O cronômetro marcava 37 minutos do primeiro tempo quando o árbitro jamaicano Peter Prendergast assinalou falta do atacante belga Marc Wilmots sobre o zagueiro Roque Júnior, anulando o gol que abriria o placar do duelo das oitavas de final na Copa do Mundo de 2002.
Ex-técnico e capitão da Bélgica, Marc Wilmots até hoje “não engoliu” a derrota por 2 a 0.
Depois de 16 anos do lance polêmico, Roque Júnior, o 11º entrevistado de A Tribuna na série especial da Copa com os campeões mundiais pelo Brasil, respondeu:
“Se eu nunca tomei gol no mano a mano pelo alto, em toda a carreira, vou tomar numa Copa do Mundo? Se ele não engoliu, problema é dele. Reclama na Fifa, a Copa é nossa!”, disparou o xerife de Felipão, que hoje trabalha como técnico.
A 13 dias da estreia do Brasil na Copa da Rússia, Roque Júnior acredita que o time de Tite vai passar com facilidade pela primeira fase da competição.

Facilidade que o Brasil não encontrou em 2002, apesar de ter vencido os sete jogos na conquista do pentacampeonato. Passou por Turquia (na fase de grupos e na semifinal), China, Costa Rica, Bélgica, Inglaterra e Alemanha.
Mas a confiança do torcedor não era tanta assim antes da disputa na Coreia do Sul e no Japão.
“Tinha essa pressão, passamos pelas Eliminatórias com dificuldades, com troca de treinador. Passamos por Vanderlei (Luxemburgo), depois o Candinho, depois o (Emerson) Leão e aí, por último, o Felipão. E foram 18 jogos. Se você pegar aí, é uma média muito alta de troca de treinadores, isso influencia”, lembra Roque Júnior.
Assim como agora, em 2002 a Seleção esperou até o último minuto pelo seu principal jogador. Se agora a expectativa é pela recuperação completa de Neymar, que voltou ontem a jogar depois de três meses por causa da cirurgia no pé direito, em 2002 a preocupação era com Ronaldo.
“Vai muito do jogador. Se estiver com a vontade de ganhar a Copa, volta e supera”, comparou o ex-jogador que hoje tem 41 anos.
Dica de Lúcio para Marcos fazer defesa épica na final
O atacante Oliver Neuville quase estragou a festa brasileira na final da Copa do Mundo em 2002. Aos três minutos do segundo tempo, quando o placar estava 0 a 0, o jogador cobrou uma falta da intermediária, que obrigou o goleiro Marcos a tirar a bola com as pontas dos dedos.

“O Lúcio tinha dado um toque para ele (Marcos) sobre o jeito que o Neuville batia na bola. O Marcão ficou atento. Se não tivesse dado esse toque, de repente o posicionamento não teria sido da forma que foi, teria ficado mais pelo lado direito”, contou Roque Júnior.
Minutos depois daquele lance, o Brasil venceu a Alemanha por 2 a 0, com dois gols de Ronaldo, e faturou o título na Ásia.
O ex-zagueiro ressalta que, a cada dia que passa, sente mais a importância da conquista do penta:
“Você ganha aquele título e não tem noção na verdade do que é aquilo. Só depois de dias, meses e anos que você vai ter noção real do que é ganhar uma Copa”.
“Brasil passa em primeiro no grupo”
A TRIBUNA — Na primeira fase da Copa, no Grupo E, a Seleção terá alguma dificuldade?
ROQUE JÚNIOR — A Costa Rica foi bem no Mundial passado. Mas não é uma seleção que tenha tanta tradição. A Sérvia também não, apesar de ter bons jogadores. Acho que a seleção da Sérvia é a melhor entre as duas. E a Suíça tem bons jogadores, um bom time também, mas não vejo nenhuma das três à altura de conseguirem ganhar do Brasil. Acho que a Seleção passa em primeiro no grupo.
Neymar volta a ponto de bala para ganhar a Copa, depois de se recuperar de contusão?
Convivi com o Ronaldo, que estava há mais de um ano sem jogar. Ele chegou na Copa, se entregou e foi muito bem. É difícil dizer, vai muito do jogador. Se ele estiver com a vontade de ganhar a Copa, dar tudo, acho que volta e supera muitas coisas. Qualidade ele tem. Espero que ele volte bem para ajudar a Seleção.
Quais são as seleções mais fortes na disputa?
Acho que não tem nada de diferente. Espanha, Alemanha, Argentina, França e Brasil são as seleções do primeiro patamar. Depois, Portugal, Uruguai, Inglaterra, acho que aí já é um segundo patamar. Se olhar historicamente, as grandes chegam pela tradição e pela qualidade dos jogadores, por se transformarem em equipe.
De todas as histórias na Coreia do Sul e no Japão, qual foi a mais engraçada?
Estava dando a volta olímpica e acabei perdendo a medalha. Estava com a taça e a hora que me dei conta falei: ‘Cadê minha medalha?’. Voltei uns passos e a medalha estava no chão. Peguei a medalha e falei p……, não é possível que cheguei até aqui para perder a medalha. Todas as vezes que olho para ela, lembro disso aí.
Contra a Alemanha, na decisão de 2002, o País parou às 8 horas de um domingo. Como foi lidar com a pressão de uma final de Copa do Mundo?
Eles tinham bons jogadores, inclusive alguns que jogaram comigo depois no Bayer Leverkusen. Schneider, Frings, enfim. E é uma seleção que tinha peso. Na época, tricampeã do mundo, então era um jogo de grandes seleções e grandes jogadores. Tinha o Klose, que na bola aérea deles era muito forte. Era um jogo difícil para nós.
Qual foi o diferencial?
Me lembro muito bem que depois da semifinal contra a Turquia, o espírito nosso, o ambiente, era muito bom. Era tipo ‘chegamos até aqui e agora vamos ser campeões, vamos dar tudo’. Essa energia, esse ambiente formado depois da semifinal, jogamos para dentro do campo deles e entramos tranquilos. Tomei cartão amarelo aos seis minutos, mas estava tranquilo (risos).


