está fazendo?”, “Estou estudando”, “Quando você voltar, vai conversar comigo”. Quando cheguei ao Brasil, fui conversar com ele e ele me convidou para integrar, aí fui trabalhar no Vasco e no Fluminense, e ele me convidou para ir para a Seleção”
Como foi o trabalho de preparação física na Copa de 70, com o método Cooper?
“O trabalho de 70 foi pioneiro, no Brasil, em educação física. O Coutinho (Claudio Coutinho, um dos preparadores físicos) era muito bom em fisiologia, professor da escola de educação física do exército, e eu estava começando a minha carreira, fizemos um trabalho de educação física muito bom, naquela ocasião, no Brasil, inovador. Introduzimos os trabalhos aeróbicos, anaeróbicos, cargas individualizadas, teve um plano de trabalho para que os jogadores atingissem a sua melhor forma física, e o Coutinho foi muito importante porque trouxe o teste de Cooper de um curso que ele fez na Europa, que ele foi representando o Exército, e ele viu lá o trabalho do (Dr. Kenneth) Cooper, fez amizade com ele, e trouxe para a gente, foi uma novidade, foi algo importante para poder avaliar os jogadores, na parte de consistência aeróbica”
Fale sobre sua relação com Zagallo
“Zagallo é uma pessoa humana maravilhosa, é um doce, então o entrosamento foi instantâneo. Desde 70 para cá, são 48 anos, Zagallo é um dos grandes amigos que eu tenho no futebol”
Quais suas melhoras lembranças da Copa de 70?
“Foi o processo todo, né? A preparação que nós fizemos, o filme lindo que nós fizemos para mostrar aos jogadores, os treinamentos, a concentração que a gente teve, a gente ficava lá no Retiro dos Padres (São Conrado, Rio de Janeiro), uma concentração muito simples, nós íamos treinar no Itanhangá, de Kombi, então foi um papel de persuasão, de convencimento, e depois de adaptação na altitude no México. Os jogos foram só o coroamento desse trabalho todo e ter sido campeão do mundo, ao lado de Pelé, foi uma satisfação enorme”
O quanto as suas experiências, também em outras seleções, contaram para comandar o Brasil?
“O que a gente chama de experiências, são as vivências. Desde 70 você está ali observando, está vendo como é que o Zagallo trabalha, como é que a gente trata os jogadores, o que é a Seleção Brasileira, a essência, o que é que tem que ser feito, como é que a gente trata os jogadores, então a gente vai aprendendo, está ali, está vendo o dia a dia. O Kuwait também foi muito importante, foram sete anos de trabalho lá e nós fomos à Copa do Mundo, naquela ocasião só iam dois da Ásia, é um case de sucesso maravilhoso. Kuwait tinha 600 jogadores de futebol amadores, então levá-los a uma Copa do Mundo, na Ásia, onde só iam dois, foi quase como ter ganhado uma Copa do Mundo, também são experiências boas de ter disputado Copa do Mundo. E com o Brasil, evidente, eu já tinha estado em 70 e em 74, com o Zagallo, na Alemanha. E foi legal porque a gente viu quando deu certo e a gente viu quando deu errado, para poder avaliar o que foi feito aqui, o que foi feito lá, o que deve ser evitado aqui, e o que deve ser encorajado dali. Então tudo isso a gente vai ganhando conhecimento, que conta na hora que você tiver o comando, saber tomar as decisões”
Se considera azarado por ter pegado sempre grupos muito difíceis, com as seleções de Kuwait, Emirados Árabes, Arábia Saudita e África do Sul?
“Eu, como trabalhei lá muito tempo, não tem como passar para outra fase. Se você olhar o futebol no Kuwait, depois que nós tivemos lá, já são 30 anos, o que foi que aconteceu lá? Nada, nada…A Islândia foi um case maravilhoso, mas o Kuwait foi um feito muito maior, porque na Islândia, o governo islandês paga os salários dos jogadores, paga todos os clubes profissionais, tem centenas de técnicos formados no país, centenas de centros de formação de jogadores, é um trabalho muito bem feito que culminou merecidamente com a classificação. E no Kuwait não tinha nada disso, estruturação nenhuma, centro de formação nenhum, do zero, e continua assim, então realmente foi um case de sucesso fantástico, e ter jogado a Copa, pegamos Inglaterra e França, olha só, então quando você pega o histórico desses países, então você tem que olhar a satisfação de estar ali, estar jogando, participando, não tem jeito, quando chega lá, já ganhou a Copa”
Mas com a África do Sul quase avançou…
“A África do Sul é uma coisa que até hoje eu não entendo. Em qualquer outro grupo, a África do Sul teria passado. Gana foi o único país africano que passou, com cinco pontos, igual a gente. Só que a FIFA fez um sorteio para ver onde colocava a França, lembra? Tinha os cabeças de grupo e a França ficou de fora. Então, a primeira bolinha que o Jérôme Valcke pegou: ‘Agora a França vai ser colocada em um grupo’. Eram oito grupos. Caiu no grupo da África do Sul. Imagina se aquela bolinha tivesse caído no grupo do Brasil, no grupo da Alemanha, no grupo da Argentina, da Holanda, qual seria a repercussão?”
Como foi ter a primeira experiência como técnico com o Brasil, em Copa do Mundo, em 94?
“Foi um trabalho que a gente lembra muito, com carinho, pelo processo, pelo o que aconteceu na Eliminatórias, que foi difícil, parte da imprensa querendo destruir todo mundo, então a comissão técnica teve que se valorizar muito, teve que se unir bastante com os jogadores, para saber que a gente tinha uma meta, um propósito, que era ganhar a Copa do Mundo. Depois de 24 anos, o Brasil não tinha outra opção, a única opção era ganhar, porque era muito ruim para o futebol brasileiro ficar 24 anos sem – não é não ganhar – sem sequer ter chegado a uma final. Aí o trabalho foi muito bem feito, os jogadores se uniram, houve realmente um senso de equipe muito grande, se não, não teria vencido, e acho que ganhou merecidamente, era uma Copa para ser vencida, ganhada, então o Brasil foi lá para ganhar. Era ‘erro zero e eficiência máxima’, era o nosso tema, o nosso slogan, ‘não pode errar, se errar volta para casa’. Então aquele time estava imbuído dessa consciência de ter que ganhar e o importante é que eles corresponderam”
Como estava o Brasil para aquela Copa de 94? Tanto no sentido de elenco, quanto de pressão, em virtude também da traumática eliminação para a Argentina, em 90?
“A pressão era muito grande. Acho que se tivesse sido uma comissão técnica menos experiente teria sucumbido. Nós tínhamos o Zagallo, eu, o Américo Faria, todo mundo já tinha participado de Copas com a Seleção Brasileira, então a gente já sabia o que tinha que ser feito, como é que a gente tinha que proceder e foi muito importante essa união da comissão técnica junto com os jogadores, que também se doaram muito. Sem essa união, você não consegue nada.
Ricardo Rocha deu uma declaração para a gente de que essas experiências negativas em Copas anteriores fortalecem o Brasil para a Copa seguinte. No caso, depois de 90, ganhamos 94, depois de 98, ganhamos 2002… Você também acredita nisso?
“Muito, muito, muito, muito. Você aprende com as derrotas, aprende o que você não deve fazer na próxima vez. Você tira lições. Mas é importante que você tire lições, quando você tem a inteligência de saber extrair lições do que não deu certo na anterior e agregar as coisas positivas, você cresce, foi o que aconteceu em 94, foi o que aconteceu em 2002, depois de 98, e é o que tem acontecido, você sempre agrega algum valor”
Acredita, Parreira, que essa experiência negativa na Copa de 2014 – o 7 a 1 -, então, possa contribuir para o Brasil na Copa de 2018, de alguma forma? Tem muitos remanescentes de 2014.
“Os que estiveram em 2014 estarão presentes agora e sabendo o que que não pode acontecer, o que tem que ser feito, como eles têm que se comportar, qual é o procedimento, qual é a atitude, sobretudo – e isso acho que vai acontecer e está acontecendo – querer ser campeão do mundo, que é ali não tem nenhum campeão do mundo e eu tenho certeza de que todos eles querem botar a mão na taça”
O senhor, então, acredita que o hexa possa vir nesta Copa?
“Essa turma tem uma coisa muito particular, não tem nenhum ainda campeão do mundo, então essa é a grande oportunidade, o momento é muito provável, a Seleção Brasileira está muito bem, tem jogadores capacitados para ganhar a Copa do Mundo, eu acho que o Brasil é de fato um dos grandes favoritos”
Qual foi o adversário mais difícil em 94, Holanda ou Itália?
“A Itália, pelo time que tinha, era uma final, a tradição italiana de disputar Copas. O jogo da Holanda, a Holanda tinha um timaço, tinha aquele futebol vistoso, bonito, ofensivo, mas a gente estava ganhando o jogo até com uma facilidade muito grande, 2 a 0, tomamos os gols, entre aspas, com duas bobeiras mesmo. Lembro até hoje como se fosse agora o jogo, um gol de lateral, dentro da área, e um gol de corner, a bola dentro da pequena área, a defesa bobeou, todo mundo bobeou, então aquele 2 a 2 inesperado, aí o jogo incendiou, eles cresceram, mas o Brasil não se entrego, procurou a vitória, lembro que a gente começou a brigar pela bola e fomos buscar a vitória, foi sem dúvida alguma o jogo mais emocionante, e o mais bonito de ver. O jogo da Itália foi muito preso, muito estudado, por ser uma final. Me mandaram uma página, de um livro que escreveram, com o Arrigo Sacchi, que era o técnico da Itália, foi técnico do Milan, um cara muito estudado, dizendo que o time do Brasil de 94 foi um dos times mais organizados da história do futebol brasileiro. E era um time muito organizado, diferente do que muita gente pensa, defensivo. O Brasil nunca foi defensivo e nunca jogou à europeia, jogou à brasileira. Marcação por zona, linha de quatro, toque de bola, posse de bola, os laterais avançados, dois atacantes, mas era um time que sabia se defender, isso as pessoas não entendem, era um time muito organizado sem a bola”
Qual sua emoção ao ver o Baggio isolar aquela cobrança de pênalti?
“Tem uma coisa que se chama merecimento. Então, a gente sabia que ia ser campeão do mundo. Depois que chegou a um determinado momento da competição, a gente sabia que tinha tudo para ser campeão. Então, acho que aquilo foi o merecimento. E nós ainda tínhamos o Bebeto que ia cobrar, né (risos). Então ainda tinha mais uma possibilidade”
Como será esse trabalho chefiando o Grupo de Estudos Técnicos da FIFA?
“É Analisar técnico e taticamente os jogos, o que foi que aconteceu na Copa, como jogaram as equipes, as tendências do futebol, o que foi que aconteceu de novo. Foi tudo reformado? Não foi? Mantiveram seus esquemas que a gente já conhecia? Posse de bola, chutes a gol, é um trabalho de scout muito bem feito, depois a FIFA publica um relatório”
Neymar tem condições de repetir o papel decisivo de Romário e Bebeto de 94?
“Tem sim. O Neymar, depois de três meses, já deu o cartão de visita dele”
Sobre a Seleção de 2006, tinha um elenco muito bom. O que aconteceu?
“Em 2006 nós tínhamos bons jogadores, os melhores do mundo, mas a gente não tinha a equipe. Era importante ter uma equipe. A gente teve uma série de dificuldades, alguns jogadores não estavam na forma ideal para uma Copa do Mundo, e mesmo com um nome, é complicado. Foi diferente de outras oportunidades. Nós tínhamos bons jogadores, um ambiente razoável, mas não conseguimos ter uma equipe suficientemente forte para ganhar a Copa, apesar dos nomes. Nomes não ganham jogo, você tem que ter um time e a gente não conseguiu”



