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Comerciante da Leitão da Silva faz desabafo: “Fazer luto para bandido?”

Policiais passam em frente às lojas fechadas, na Leitão da Silva na hora do almoço. Foto: Fábio Vicentini/AT Mais de 20 anos no mesmo ponto, e na ...

Comerciante da Leitão da Silva faz desabafo: “Fazer luto para bandido?”
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Policiais passam em frente às lojas fechadas, na Leitão da Silva na hora do almoço. Foto: Fábio Vicentini/AT

Mais de 20 anos no mesmo ponto, e na manhã desta quinta-feira (26) um comerciante, de 52 anos, contou ter vivido momentos de terror dentro da própria loja, com o anúncio do toque de recolher, na avenida Leitão da Silva. Na condição de não ser identificado, por medo de represália, ele contou à reportagem de A Tribuna que está na região há 20 anos, e nunca foi ameaçado como esta quinta.

A TRIBUNA – Como tudo começou?
COMERCIANTE – Por volta das 10h30, eu estava atendendo clientes, quando apareceram uns mascarados, outros sem máscara, xingando: “Fecha essas p…”. Um deles chegou a apontar uma
pistola, dizendo que quem não fechasse iria tomar tiro. Todo mundo começou a gritar e acabei abaixando as portas com clientes dentro.

> Como foi dentro da loja?
Desespero. Tinha cerca de 10 pessoas, metade era cliente. Eu tentei manter a calma para não passar o nervosismo para o cliente e gerar mais pânico. Mas entre os funcionários não teve jeito. Alguns ficaram amarelos, outros correram para os fundos e alguns se abaixaram com medo que os bandidos atirassem.

> Como ficaram os clientes?
Presos dentro da loja. Precisei dar água com a açúcar. Depois, eles ainda ficaram do lado de fora, e os
comerciantes tiveram que perguntar se os clientes poderiam sair para irem embora. Quando a polícia
chegou, os bandidos desapareceram. Os policiais disseram que poderíamos reabrir o comércio. Algumas
pessoas queriam abrir as lojas, mas muitos não se arriscaram, porque sabem que tem gente observando.
Quem vai arriscar? O jeito é obedecer. Um morador me aconselhou: “Não faz isso. Hoje a polícia está, mas amanhã nós não sabemos. Eles podem voltar e acabar com tudo”.

> Como se sentiu?
Na hora você se sente sem ação. Fica sem saber o que fazer. Uma pessoa coloca a pistola na sua direção,
você pensa que vai atirar. Você está ali trabalhando, sem saber o que está acontecendo, para um marginal chegar e impor que você feche.

> Há quanto tempo está na região?
Desde 1997 eu estou na região e nunca tive problema com ninguém no morro. Pelo contrário, todos vivem pacificamente. O mercado em crise, e nós fechando a loja em plena quinta-feira. Segundo disseram, isso tudo, porque dois rapazes estavam numa moto sem capacete, bateram no ônibus e morreram. Temos que fechar a porta em homenagem ao traficante que morreu, sendo que não fizemos nada. Além da crise, tem que fazer luto para bandidos? Se fosse um trabalhador não acontecia nada disso. Nunca aconteceu isso antes comigo. Não é porque é morro que só tem bandido, mas é uma situação difícil. Antes do meio-dia você coloca o funcionário para ir embora, numa crise que está, e ainda final de mês.

 

Reportagem Especial: Eliane Proscholdt, Francine Spinassé, Jéssica Cardoso e Luciana Pimentel

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