
Quando Reed morreu aos 71 anos, em 2013, DeCurtis começou a trabalhar na biografia do artista, o recém-lançado livro Lou Reed: A Life, ainda sem previsão de chegar ao Brasil. Para conseguir alinhar a obra, ele precisou traçar uma longa caminhada pelo lado obscuro do cantor. Com isso, ele foi bem além dessas histórias que todo mundo conhece.
O Lou Reed que aparece no livro é um artista brilhante, que ajudou a definir o significado de ser cool e a expandir os limites do rock por gerações, realizando uma missão que tomou para si de fundir “o mundo da alta literatura com o rock and roll selvagem”. Mas o cantor também foi – pelo menos nos tempos de juventude – um cara mimado e cruel. Já no ensino médio, em Long Island, Reed era o único adolescente da cidade que sabia onde comprar maconha, já lia a obra do Marquês de Sade, tocava em bandas de rock e frequentava os bares gay da região – mesmo que, para os amigos, Reed parecesse promiscuamente heterossexual. Na Syracuse University, ele repelia a turma das “festas de fraternidades” com suas primeiras experiências no mundo da composição, que resultou em faixas como “The Fuck Around Blues”, traficava drogas e contraiu hepatite ao usar uma agulha contaminada. Ainda assim, contrariando todas as expectativas, conseguiu se formar com honras.
O impacto causado pelo Velvet Underground, na segunda metade dos anos 1960, é um conto mais familiar, e todos sabem como o quarteto quebrou diversos paradigmas dentro do rock. Mas na obra DeCurtis existe um recorte sobre a “singularidade da vontade” de Reed: ele conseguia obter o que queria de gente como Andy Warhol (artista plástico e mecenas do Velvet), por exemplo, e depois simplesmente descartava a pessoa. Mas, talvez, a parte mais surpreendente seja a que retoma os anos do cantor logo após o Velvet. É bem conhecido o fato de que, nessa época, ele voltou a morar com os pais e começou a trabalhar como datilógrafo para o pai, mas a narrativa exótica do livro – enriquecida com história pouco ou nada conhecidas – deixa tudo ainda mais bizarro.
Já nos anos 1970, Reed estava dividido entre a excitante cena roqueira decadente de Nova York e os confortos de uma vida doméstica convencional. Esse conflito, aliás, é o cerne de uma de suas melhores canções, “Perfect Day”. No fim das contas, por mais que tenha desapontado e causado dor a amantes e parceiros de trabalho, Lou acabou encontrando o equilíbrio ideal, graças à decisão de deixar as drogas e à relação de mais de 20 anos com a artista performática Laurie Anderson, com quem ele se casou em 2008 e permaneceu até o dia em que morreu, em 27 de outubro de 2013. “Todos imaginariam que estar próximo a eles fosse uma loucura”, diz DeCurtis. “Mas era mais como ser amigo do atleta mais importante do time da escola e de sua namorada líder da torcida. Reed a respeitava muito.”