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“Vamos nos manter no topo até 2020”, diz Maurício Lima, bicampeão olímpico de vôlei

Duas medalhas de ouro olímpicas, quatro títulos da Liga Mundial, um da Copa do Mundo e um do Campeonato Mundial. Um dos maiores vencedores da ...

Última atualização

Duas medalhas de ouro olímpicas, quatro títulos da Liga Mundial, um da Copa do Mundo e um do Campeonato Mundial. Um dos maiores vencedores da história do vôlei brasileiro, Maurício Lima é autoridade para falar sobre o esporte que conhece tão bem.

O ex-levantador Maurício Lima esteve em Vitória, onde distribuiu autógrafos e falou sobre o momento da seleção brasileira de vôlei: Mas o cenário apontado pelo ex-levantador pode ser preocupante. Apesar de se manter entre as melhores seleções do mundo, o Brasil pode sofrer nos próximos anos se o trabalho nas categorias de base não for bem feito.

Para Maurício, a seleção brasileira, tão acostumada aos títulos nas categorias de base, deixou de ter vida fácil. E a conta pode ser cobrada nos próximos anos com a ausência de grandes nomes na equipe principal.

“No infanto-juvenil, no juvenil, são categorias que o Brasil sempre se apresentou como o grande campeão, mas hoje em dia não está acontecendo isso. E o reflexo pode estar acontecendo agora, ou no futuro”.

Integrante do programa “Embaixadores do Esporte”, Maurício esteve ontem em Vitória, participou de uma palestra e de uma tarde de autógrafos e conversou com a reportagem de A Tribuna sobre o vôlei brasileiro e as dificuldades do esporte olímpico no País.

A Tribuna — A seleção brasileira ficou em quarto lugar na Liga das Nações e sofreu pesadas derrotas para Rússia e Estados Unidos. Como avalia o atual momento?
Maurício Lima —
Vejo por dois aspectos. Primeiro, claro que ninguém gosta de perder, mas tem um planejamento para chegar com toda força no Mundial, em setembro. O pico do planejamento é para o campeonato mais importante. Segundo, tivemos dificuldades com lesões. Atletas que são importantes na seleção estiveram fora. Casos do Lipe, do Lucarelli, do Maurício Borges também. E tivemos atletas que estavam jogando pela seleção pela primeira vez. O Brasil sempre entra muito forte, se vai ganhar ou não, é consequência de vários fatores.

Mas então vê a equipe entre os favoritos para o Mundial?
O Brasil sempre entra como uma das grandes forças para ser campeão. É assim na Liga das Nações, vai entrar assim no Mundial. Acho que está tudo bem planejado e a gente espera que eles consigam chegar bem fisicamente e mentalmente e tragam esse título.

Maurício é o jogador com mais títulos pela seleção brasileira de vôlei (Foto: Reprodução)A passagem do Bernardinho pela seleção foi repleta de títulos. Isso influencia nesse período de transição?
O Bernardinho nos “acostumou mal”. Eu estive lá durante muito tempo e foram várias conquistas importantes e significativas para o nosso vôlei. Manter isso é complicado. Tem que sair o tempo inteiro da zona de conforto, fazer coisas diferentes. É uma pedreira que o Renan Dal Zotto pegou, vai ter que manter um padrão muito alto de exigência.

Acredita que o Renan teve um bom início?
Acho que o caminho está sendo bem feito, espero que agora ele saiba quais foram os defeitos, os percalços que tiveram durante a caminhada na Liga das Nações. A gente tem muita confiança nessa comissão técnica toda que vai representar o País no Mundial.

A renovação está sendo bem feita? O Murilo se aposentou da seleção, mas voltou em outra posição (líbero)…
O Brasil sempre teve uma renovação muito grande, nunca fomos reféns de nenhum atleta. Saía um e vinha outro de igual nível. Mas acho que isso está pecando um pouco na seleção e vem do trabalho de base. De uma forma ou de outra, a seleção adulta está brigando aqui e ali, se mantendo. O problema que vejo é na base. No infanto, no juvenil, o Brasil sempre se apresentou como o grande campeão, mas hoje em dia não está acontecendo isso. Nós éramos sempre campeões sul-americanos, hoje em dia já tem uma dificuldade muito grande até mesmo para ganhar esse campeonato.

O problema está na Confederação ou está nos clubes?
É o conjunto, é tudo. O Brasil sempre foi muito forte no trabalho de base. Acho que deixaram um pouco de lado e não pode ser assim, porque futuramente a gente pode pagar por isso. Mas já vimos que o problema é aí. Vamos sofrer um pouco em futuras gerações. É treinar muito, dedicar demais, ter campeonatos internacionais para dar bagagem aos meninos.

Por quanto tempo vamos nos manter no topo?
Essa é uma geração boa, acho que até 2020, quando tem a Olimpíada no Japão, estaremos com esse time. Mas obrigatoriamente tem que surgir outros. Porque depois será difícil manter esse nível.

Maurício Lima (quarto da esquerda para a direita) conquistou a medalha de ouro em Atenas/2004 (Foto: Divulgação)Nós tivemos os Jogos Olímpicos no Brasil em que se falou muito de legado.
Legado zero!

Por que não soubemos aproveitar isso?
Foi triste, acho que nem começou na Olimpíada, mas desde a Copa do Mundo. São as duas competições mais importantes no planeta, tivemos ambas aqui no País e o legado foi zero. Deixamos passar uma grande oportunidade de usar o esporte como ferramenta de inclusão social. É muito triste!

Qual é a saída para o esporte olímpico?
A melhor política esportiva é ter o esporte juntamente com a educação, que é mais ou menos uma política igual à dos Estados Unidos. Você busca atletas nas universidades, nas “high schools”. Se você não se tornar um grande atleta, vai ser um bom acadêmico, você faz as coisas paralelas. E muito triste essa Medida Provisória que fizeram (MP 821), segurança é importante mas não tem que tirar de um para colocar no outro. Tem dinheiro suficiente para levar os dois. Nós esportistas temos que brigar para que isso não ocorra, é um retrocesso muito grande.

Falta investimento?
Hoje eu não sei como está em relação ao governo, mas na preparação para a Olimpíada, o que não faltou foi investimento. Isso eu tenho certeza. Não faltou dinheiro para que nós pudéssemos nos apresentar bem nas Olimpíadas. E depois que acaba, é esse desmanche todo, tudo isso de ruim que está acontecendo.

Quem é ele?

Maurício Lima
Idade: 50 anos
Naturalidade: Campinas (SP)
Modalidade: vôlei
Posição: levantador
Principais conquistas pela seleção: bicampeão olímpico (1992 e 2004), campeão mundial (2002), tetracampeão da Liga Mundial (1993, 2001, 2003 e 2004)

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