Semana passada retomei nosso tema atual mencionando o fato de que as melancolias/depressões têm nos ensinado sobre o homem de hoje e que, na medida em que se tornaram tão corriqueiras, são verdadeiros sintomas das dificuldades do tornar-se humano em um tempo que insiste em desumanizar o homem.
Anunciei que prosseguiria com Freud tomando como base seu texto “Luto e melancolia”, mas ainda é um pouco cedo. Vou precisar, antes, introduzir algumas noções importantes.
Para tanto retorno ao ponto pelo qual terminei, que foi trazendo à lembrança que a experiência humana é sempre atravessada por eventos que a psicanálise bem soube nomear como “trauma”.
Este termo, que faz parte do nosso vocabulário comum, tem diversos sentidos, porém, muitos deles se afastam daquele que conta se quisermos ir além na compreensão das coisas das quais sofremos e nos queixamos.
Não vou trazer tal conceito profundamente, mas sublinho que a psicanálise revela que, ao contrário do que acreditamos, nossa entrada no mundo como sujeitos é traumática por excelência. Isso quer dizer que somos todos, sem exceção, “seres traumatizados”.
A psicanálise aponta – lembrando que ela se baseia na fala das pessoas, em suas queixas, no acolhimento e na escuta do sofrimento, de nossa dor de existir -, inclusive, que a nossa constituição psíquica se dá não a partir de uma harmonia, mas de intensos conflitos que fazem com que a angústia esteja presente, desde sempre, em nossas vidas, e de que nada nos adianta negar isso!
Uma das primeiras constatações clínicas desse grande clínico/teórico, Sigmund Freud, foi a de que nosso aparelho psíquico, a “mente”, se quisermos, não se reduz aos neurônios, ao cérebro, por isso ele construiu um “modelo” para entender o funcionamento daquilo que anima o cérebro e sem o qual ele nem mesmo funcionaria.
Logo, a primeira hipótese freudiana foi a de que as perturbações humanas, de nossos sintomas mais banais aos mais graves, derivavam dos conflitos entre o que já se conhecia como “consciência” e o “inconsciente”, dois sistemas distintos que podem mesmo se opor em suas lógicas.
Isso quer dizer que podemos querer caminhar em uma direção e sermos, estranhamente, “arrastados” para outra; que fazemos coisas mesmo “sem querer”; que dizemos, muitas vezes “foi mais forte do que eu”, o que indica, francamente, que portamos uma divisão. Esse é o “trauma” que está para todos nós desde a origem.
Foi a partir dessas – e muitas outras – contribuições que a psicanálise veio a ser um verdadeiro divisor de águas para a compreensão das ditas “doenças mentais”.
Nas palavras de Urânia Tourinho Peres, grande psicanalista brasileira/baiana, “a análise freudiana introduz inegavelmente uma nova maneira de pensar o sofrimento psíquico: enfatizando a noção de conflito entre as possibilidades efetivas de realização de um indivíduo e os imperativos de um ideal exigente, Freud abre o caminho que conduz a valorizar o homem dentro de sua singularidade e marca a importância de seu discurso, de sua palavra, para a compreensão do sofrimento”, das depressões/melancolias, aqui no caso, como sua expressão extrema.
Partindo, então, da constatação de uma “divisão” em nossa origem, na origem do nosso psiquismo, é que Freud escreverá o mencionado texto, “Luto e melancolia” (1917), no qual lançará luz sobre a melancolia diferenciando-a do luto.
De início, ele nos adverte modestamente que suas hipóteses não valeriam para todos os casos, mas hoje conhecemos seu valor e importância no tratamento, nas intervenções na clínica quando aquele que sofre vem ao psicanalista falar de sua dor. Agora sim, articulando “trauma”, “divisão” e “conflito” talvez possamos seguir um pouco o caminho de Freud. Não é fácil, mas vale a pena!
DARLENE TRONQUOY é psicanalista, professora e membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória.
