Antes mesmo de o sol raiar, Deilson Cruz, de 39 anos, sai todos os dias às 3 horas da manhã em busca do pão de cada dia para alimentar seus pais, mulher e filho. Seringueiro há 25 anos, o homem de mãos fortes, mas desgastadas pelo trabalho árduo desempenhado em uma fazenda no bairro Chapada Grande, na Serra, vive na esperança de dias melhores. É quando grande parte dos capixabas está dormindo que o trabalhador começa a lutar pela sua sobrevivência.
O despertador toca e ele calça as botas longas e veste uma camisa de mangas compridas. O seringal é cercado por mais de 65 mil seringueiras. Novas mudas da espécie foram plantadas e, até 2021, a previsão é de que mais 40 mil árvores possam estar aptas para serem “sangradas” (ter o látex extraído).

Diariamente, Deilson chega a sangrar 1.300 seringueiras. O seu recorde mensal de extração da borracha foi de 4.800kg. Hoje, essa realidade é bem diferente, pois há cinco anos ele luta contra a seca e a crise econômica. Essa é uma realidade de milhares no Espírito Santo.
“Sem chuva e com a baixa produção estamos sangrando a mesma quantidade de árvores, porém a nossa média de produção mensal chega a 1.800 kg a 2.000 kg. Fomos impactados bruscamente por essas crises. Mesmo assim eu não desanimo, é o meu trabalho, meu ganha-pão. Se nós não trabalharmos, não teremos dinheiro, pois ganhamos por produção. Apesar de tudo, não trocaria meu trabalho por outra profissão. Me encontrei no seringal”, contou Deilson.
O Espírito Santo é o quarto maior produtor de borracha natural do País, segundo o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper). Hoje, no Estado, existem 16 mil hectares de cultivo da planta.
Até 2020, a meta é expandir para até 75 mil hectares. A produção em 2015 no território capixaba foi de 16 mil toneladas. Para 2016, a perspectiva é de que haja uma queda de 40%. Hoje, 30% dos seringais paralisaram suas atividades.

O irmão de Deilson, André Cruz, 36 anos, veio para a mesma fazenda a convite do irmão. Eles estão entre as 16 famílias que moram no local, com um total de 14 seringueiros profissionais, que trabalham com carteira assinada.
André trabalha no local há 15 anos. Ele veio de São Mateus com a mulher e dois filhos. Sua meta diária é trabalhar cerca de 7 horas por dia, sangrando 1.500 árvores.
“O seringal é um ambiente de amor. Cada árvore é como se fizesse parte da nossa família e por isso nós temos que cuidar, zelar por esse bem, que está sendo prejudicado pela falta de chuva e, com isso, dificulta o nosso trabalho e principalmente a sobrevivência. Eu olho para a árvore e vejo amor, porque eu tenho carinho por elas. É de cada corte que eu faço que vem o meu sustento, o leite dos meus filhos, o meu lar. Isso não pode acabar”, desabafou André.
No Estado, 80% da produção são comercializados através da Cooperativa dos Seringalistas do Espírito Santo (Heveacoop), que está sediada em Vila Velha e atende aos produtores do Centro e Sul, e Cooperativa dos Produtores de Borracha do Espírito Santo (Coopebores), sediada em Linhares e que atende principalmente aos produtores do Norte. Essas instituições fortalecem a união da prática da extração da borracha, valorizando a união das famílias de produtores na busca por um preço melhor para o produto.
https://youtu.be/GSQFk-ho4W8
Estado tem 2 mil seringueiros, diz Incaper
No Espírito Santo, de acordo com o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), existem cerca de dois mil seringueiros trabalhando atualmente. O número já chegou a ser cinco vezes maior, segundo produtores, mas com a crise financeira, muitos abandonaram seus trabalhos em buscas de outras oportunidades.
Os trabalhos de pesquisa com as seringueiras começaram a ser desenvolvidos depois que o Estado começou a fazer parte do Programa de Incentivo à Produção de Borracha Natural (Probor) II, do governo federal, em 1979.
Itamar Alvino de Souza, que é engenheiro agrônomo e chefe do escritório do Incaper, em Vila Velha, salientou que as terras capixabas tinham as melhores condições para a produção na época.
“Essa inserção no programa ocorreu devido ao fato de os dados da produção capixaba de borracha serem bem superiores aos da média nacional na época. Além disso, o clima regional não oferecia condições para o desenvolvimento da principal doença da seringueira, o mal das folhas, causada pelo fungo Microcyclus ulei”, explica o engenheiro.
Itamar explica que hoje, o regime de exploração da seringueira no Espírito Santo, em sua grande maioria é sob a forma de parceria, que pode variar de 35% a 50% da produção. Essa atividade ocupa em torno de 2.000 trabalhadores. É aí que entra a grande participação do Incaper com estímulos aos produtores e seringueiros, trazendo oportunidades para aqueles que querem ingressar na prática.
“Nós entramos com o suporte de assistência técnica desde o plantio do seringal, passando pela condução e sangria, até ao processamento do látex. Ao longo do ano são ofertados cursos de sangria em seringueira, que são destinados a trabalhadores rurais, bem como para pequenos produtores. Esses cursos têm a duração de 44 horas”, disse o engenheiro.

No Espírito Santo, a seringueira em sua grande maioria é sangrada de três em três dias. Em torno de 95% do que é produzido é comercializado na forma de Cernambi Virgem Prensado (CVP). O restante é transformado em látex centrifugado, que pode ser comercializado desta mesma forma.
“Em um dia de calor, logo após as 10 horas, esse látex coagula e se torna cernambi. Geralmente, no dia seguinte, o seringueiro o recolhe e o deposita em caixas plásticas e coloca um peso sobre o produto para que seja retirado o excesso de água. Após essa operação, o produto está pronto para ser comercializado na forma de CVP”, disse Itamar de Souza.
Crise interrompe produção de látex
O látex atualmente não está sendo vendido no Espírito Santo. A indústria que faz a centrifugação deste material, a Viana Agro Industrial, situada no município de Viana, não está funcionando desde outubro de 2015, devido à crise econômica.
Segundo a produtora e gerente da empresa Danieli Oliveira, a competição com o produto mais barato que vêm de fora do País, com baixos tributos, faz com que as empresas comprem o látex em maior quantidade, desprezando a produção nacional.
“Devido ao momento de crise econômica, suspendemos as nossas atividades em outubro do ano passado. O produto importado está saindo mais barato do que o nosso, então fica inviável o processamento. Cerca de 60% do látex utilizado no Brasil vêm de fora e apenas 40% são nacionais. Aqui, a borracha saía por R$ 8,20 o quilo, enquanto o concorrente que é de fora do País fatura comercializando em até R$ 5,00. Ambos são produtos de qualidade”, disse Danieli.
A queda na produção já se arrasta por mais de 10 anos, segundo produtores. Danieli acredita que a única saída encontrada foi apostar em uma cooperativa, para administrar as vendas da sua empresa. É nesse espaço que ainda existe a caixa de esperança para saírem de uma crise.
“Atualmente, nós não produzimos, mas embalamos. Por exemplo, se hoje você for até o supermercado comprar um pacote de luvas, verá no pacote ‘embalado no Brasil’, isso mostra a queda da nossa força na produção de látex. Agora nossas vendas estão sendo negociadas por uma cooperativa, como borracha, onde acreditamos que ainda conseguiremos dar a volta por cima nessa crise. Se não tivesse essa união, o impacto negativo poderia ser maior”, enfatizou Danieli.
Cooperativa capixaba é a aposta para vencer barreiras
Diante das crises hídrica e financeira que assolam o País desde 2013, seringueiros e produtores de borracha no Espírito Santo enfrentam dificuldades para conseguir alavancar a produção. Com o auxílio da Cooperativa dos Produtores de Borracha do Espírito Santo (Coopbores), eles acreditam que vão conseguir superar os obstáculos naturais e financeiros.
Criada em 2006, a Coopbores nasceu para trazer oportunidades ao pequeno, médio e grande produtor de borracha do Estado, de acordo com Jairo Cesar de Oliveira Junior, que é diretor financeiro da cooperativa. Hoje com 37 cooperados, a atividade é capaz de atender mais de 120 famílias de toda do Estado, nos municípios de Linhares, Sooretama, Jaguaré, São Mateus, Serra, Viana e Guarapari.
“Para quem é cooperado da Coopbores, oferecemos melhores negociações de preço, assistência técnica, dentre outros benefícios para o desenvolvimento da atividade. Com a união dos produtores de borracha do nosso Estado, conseguimos alinhar a pequena e alta produção, trazendo oportunidades para que todos os produtores do Estado fossem atendidos”, explicou Jairo.

José Edmilson Silva Gonçalves, 44 anos, administra a fazenda Caimirim, do cooperado Célio Pitanga, na Serra. Ele, que é seringueiro há 20 anos, disse que hoje, diante de toda a crise econômica e hídrica, a cooperativa contribuiu muito para os produtores da fazenda. Segundo ele, se a Coopbores não tivesse assumido as negociações, hoje não estariam produzindo mais.
“É desesperador ver toda essa situação ruim que estamos passando. É a falta de chuva, é uma disputa comercial grande com produtores de fora do País, são os impostos altos. Está cada dia mais complicado. A cooperativa veio para nos ajudar e hoje estamos mantidos com a mesma quantidade de trabalhadores, desde quando foi inaugurado o seringal. Se não tivesse apoio da Coopbores, hoje estaríamos de portas fechadas e famílias estariam desempregadas”, alertou José.
Somente a Coopbores negociou cerca de R$ 10 milhões de borracha em 2011. O cenário de negócios desde 2011 declinou. Neste ano, as negociações não ultrapassaram R$ 3,6 milhões, mas voltaram a crescer em relação ao ano de 2015, quando foram negociados cerca de R$ 3,2 milhões. No período de 2011 até 2016, a cooperativa teve uma queda de 34,21% na produção e 44,27% nos preços.

Com o apoio da instituição e de outras cooperativas no País, do ramo da borracha, foi possível criar no ano de 2014 a Associação Brasileira de Produtores e Beneficiadores de Borracha Natural (Abrabor). Aliadas por uma única causa, eles conseguiram fazer com que a taxa de importação saísse dos 4% e fosse para 14% sobre o produto de fora, que é comprado por empresários no Brasil.
“Essa foi a alternativa de maior sucesso realizada pela categoria, já que disputamos espaço nas empresas com a borracha importada. Fator que nos faz ter de pensar estratégias para não sairmos perdendo para os produtores estrangeiros. A Cooperativa precisa do seringueiro, assim como eles precisam de nós e queremos a cada dia mais, motivar esse profissional, a ter qualidade de vida”, enfatizou Jairo.
A cooperativa envia a borracha para uma empresa de pneus na Bahia e também de São Paulo. Hoje, ela vende o quilo da borracha por R$ 2,40, mas a expectativa dos próximos meses é de que esse valor possa aumentar para R$ 2,80, valorizando mais o produto brasileiro e principalmente, capixaba.
Reportagem especial de Vinícius Rangel.
