por: Luiz Trevisan
“O primeiro sonho mineiro de chegar ao mar surgiu nos tempos do Brasil imperial”
Calendário 2018 surgindo no horizonte abre temporada das promessas eleitorais, incluindo seção de vendas de lotes na lua. Pré-candidato à Presidência da República, o deputado Jair Bolsonaro, legítimo representante da extrema-direita – que vai perdendo a vergonha de se assumir – foi a Minas Gerais dizer que pretende abrir um caminho do Estado até o mar. Se achou que era isso tudo o que os mineiros queriam ouvir, deu com os burros n`água, como diria o mineirinho contador de causos.
São outras as prioridades locais, e se for seguir por esse caminho afora, o que muitos mineiros desejam de fato é ver duplicados os 340 quilômetros da BR-381 entre Belo Horizonte e Governador Valadares, trecho de obra paralisada. É bem menos do que os 650 quilômetros para ligar Minas ao mar da Bahia ou Espírito Santo. De resto, Bolsonaro não foi sequer original em sua proposta com jeito de piada.
Em 1962, conhecido advogado e radialista mineiro Nelson Thibau disputou a Prefeitura de Belo Horizonte prometendo ligar Minas ao mar – a ideia era instalar um aqueduto entre Angra dos Reis e a Lagoa da Pampulha. Era tão mirabolante que, claro, virou folclore. Outra de suas idéias era construir uma Disney mineira, a “Thibaulândia, Uai”. Perdeu a eleição, mas ganhou popularidade e, em 1974, foi eleito para a Câmara Federal. Ao menos era honesto, virtude rara no mercado político, basta lembrar o senador Aécio Neves para atualizar e resumir a questão.
Os capixabas tiveram candidato à Prefeitura de Vitória com perfil similar ao Thibau, Chico Onofre, que disputou e perdeu tantas eleições que, a certa altura, criou a Associação dos Suplentes, para, enfim ter um cargo para chamar de seu. Em certa campanha, Onofre surpreendeu ao propor escadas-rolantes e teleféricos nos morros de Vitória. Ninguém levou aquilo a sério, ainda que não fosse uma má ideia de inclusão social. Também ao contrário de tantos com os quais disputou eleições, Onofre era um honesto trabalhador, representante comercial. E parecia gostar mesmo é do cheiro das urnas, pena não ser correspondido nessa paixão.
O primeiro sonho mineiro de chegar ao mar surgiu nos tempos do Brasil imperial, quando teve início a construção da ferrovia entre Minas e Bahia, do tempo em que se escrevia o nome do Estado sem o H. A primeira viagem sobre trilhos foi em 1882 interligando o Nordeste de Minas a Ponta de Areia, na Bahia, hoje Caravelas, transportando madeira e café, e assim foi por 80 anos. O progresso e a diversidade de transporte – com predominante opção pelo modal rodoviário –, tornou a ferrovia obsoleta, até que os trilhos “mandaram arrancar”, tal como descrito na bela canção de Milton Nascimento e Fernando Brant (“Ponta de Areia”).
Agora, Bolsonaro rebobina o sonho mineiro. No entanto, parece não empolgar, tem cara de factóide. Ao ponto de seu principal aliado no Espírito Santo, o senador Magno Malta (PR), que é baiano de nascimento e não mete mão em cumbuca, ter preferido não comentar esse assunto. No mais, todo mineiro sabe que o seu mar, longe ou perto, sempre esteve no Espírito Santo. Seja a bordo de um iate ou trazendo até a vaquinha mimosa para economizar no leite das crianças, é onda garantida.
É aqui onde não faltam praias e sobram motivos para festejar, principalmente durante o verão, quando o litoral capixaba se transforma em uma animada e ecumênica “Ponta da Farofa”, evolução natural da Ponta de Areia, ponto final, uai.
Luiz Trevisan é jornalista, escritor e compositor
