O Barcelona comandado por Pep Guardiola entre 2008 e 2012 marcou época no futebol mundial com o seu “tiki taka” que abusava da posse de bola para dominar os adversários, mesmo jogando no campo de ataque.
No Brasileirão, um estilo oposto é o que tem mais sucesso. Líder isolado com 54 pontos, sem ninguém na sua cola até o momento, o Corinthians foi campeão paulista e chegou a ficar 34 jogos sem perder. Por diversas vezes, venceu por 1 a 0.
A especialidade do Timão é jogar sem bola, ou seja, deixar a bola com o adversário, mas ser eficiente nos contra-ataques quando conseguir recuperá-la. Afinal, vale ou não a pena ter a posse de bola no futebol brasileiro?
“Acho sempre bom manter a posse de bola, mas você tem que ter outras possibilidades também”, opina o ex-lateral e atual treinador Jorginho.
“Só com a posse de bola, no toque, nem sempre você consegue penetrar na defesa adversária”, completou.
Ex-auxiliar técnico da Seleção Brasileira, Jorginho comandou o Bahia, seu último clube, entre 2 de junho e 31 de julho. Nesse período, enfrentou o Corinthians, que prefere não ter a bola.

“Fui superior ao Corinthians em termos de posse de bola, mas perdi o jogo (3 a 0). Mas é tipo 55% contra 45%”, lembra Jorginho.
Ex-zagueiro da Seleção, Mauro Galvão acredita que determinar um estilos de jogo com ou sem a posse de bola depende do elenco que o treinador tem à disposição.
“Não é a posse de bola que determina a vitória. Ela é um estilo de um time. Às vezes tem esse estilo, mas não adianta querer implantar sem ter o estilo pelos jogadores.”
O jornalista Celso Unzelte vai na mesma linha de pensamento.
“Meu sonho é que todo mundo jogasse como o Barcelona. Mas cada um luta com as armas que tem. Quem não tem um time de bons valores individuais, dá a bola ao adversário para ganhar no erro dele. O nosso Brasileirão mostra bem isso”, analisou.

Desportiva Ferroviária tem a posse de bola como característica
A Desportiva Ferroviária, semifinalista da Copa Espírito Santo, teve a melhor campanha da primeira fase. Com 25 gols marcados – somou para 26 na derrota para o Espírito Santo por 2 a 1 – e nove sofridos no período de confrontos da chave B (agora são 11), o sistema de jogo da equipe é de ter a posse de bola, segundo o técnico Rafael Soriano.

“Na grande maioria dos jogos teve a posse da bola. A questão não é ter ela ou não, é saber o que fazer com a bola. Não adianta ter a posse de bola e não agredir, não ter profundidade. Eu particularmente gosto de ditar o ritmo do jogo. Não criar e não converter em gol, de nada adianta ter a posse”, afirmou o treinador.
Na semifinal da Copa Espírito Santo, Rafael Soriano faz comparações entre a Locomotiva Grená e o Espírito Santo, adversário desta fase.
“O Espírito Santo joga muito igual ao Corinthians, com um sistema defensivo muito forte. Se defende muito bem, é difícil tomar gols no campeonato e a Desportiva joga mais parecido como o Grêmio, num 4-2-3-1”, disse.
Técnico do Rio Branco, Erich Bomfim corrobora com as ideias de Rafael Soriano. Mas garante que o time Capa-Preta soube utilizar também o estilo sem bola durante o campeonato, em que liderou a fase de grupos na chave A e ficou invicto, com quatro vitórias e dois empates. Teve a primeira derrota na semifinal, para o Atlético/ES, por 1 a 0 no jogo de ida.
“Por exemplo, na estreia contra o Serra, tivemos a maior posse de bola. Já no primeiro jogo contra o Espírito Santo (na fase de grupos), jogamos de forma mais reativa, num 4-2-4, fazendo um bom jogo de transição. Assim temos um exemplo com a posse de bola e outro jogando no erro do adversário”, frisou.
Erich Bomfim acredita que é melhor que o treinador tenha cartas na manga para enfrentar os desafios ao longo de um campeonato.
“O que a gente tem que ter é alternativas. Não adianta eu ter só um estilo de jogo”.
Mauro Galvão: “O Vasco de 1998 sufocava os rivais”
Mauro Galvão entrou para a história do Vasco quando levantou a taça de campeão da Libertadores em 1998, sendo o capitão do time naquela campanha. Além do título continental, venceu o Brasileirão duas vezes (1997 e 2000) e a Copa Mercosul de 2000, entre as conquistas mais importantes pelo clube.
Na lembrança do ex-zagueiro, o time de 1998 “amassava” os adversários.
“Nosso time jogava em cima do adversário, ganhamos uma Libertadores assim. Marcava em cima e não deixava os caras respirarem. Mas nunca fomos um time de querer só segurar a bola”, afirmou.
Em entrevista ao Tribuna Online, Mauro Galvão opinou sobre os estilos de jogo durante sua carreira, principalmente sobre o Vasco de 1998. Para o ex-volante, o ideal é sempre olhar o campo de ataque: “Não gosto de ficar jogando lá atrás”.
TRIBUNA ONLINE – Como era o sistema de jogo daquele grande time do Vasco em 1998?
MAURO GALVÃO – Nosso time foi evoluindo. Em 1997 foi bem, ganhou o Brasileirão e tivemos a troca de atacantes, do Donizete para o Luizão. Jogadores de velocidade, de força, que começavam a marcação lá na frente. Com o Antônio Lopes (era o treinador na época), tínhamos essa definição de marcar os caras em cima. O Vasco de 1998 sufocava os rivais. Precisávamos ganhar os jogos. Para ganhar a Libertadores era fundamental conseguir impor nosso jogo em cima dos adversários. A gente treinava muito isso.

Havia uma preocupação em manter a posse de bola?
A posse de bola não era o objetivo, era fazer o gol. Para fazer isso, tinha que pegar a bola. Nosso objetivo era roubar a bola e ser rápido. Claro que aos poucos isso foi mudando, a gente adiantou mais a marcação. Não é a posse de bola que determina a vitória. Ela é um estilo de um time. Às vezes tem esse estilo, mas não adianta querer implantar sem ter o estilo pelos jogadores.
Na sua época como jogador, como era a cobrança sobre a posse de bola?
A gente não tinha muito essa preocupação de manter a posse de bola. Isso é uma coisa mais atual, está sendo mais abordada agora, principalmente as pessoas que trabalham com dados dos jogos, acabam fazendo com que a gente fale mais sobre isso. Na realidade, nós, com a bola, buscávamos chegar até o gol. Claro que não vão ser todas as vezes que vai conseguir. Tem que tentar girar a bola, enfim, isso sempre foi passado, para ter o controle da bola. Mas não tinha tanta ênfase.

No time campeão da Libertadores em 1998, o que era cobrado quando a bola estava com o adversário?
Essa forma agressiva de jogar foi a mais importante para a gente conquistar o título. E todo mundo comprou essa ideia e não era uma coisa de vamos jogar assim e pronto. Treinamos bastante para chegar nesse ponto. Mas isso só pode fazer se tu tem jogador, né? Não pode fazer isso com atacante preguiçoso, mais lento, que não tem uma condição física muito boa para marcar a saída de bola quando o rival saía jogando.
“Cada um luta com as armas que tem”

Por Celso Unzelte, jornalista dos canais ESPN
“Cada um luta com as armas que tem. Quem não tem um time de valores individuais, que precisa esperar o adversário, o Brasileirão todo mostra isso, joga a bola no adversário para ganhar no erro. A Itália ganhou três, dos quatro títulos mundiais desse jeito.
Temos que cobrar dos nossos técnicos a capacidade para querer a bola. Senão, vamos chegar a um ponto em que ninguém vai querer a bola. Não é que fizeram uma opção para não querer a bola, mas com o material humano que eles têm, com time mais compacto, cada vez menos individualidade, está se optando por isso. Tem um problema para o espetáculo.
O mais importante não é a posse de bola, é o que você faz com ela. Se você não for agudo, só toca para o lado, não adianta nada. Na Seleção Brasileira, pelo menos, o Tite pode convocar quem ele quiser, ele monta o time que quiser para efetuar suas estratégias. Nos clubes são o que eles têm. O Carille, coitado, não pode fazer muita coisa a não ser isso que vimos esse ano”.
Reportagem de Acácio Rodrigues
