Um imigrante japonês, mestre de caratê, que deixa o seu país rumo a América em busca de oportunidades, e que passa anos vivendo recluso em uma cidade litorânea, até abandonar o anonimato para ajudar um jovem a ser campeão.
O que parece ser a sinopse do clássico filme dos anos 80 “Karatê Kid”, que eternizou o personagem senhor Miyagi em seu refúgio no Sul da Califórnia, na verdade é o enredo de uma história real com cenário no litoral capixaba.
No lugar do icônico personagem vivido pelo ator Pat Morita, entra o mestre Luiz Tasuke Watanabe, maior carateca vivo do Brasil e um dos mais respeitados do mundo. E que há 25 anos reside de maneira quase anônima no balneário de Setiba, em Guarapari.
Assim como no cinema, o “Senhor Miyagi de Setiba” também tem o seu “Daniel San”: o ex-campeão do peso meio-médio do UFC Lyoto Machida, que o visita em Setiba, sempre de forma reservada, atrás de aprimoramento técnico, e que o trata como “tio Watanabe”.
A figura, de pouco mais de um metro e meio de altura e passos firmes, que anda de um lado para outro no pequeno terreno a poucos metros do mar e não aparenta ter seus 72 anos, nasceu em Hokkaido, ilha ao Sul do Japão, e veio com a família para o Brasil em 1955, quando tinha apenas 8 anos.
Técnico da seleção brasileira de karatê-dô tradicional, coordenador internacional de Arbitragem, e membro da comissão técnica da Federação Internacional de Karatê Tradicional (ITKF), Watanabe entrou para a história ao se tornar o primeiro ocidental campeão mundial de caratê, em 1972.
E não parou nisso. O sensei tem seu nome gravado no Livro dos Recordes com um feito até hoje inédito: venceu oito das nove lutas no Mundial de Paris por ippon, o golpe perfeito do caratê, considerado como nocaute.
“Todas as lutas duraram entre 30 e 40 segundos”, recorda Watanabe.
Foram três anos de contatos até convencer o recluso mestre a dar entrevista. “Escolhi Setiba por causa da tranquilidade. Viajo toda semana pelo Brasil e para o exterior para dar palestras e aulas, mas é aqui no Espírito Santo que busco a paz”, explica.
Viagem de três meses até o Brasil e escravidão

“A ideia que passavam para as crianças sobre Nambei — como chamam a América do Sul — era que aqui era só mato. Vim feliz, achando que viraria Tarzan”.
Watanabe lembra que os japoneses chegavam ao País sem saber para onde iriam. “Ficamos mais de uma semana morando em armazéns. Aí mandavam tantas famílias para um lugar, outras para outro. Foi aí que mandaram minha família para uma fazenda em Ponta Porã (MS), divisa com o Paraguai”.
Vir ao Brasil não significava de cara estar num lar de prosperidade. “Vivíamos em regime de escravidão na fazenda. Nos primeiros quatro anos não recebíamos nada. Só depois que o japonês ganhava um dinheiro para comprar uns poucos hectares de terra e tocar a sua vida”, descreve.
O nome “Luiz” ele ganhou antes de entrar na escola. “Para se matricular na escola, tinha de ter certidão de nascimento, mas os japoneses não tinham. Aí, quando íamos tirar o documento, o rapaz na mesa olhava para sua cara e definia ali o seu nome. Ele olhou para mim e disse que eu tinha cara de Luiz, e assim ficou”, explica.
