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“Se não fosse o boxe, eu não seria ninguém”

Aos 31 anos, o boxeador Yamaguchi Falcão tem muita história para contar. Algumas felizes, outras nem tanto. Filho do lendário lutador Touro Moreno, ...

Yamaguchi ainda sonha com um cinturão mundial

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Yamaguchi durante treino em uma academia na Serra (Foto: Thiago Coutinho)Aos 31 anos, o boxeador Yamaguchi Falcão tem muita história para contar. Algumas felizes, outras nem tanto. Filho do lendário lutador Touro Moreno, de 81 anos, Yamaguchi é o mais velho de nove irmãos, dos quais quatro são pugilistas “Ainda tem o meu sobrinho”, lembra o capixaba, que no boxe profissional tem 16 vitórias, uma derrota e uma luta sem resultado.

Em entrevista ao jornal A Tribuna, após pausa no treino na tarde de sexta-feira (4) em uma academia em Feu Rosa, na Serra, ele lembrou das dificuldades da infância. “Tive que ajudar meu pai a trabalhar em uma carroça”, conta, lembrando também do momento em que a família foi despejada da casa onde morava.

Emocionado, Yamaguchi, que foi medalhista olímpico de bronze em Londres/2012, não tem dúvidas: “Se não fosse o boxe, eu não seria ninguém”.

A Tribuna — Como foi a sua infância?

Yamaguchi — Acho que não tive muito, pois desde pequeno eu queria ser atleta. Meu pai falava que quando arrumava um amigo para brincar, daqui a pouco o colega voltava chorando porque eu batia nele e arrumava confusão…. Lá em casa tinha sempre um tatame e eu já treinava com outras crianças. Foi assim, competindo, treinando. Mas teve um momento chato, quando eu, com uns 10 anos, e meus irmãos Esquiva e Thomas precisamos trabalhar junto com meu pai em uma carroça para ajudar nas despesas. Fazíamos frete, retirávamos entulhos, buscávamos areia e terra, fazíamos mudanças…. Não cheguei a passar fome, mas eram esses trocados que ajudavam para comprar o pão.

Como você convivia com essa situação?

Encarava de boa. Se tivesse uma carne, a gente comia. Se fosse pé de galinha, a gente comia também. Quando a gente é criança, é tudo diversão… Mas se não tivesse isso no passado, não estaria onde estou hoje. Quando minha família foi despejada, fiquei muito preocupado pois não tínhamos para onde ir. Meu pai, sempre vinha com o jeitão dele e tranquilizava a gente. Foi quando apareceu uma pessoa que nos ajudou e nos deu o terreno e o material para construir a casa , compras, além dos materiais esportivos para treinarmos. Foi duro.

Quando você descobriu sua vocação?

Ganhei meu primeiro par de luvas com 10 anos. Papai falava que eu tinha nascido para aquilo. Eu até jogava umas peladas, mas não levava o menor jeito (risos). Então, o jeito era treinar boxe. Com o ringue montado no quintal de casa, eu sendo o filho de lutador, passei a me destacar. Em 2002, teve um Circuito Olímpico aqui no Estado, quis participar, mas não deixaram por causa da idade. Mas fiquei conhecido pelos os organizadores, pois falaram muito bem de mim. Daí surgiu um convite para lutar em São Paulo. Eu estava com 14 anos de idade. Cheguei em São Caetano do Sul em um sábado e já tive uma luta na qual eu perdi por pontos, mas fui muito elogiado.

E como foi a experiência?

Foram 10 anos que fiquei por lá e foi muito duro porque fiquei longe da minha família. Sempre fui apegado a eles. Foram 10 anos assim. Mas eu cheguei à seleção brasileira.

Por que quis ser boxeador?
O boxe é um esporte diferenciado, eu tinha vários ídolos. Além de ser um dos mais bem pagos do mundo. Quis ser pelo dinheiro e pela fama.

Como é ser de uma família de pugilistas?

É legal. De vez em quando, rola ciúmes (risos) por conta do momento de um estar melhor do que o outro, mas é normal. Mas todo mundo se dá bem no final, não tem desavenças e um torce pelo outro.

Como é o Touro Moreno. Ele é “brabo”?

Ele sempre foi um paizão, mas quem é brabo lá em casa é a mãe (risos).

A carreira decolou quando?

Quando entrei para a seleção, disputei alguns torneios. Decidi treinar para o Pré-Olímpico. Em 2008, disputei a vaga para Pequim e perdi. Fiquei muito mal e pensei em não lutar mais. Mas depois de uma conversa com minha família e de me recuperar emocionalmente, passei a treinar. Troquei de categoria. De 75kg, fui para 81kg. Disputei Pan de Guadalajara em 2011 e ganhei a medalha de prata. Consegui a classificação para os Jogos Olímpicos de Londres em 2012. Eu e o Esquiva (irmão) ganhamos medalha, ele de prata e eu a de bronze.

As medalhas olímpicas mudaram a vida de vocês?

Sim, em termos de reconhecimento, nome e fama. Mas, financeiramente, não mudou nada.

Yamaguchi tem bronca de promessas não cumpridas pelo COB após a medalha olímpica (Foto: Thiago Coutinho)Em 2014, você decidiu se profissionalizar. Por que abriu mão de disputar vaga para a Olimpíada do Rio/2016?

Quando um atleta conquista uma coisa, ele quer logo outra. É muito legal ganhar uma medalha e levar a bandeira do Brasil. Mas isso não garantia recursos financeiros para me manter. Com a profissionalização, eu passei a disputar as bolsas quando tinha lutas. Foi o que me manteve. Tive muitas promessas pelo COB (Comite Olimpico Brasileiro), mas nenhuma delas foi cumprida. Então, o jeito foi me profissionalizar. Me decepcionei com o COB e com a seleção brasileira também.

Que lições tirou da primeira derrota como profissional, justamente na sua última luta, contra o americano Cristopher Pearson?

Sinceramente, eu ainda questiono sobre a decisão dessa luta. Não vejo aquilo como derrota. Tive momentos ruins, mas na minha opinião, até o sétimo round, eu fui melhor do que ele. Eu não estava preparado para perder. E no mundo esportivo, temos que estar preparados para a derrota também. Não tem jeito. Tive até de ir a uma psicóloga para resolver essa questão. Sinceramente, pensei em parar.

Yamaguchi sobre o estilo provocador no ringue: "É a minha marca" (Foto: Golden Boy Promotions (23/07/2018))No ringue, você tem o estilo provocador. Vai mantê-lo?

Sim, é o meu estilo. É a minha marca. O mundo do boxe gosta disso. Os brasileiros, não. Mas lá fora, eles pedem para provocar, para chamar o público. Pretendo continuar.

Você não acha que está na hora de subir o nível dos adversários nas próximas lutas?

Sim, claro! Acho que tenho condições para disputar cinturões. Mesmo o nosso País sendo muito humilde ainda no boxe, em relação a outros países latinos como México e Argentina.

Você coloca um prazo para essa projeção de lutar por um cinturão mundial?

Sim, daqui a um ano. Inclusive isso está no meu contrato com a Golden Boy (empresa que promove as lutas do capixaba). Essa derrota me atrapalhou um pouco, mas também dependo de outros lutadores aceitarem o desafio para eu conseguir.

Seu irmão, o Esquiva, foi morar nos EUA. E você?

Morei quase um ano lá. Para mim, sinceramente, não foi lá grandes coisas. Fiquei 10 meses lá sem lutar. Quando morei aqui, foi bem mais competitivo para mim. Não faz parte dos meus planos (voltar para os EUA).

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