
Os pacientes que sofrem com doenças psiquiátricas, como depressão grave, vão poder contar com mais um tratamento no Estado. Uma cirurgia inédita para tratar transtorno obsessivo compulsivo (TOC), depressão e distúrbio de agressividade imotivada será feita pela primeira vez em pacientes do Espírito Santo.
A técnica usa dois eletrodos para mudar o comportamento da região afetada pela doença. De acordo
com o PhD em Neurocirurgia Walter Fagundes, que será responsável pela equipe que fará a cirurgia no
Estado, o dispositivo é mantido no núcleo da área afetada, mudando a atividade cerebral da região.
“No caso do TOC, por exemplo, o eletrodo é instalado no tálamo. Uma vez colocado o dispositivo na
região-alvo, ligo no gerador ou marcapasso, e, assim, é possível controlar a estimulação elétrica por meio da voltagem e frequência, além de fazer estimulação em cada um dos quatro polos do equipamento”, explicou.
O neurocirurgião destacou que a nova técnica de neuropsicocirurgia, conhecida como DBS (Deep Brain Stimulation) ou Estimulação Cerebral Profunda, já foi usada no Estado para tratamento de doenças
como Parkinson, dores crônicas e epilepsia, mas a novidade é que a técnica será usada para tratar de
problemas psiquiátricos.
Ele acrescentou ainda que, em casos de pacientes com depressão, o eletrodo é implantado na região
do giro do cíngulo, que faz parte do sistema límbico, responsável pelas emoções.
“A cirurgia não é um processo curativo. A ideia do tratamento é controlar os sintomas da doença, que acaba sendo incapacitante para o paciente. Os estudos mostram que há em torno de 60%, em media, de melhora dos pacientes que têm indicação de tratamento. Esse índice, associado à medicação, pode ser até maior”, explicou.
O procedimento inédito será feito em dois pacientes da Grande Vitória até o final deste ano. “Os dois
pacientes são jovens que sofrem com o TOC e já tentaram todos os tipos de tratamentos, mas ainda não conseguiram resultados satisfatórios. Temos que resolver questões com a cobertura do plano de saúde, mas até o final deste ano, pretendemos realizar a cirurgia”.
Saiba mais:
Risco de complicação é de 2%
O que é a nova técnica?
>A nova técnica de neuropsicocirurgia usa procedimentos neurocirúrgicos com o objetivo de tratar alguns transtornos psiquiátricos.
Quem pode fazer a cirurgia?
>O novo procedimento é indicado para pacientes que já tentaram todos os tipos de tratamento para
doenças psiquiátricas, mas ainda não conseguiram resultados satisfatórios.
>A cirurgia é indicada para 10% a 20% dos pacientes que sofrem com essas doenças. Um dos pré-requisitos é que o sintoma incapacite a pessoa de fazer atividades do dia a dia.
>Além disso, é preciso seguir um protocolo rígido e extenso para realizar a cirurgia. O paciente ( ou a família) tem de consentir. O risco de complicação é baixo, de 2%.
>São necessários ainda laudos de avaliação de um psiquiatra, de outro neurocirurgião, de psicólogo, além de exames de imagem.
>Todos os documentos, junto com o histórico do paciente, são encaminhados para o CRM, que reúne o
Conselho de Psiquiatria para avaliar toda a documentação, decidir se o paciente tem ou não indicação, e liberar o procedimento.
Fonte: Neurocirurgião Walter Fagundes.
Reportagem de Lorrany Martins e Milena Martins para o jornal A Tribuna desta quinta-feira.
